Reflektindo sobre “Reflektor”

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Num ano cheio de múltiplas interpretações musicais, “Reflektor” é mais uma canção daquelas. Apesar de não ser uma faixa de letra obscura, as muitas referências na canção possibilitam variadas interpretações. Aqui, falo de duas especificamente, que desembocam em uma terceira interpretação, que por sua vez transformaria a letra em algo de fato polissêmico. Cito trechos da letra e imagens dos vídeos lançados para a faixa, separando-os por temas, interpretações ou apenas referências usadas ao longo da nova música do Arcade Fire:

Ok, Computer

Se ‘Ok Computer’, do Radiohead, era um disco sobre o último estágio da sociedade ocidental logo antes da completa submissão ao computador, ‘Reflektor’ surge como um comentário sobre o momento atual, posterior à submissão. É uma interpretação que pensa a faixa como um comentário sobre os dias atuais, em que cada um possui no mínimo duas personas, duas representações de si mesmo: a online e a offline. O grupo usa a imagem da tela do computador no escuro da noite como imagem da solidão e do tédio contemporâneo. A escuridão é, por causa da luz, branca:

Trapped in a prism, in a prism of light
Alone in the darkness, darkness of white

Há também, no trecho acima, uma óbvia referência à capa do ‘Dark Side of the Moon’, do Pink Floyd e, por que não, ao recém-descoberto programa de fiscalização digital da NSA – a faixa inclusive termina com o verso ‘We all got things to hide’. (‘Prism‘ também é o nome do novo disco de Katy Perry, o que faz da palavra um dos maiores zeitgeists de 2013.)


Pouco mais a frente, o refrão de ‘Reflektor’ estabelece uma relação com a conectividade digital e as referências aos dias atuais continuam ao longo de toda a música, como na segunda estrofe:

I thought I found the connector
It’s just a Reflektor (It’s just a Reflektor)

(…)
We’re still connected, but are we even friends?
(…)
And now we’re staring at a screen.

Este tema cresce com o vídeo interativo da música, que usa as telas dos dispositivos como uma forma do espectador enxergar e interagir com uma outra realidade (no caso, a do Haiti).

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Disco Music

vídeo oficial da faixa dá a dica: a reflective age de ‘Reflektor’ pode ser também uma menção à disco music. O reflector simbólico no caso é o globo de luz. Considerando ambas as interpretações, cada uma representada por um dos vídeos divulgados, a banda cria uma interessante ambiguidade, em que a escuridão branca pode ser tanto o tédio da tela no quarto escuro quanto as luzes dos strobos da discoteca. De qualquer maneira, a solidão não cessa:

Trapped in a prism, in a prism of light
Alone in the darkness, darkness of white
We fell in love, alone on a stage
In the reflective age

Na realidade, o comentário a respeito da disco music é um comentário sobre a música nos dias de hoje. Não é à toa a escolha pelas presenças de David Bowie (a disco de ontem) e de James Murphy (representante da ‘disco de hoje’). A disco music de ‘Reflektor‘ é toda música feita hoje: a música como entretenimento, digital e comercial:

Alright, let’s go back
Our song escapes, on neon silver discs
Our love is plastic, we’ll break it to bits
I want to break free, but will they break me?
Down, down, down
Don’t mess around

O ’I want to break free’ pode ser tanto uma menção à música do Queen (um clássico da disco music, sendo o Queen um dos maiores ícones da música como arte E entretenimento) quanto um comentário romântico sobre a vontade do grupo de se libertar da prisão do music business do seu tempo.

Enquanto o vídeo interativo trata da conectividade atual, o vídeo oficial, lançado pouco depois, parece tratar ‘Reflektor‘ como uma reflexão sobre adisco music e o mercado de música. O grupo caminha no escuro, usando representações deles próprios, iluminados pela reflexão luminosa de um globo de luz. O comentário do vídeo é menos sobre a relação entre as pessoas e mais sobre a relação da banda com a fama (a representação de si mesma, portanto) e as expectativas do seu trabalho enquanto produto.

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Mitologia grega e religião

O grupo também faz paralelos mitológicos e religiosos para reforçar suas ideias. Uma destes momentos surge quando a parte francesa da letra apresenta um espaço e um tempo específicos para a escuridão branca criada na letra (que pode ser interpretada, relembrando, tanto quanto uma representação da vida conectada de hoje quanto a de uma balada discoqualquer):

Entre la nuit, la nuit et l’aurore.
Entre le royaume des vivants et des morts.

O tempo específico é a madrugada (entre a noite e a aurora). O espaço (metafórico) é aquele entre o reino dos vivos e o reino dos mortos: o limbo. Há nessa parte também a homofonia heterográfica que transforma ‘la nuit et l’aurore’ em ‘l’ennui et l’horreur’ (o tédio e o horror).

Há posteriormente uma menção a Cristo, cantada justamente por David Bowie, recém-renascido em 2013 com o disco “The Next Day”, o que fez um rapaz do RapGenius lembrar de um versículo bíblico (I Co 13, 12) onde São Paulo diz: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face”:

Thought you would bring me to the resurrector
Turns out it was just a Reflektor (It’s just a Reflektor)

A representação de Bowie como o Cristo da disco music não deixa de ser impressionante, mas a referência mais importante aqui é a da capa do disco, que traz a escultura de Rodin sobre Orfeu e Eurídice. A faixa parece conceber a história do casal como símbolo do amor perdido entre dois mundos (entre o reino dos vivos e dos mortos). Em resumo, Orfeu desce ao inferno para buscar Eurídice, só podendo olhar para trás após subir ao mundo superior, sob pena de perdê-la de vista; ao chegar ao mundo superior, olha pra trás para comemorar com Eurídice, mas ela ainda não havia chegado; Eurídice então desaparece para sempre da sua vista.

O amor vai nos separar, novamente

A partir da referência mitológica, o Arcade Fire reúne as duas interpretações referidas em uma só, de múltiplos significados. E o faz com o mais tradicional tema da canção pop: o amor entre duas pessoas. A ideia da pessoa amada ser um reflexo daquela que ama une-se às outras ideias de duplo (a representação digital e a representação artística) das interpretações anteriores.

A relação do vocalista Win Butler com Régine Chassagne se mostra perfeita para esse reunião de significados, pois ambos pertencem ao mesmo grupo, tendo se conhecido de fato no palco (‘We fell in love, alone on a stage’) e vivendo juntos as dificuldades e prazeres da fama e do êxito artístico e comercial. São, perdoem a cafonice, o reflexo um do outro. Essa ideia é representada musicalmente na faixa quando Régine canta ‘It’s just a Reflektor’, seguida num átimo de segundo por Win Butler, que repete a frase, como que refletindo a onda sonora iniciada pela esposa.

Reflekor‘ chega, então, à uma interpretação totalizante: a música se torna uma reflexão (rs) de Butler sobre seu amor por Chassagne e se ele sobreviverá tanto à fama (disco music) quanto aos dilemas da vida contemporânea (ok computer),com Butler, representação de Orfeu, se perguntando se verá sua amada do outro lado:

It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide
It’s just a reflection of a reflection
Of a reflection of a reflection
Will I see you on the other side?
We all got things to hide

Essa é também a interpretação mais óbvia, pois possui referências de significado mais e específicos, como o trecho ‘We fell in love when I was nineteen’, além das relações mais claras com a história de Orfeu e Eurídice, como no trecho:

If this is heaven
I don’t know what it’s for
If I can’t find you there
I don’t care

A história de amor de Win e Régine se torna então fio condutor das interpretações da faixa, da mesma forma que é o fio condutor da própria existência do Arcade Fire. É impressionante como Butler e Chassagne conseguem criar uma canção que reflita sobre tantos temas e não pareça um pedaço desconexo de citações perdidas entre versos. Essa façanha reflete a faceta mais interessante do Arcade Fire, um grupo musicalmente pobre, mas que consegue reunir na sua música diversos temas e referências de uma maneira coesa e relevante para os nossos dias. Não é acaso que estejam onde atualmente estão.

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  • Eder Cunha

    Cara, que análise linda!