Satanique Samba Trio – Ao Vivo na Cracolândia

por Izadora Xavier

Eu conheci o Munha, “o cara por trás e à frente do Satanique Samba Trio”, em 2007, num contexto tipicamente brasiliense: uma festinha de apartamento. Ele contou uma piada sobre alguém num barco. Quando eu ri, ele falou que eu não tinha capacidade intelectual ou senso de humor para entender uma piada daquele calibre, ou algo assim. E eu falei, “pior você que é careca”. A única coisa boa que retirei da nossa amizade até hoje foi esse pedido pra escrever um texto sobre o Satanique. Isso e uns vídeos de umas minas descendo a porrada em uns caras, em competição de MMA. Ele me mandava esses vídeos por email regularmente, como um testemunho ao meu feminismo e ao gosto particular do Munha por um quebra-fáite. Nós dois dividimos a crença de que uma das coisas mais irritantes que pode rolar é quando os caras “pegam leve” com mulheres treinando artes marciais.

A maior maldição do Munha é ter nascido numa época que ser maldito é hype. Ou hipster. I criticized traditional popular Brazilian music before it was cool, blá blá blá. Bicho fica zoando a música brasileira no que ela tem de mais massa e canônico e próprio e todo mundo acha lindo, descolado. Claro, porque ele faz isso de uma maneira que o Woody Allen faria, se música brasileira fosse Marshall McLuhan e o Satanique fosse a cena de Annie Hall da fila do cinema. O Munha quer ser maldito, mas ignora ou finge ignorar que uma crítica sofisticada ao samba – hipsters eat that shit up. E isso não é um resenha ou uma crítica, tá mais pro nível da ELOFENSA. Porque eu daqui a pouco vou dizer como o Satanique é massa, apesar do hipsterismo no qual ele acaba apenas resvalando, independente de quantas aulas de MMA faça o Munha ou quantas camisetas com bermuda ele OSTENTE na noite brasiliense.

Mas antes que a gente chegue lá, que fique claro: se você está procurando uma pauta musical para fechar aquela sua conversa de bar que começou com um debate sobre a influência de Tarkovsky no cinema de Godard, VAZA AGORA. Fiz um monte de pergunta meia-boca (eu não dou mesmo pra jornalista, salvo umas exceções resultado do consumo exagerado de álcool) e sinto muito. Como sou eu que está escrevendo esse texto, a treta do Munha com a estética vai ter que se subordinar à minha treta sociológica com basicamente tudo. De maneira que isso tudo vai se tornar rapidamente um elogio ao DF Medieval. Não ao maravilhoso trabalho de ficção blogueira do Munha & amigos, mas à cidade verdadeira por trás da homenagem. Foi mal, galera, no elaborate music analysis para vocês hoje.

O ponto de partida é esse tal de projeto Ensaio Aberto, também conhecido como “Satanique Samba Trio – Ao Vivo na Cracolândia”. Pra quem não conhece Brasília, a cracolândia de que falamos aqui é o Setor Comercial Sul, o único lugar no Plano Piloto onde, diria um amigo meu da arquitetura, rola escala gregária. Quer dizer, onde você consegue ver gente andando na rua. De dia, trabalhadores de todos os tipos; à noite, de dois tipos específicos: o das drogas e as do sexo. Os do roquenrou não contam, porque a gente sabe que roqueiro não conta como trabalhador, bando de vagabundo. Tipo a galera do Satanique, que resolveu tocar nesse lugar muito particular de Brasília, bem na hora da transição de um perfil de trabalho pro outro.

O ensaio aberto, bom, é um conceito auto-explicativo. Acabaram aparecendo uma meia dúzia de gatos pingados antes do show mesmo (que acontece, dã, no fim do ensaio). O ensaio dura duas horas; o show, vinte minutos (como costuma acontecer com os shows do Satanique). Durante o ensaio, além de eu e mais uns amigos/conhecidos que queriam ver mais do que só os vinte minutos habituais do Satanique, havia também uns certos “consultores”. Uma galera que foi convidada para comentar com a banda sobre a banda. Segundo o Munha, o ensaio também deveria servir como “workshop”, pra galera de fora, pra “comunidade”. Só que workshop, pro Munha, assim como ensaio, quer dizer ele com ares professorais dizendo o que a banda tem que fazer.

O ensaio aberto, pra mim, que acompanho o Satanique em uns buracos escuros e festas da UnB faz um tempo, tem uma certa continuidade lógica com uma outra parada que eles fizeram e que propõe uma forma tão pouco tradicional quanto a própria banda de se colocar em exposição. Há pouco mais de um ano, toda a galera do SS3 subiu num carro de som vestindo hoodies pretos (como a banda geralmente se apresenta), na época mais quente do ano, e saiu circulando pelo Plano Piloto no Satanique Samba Trio Elétrico. Segundo o Munha, “alguém comentou durante um dos ensaios que poderíamos abrir uma empresa de aluguel de trios elétricos chamada Satanique Samba Trio Elétrico para ‘amenizar o prejuízo’. Da piada óbvia, veio a luz. Caso raro.

Daí que chegamos onde eu queria chegar. O Satanique não é apenas esse prato cheio para o hipsterismo da galera do barzinho ou pro site de música descolado ou pelo comentário relevante que ele aporta à música brasileira. O Satanique, como o próprio Munha, representa, adiciona, ilustra algo de muito importante EM TERMOS DE CANDANGUISMO. Ou melhor, nos termos da galera que curte música em Brasília. E eu não tenho bem certeza – meu trabalho com minhas tretas sociológicas é muito vago e preguiçoso, mas isso do Satanique que eu tô tentando explicar também diz qualquer coisa sobre muita gente que faz música fora do eixo Rio-SP. Não sobre todo mundo que faz música fora do eixo Rio-SP, mas quem faz o local para valorizar o local, não pra estourar, não pra mostrar “pro Brasil” que o “rock de Brasília” é isso ou aquilo, ou “a cena de Brasília” é isso ou aquilo. Fodam-se os paulistas, na boa. Nada contra eles, assim, até tenho amigo paulista e tudo. Tenho até uma tia que é casada com paulista, também. Não sou preconceituosa.

A capital federal não é fácil, mas como é epítome do país, como ele, não é para amadores. Quem é conhecedor da Brasila não se furta de reclamar das passarelas e da dependência dos carros, mas acha linda a Esplanada dos Ministérios, está sempre conferindo o que tá em cartaz no Cine Brasília e sabe que só sente falta da “balãdã” aqui quem não tem as manhas – ou seja, não sabe na casa de quem é a festinha hoje. Foda-se o que diz “Rock Brasília – A Era de Ouro“. Vladmir Carvalho, você é demais, não me entenda mal, mas que merda de papinho de “Era de Ouro”.

Brasília taí, fazendo o que pode e isso é muito mais do que estar por dentro do hype paulistano. O final do filme “Rock Brasília” é o oposto de tudo isso que eu tô dizendo. Dinho Outro Preto é a pasteurização do que há de bom nessa cidade, fingindo ainda representar algo porque tá fazendo showzinho na Esplanada. Brasília se sustenta, sim, culturalmente, vamos bem, muito obrigada. Dinho Ouro Preto, go home (Rio de Janeiro). Se duvida, você devia visitar o cerrado, ir no Setor Comercial Sul com mais frequência – pelo menos nesse tempo em que ainda rola ensaio aberto do Satanique. O Munha vai estar lá, pra te xingar e dizer que você não tem capacidade intelectual ou senso de humor pra entender do que ele (a gente?) está falando.

Ensaio Aberto – Satanique Samba Trio

Terças-feiras, de 20 de março a 27 de novembro de 2012, de 17 a 21 horas.
Entrada Franca
Teatro SESC – Silvio Barbato
Setor Comercial Sul, Brasília – DF

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  • em termos de candanguismo o

  • omar salgado

    excelent elofensa, especialmente: comentário acertado sobre a escala craco-gregária de bsb; a desimportância do reconhecimento pelo eixo da via dutra; relevante casamento da tia com um paulista; o delírio coletivo que é esse lance de ‘Era de Ouro’, ressalvas feitas ao broderzíssimo e necessário vladimir (que em discotecagem [!] recente mandou umas três músicas da legião durante a naite. quem teve as manhas viu). _o/

  • izadora

    o comentário da escala gregária era especialmente pra vc, omar

  • izadora

    daew, bem me avisou o práxis de que é mcluhan e não luhmann; luhmann é o niklas, bróder que infelizmente nunca foi prop em nenhuma piada de woody allen

  • mouney

    Este texto foda me levou até essa banda, que é fodíssima e me fez rir muito. Foda pra caralho!

  • pará

    belo texto!