Entrevista: Apanhador Só

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De certa forma, a Apanhador Só é o perfeito arquétipo de uma banda independente brasileira nessa primeira década do século XXI. 4 jovens recém-saídos da faculdade, com referências tanto do rock de fora, quando da música aqui de dentro, tentando crescer dentro de um mercado desestruturado (ou estruturado para fortalecer que pagar melhor) sem perder de vista as motivações artísticas que os fizeram largar os trabalhos “normais” para viver de música.

Embora eles ainda não tenham “chegado lá”, seus dois primeiros lançamentos, “Apanhador Só” e “Acústico Sucateiro”, e a sequência de shows que a banda vem encarando desde então provam que o grupo está no caminho certo para se tornar um dos nomes centrais do rock brasileiro dessa década. Com um single récem-lançado, Alexandre Kumpinski (guitarra e voz) e Felipe Zancanaro (guitarra) da Apanhador Só conversaram com o Fita Bruta sobre os primeiros e próximos anos da banda, o novo álbum que deve chegar em 2013 e sobre as dificuldades de sair da sombra dos Los Hermanos, ainda a maior referência para essa geração.

Fita Bruta: Vocês estão fechando um ciclo bem bacana de trabalho. Como vocês reveem os últimos 2 anos? E como vocês imaginam que serão os próximos?
Alexandre Kumpinski: A gente vê como uma missão cumprida. O primeiro álbum teve mais repercussão do que a gente esperava, o que foi maravilhoso. Agora a gente vai se preparar para continuar trabalhando cada vez mais. Nunca pensamos “A gente quer isso”. Quer dizer, toda banda que lança um disco quer fazer show, viajar, viver disso. Acho que a gente deu belíssimos passos em direção a isso.

Esperamos lançar outro disco e espera que o nosso público continue crescendo como vem crescendo desde o lançamento do primeiro, fazer cada vez mais show para cada vez mais gente. Firmar esse passo que a gente tá dando na direção de viver de música, de construir uma carreira mesmo.

FB: Hoje vocês já se bancam como músicos?
Kumpinski:
 A gente tá trabalhando quase só com a banda. Sistematicamente fomos largando as outras coisas porque a banda começou a tomar muito tempo mesmo e a gente quer se dedicar cada vez mais a ela.

FB: Vocês pretendem continuar morando em Porto Alegre?
Kumpinski: 
Acaba sendo o caminho mais comum, mas não é um objetivo nosso. A gente não acredita que se mudar de Porto Alegre seja uma necessidade para continuar crescendo. Teria no máximo uma facilidade geográfica, de locomoção mesmo.
Felipe Zancanaro: A gente só vai mudar de Porto Alegre se precisar se mudar de lá mesmo. A gente tá se virando bem.

FB: Apesar de vocês nunca terem tido apoio de gravadora, empresário milionário, esse tipo de coisa, todo material lançado oficialmente mostra um cuidado absurdo, tudo bem feito, bem prensado etc. Mesmo tanto tempo depois, o do it yourself ainda compensa? Vocês imaginam tocar a carreira de vocês de outra forma?
Kumpinski: Compensa no sentido que a gente tem liberdade total, mesmo que a gente tenha dificuldade de lançar. Uma vez vencida essa barreira financeira, podemos convidar quem a gente quiser para fazer o projeto gráfico, ter a ideia sem passar pelo crivo de ninguém que não sejam nós mesmos.

A gente não acredita que se mudar de Porto Alegre seja uma necessidade para continuar crescendo.

FB: Em algum momento vocês já se imaginaram fazendo algo fora desse esquema?
Kumpinski: Eu pessoalmente nunca. Na verdade, a gente nunca conversou…
Zancanaro: É muito natural pra gente se cercar de pessoas em que a gente acredita no trabalho. Artistas que acham que vão contribuir com nosso trabalho e que nós vamos contribuir com o trabalho deles. Eu não consigo enxergar outra forma de trabalhar bem artisticamente senão dessa forma. Se não for assim, a motivação não vai ser a motivação artística e aí não nos interessa. Essa é a postura que a gente quer ter por enquanto. O formato não precisa continuar sendo esse, mas a motivação e as nossas convicções têm que continuar sendo as mesmas.

FB: Vocês tem um compacto vindo aí, certo? O que terá?
Kumpinski
: São duas músicas novas, “Paraquedas” no lado A e “Salão de Festas” no lado B. A ideia surgiu um pouco pra testar como que as possibilidades de como fazer o próximo álbum e também pra uma prévia do que seria esse próximo álbum e para ajudar na campanha que a gente pretende lançar no Catarse.me para financiar o disco. Tendo um material já concreto pra mostrar pras pessoas.

[Nota do editor: a entrevista foi feita em abril de 2012, antes do lançamento do compacto com “Paraquedas” e “Salão De Festas”, que pode ser baixado aqui.]

FB: Vocês já estão tocando músicas novas nos shows há algum tempo. Quais são os planos para um disco novo?
Kumpinski: A intenção é gravar agora no segundo semestre para lançar no início do ano que vem. A gente não sabe exatamente ainda o repertório, quantas músicas vão ser, mas deve gerar aí em torno de 11 e 12. Todas vão ser inéditas, tirando “Na Ponta Dos Pés”, que é a única que a gente decidiu regravar do “Acústico Sucateiro”.

O formato não precisa continuar sendo esse que a gente usa hoje, mas a motivação e as nossas convicções têm que continuar sendo as mesmas.

FB: Já está tudo composto? Vocês já tem ideia de sonoridade?
Kumpinski: Já tá tudo composto, mas a sonoridade a gente vai buscar na produção, quando entrar em estúdio mesmo. Boa parte delas ainda não tem nem arranjo. O que a gente tem um pouco em mente é fazer um pouco da fusão dos timbres do “Acústico Sucateiro” com o clássico guitarra-baixo-bateria. Trabalhar com alguma coisa que busque essas duas coisas. Mas não é nada definitivo, nem nada muito certo.

FB: Eu lembro que quando o primeiro disco da banda saiu, alguns fãs antigos reclamaram falando que os arranjos estavam muito convencionais. Daí um ano depois vocês lançaram o Acústico Sucateiro, que nesse sentido é completamente anti-convencional. Vocês acham que essa dualidade é pode virar uma marca da banda?
Kumpinski: Acho que sim e acho que esse próximo disco vai ser um encontro desses dois mundos, mais do que já teve até hoje. Mas estou falando no escuro, porque a gente ainda não fez a pré-produção. Mas acho que vai ser isso, a nossa ideia pelo menos é essa: trabalhar com a banda, com baixo, bateria e guitarras e experimentar usando arranjos com mais liberdade de instrumentação.
Zancanaro: De certa forma, esse compacto tem um pouco dessas duas coisas. O lado A é mais baixo-guitarra-e-bateria, ainda que um passo numa outra direção que não é exatamente a que a gente seguiu no disco e o lado B é um pouco mais sucateiro, mexe mais com outros elementos que não se encaixam necessariamente nesse “formato clássico”.

 FB: Esse é só o quarto show no RJ e acredito que haja várias cidades importantes onde vocês ainda nem tocaram ou só passaram uma vez. Por que é tão difícil para uma banda rodar o Brasil mesmo em 2012?
Kumpinski: Acho que ainda é preciso profissionalizar o cenário independente brasileiro. Ainda é um pouco desestruturado, amador em vários sentidos. Comparando com o que rola em outros países. Às vezes falta produtor para trazer o show, apesar do público querer. Geralmente tem gente querendo o show, mas muito pouca gente querendo organizar. Ou às vezes as propostas não fecham as contas.

FB: Com tanta coisa acontecendo na direção contrária – o sertanejo, o tecnobrega, o hip hop, a própria MPB de SP – como é ser uma banda de rock hoje no Brasil?
Kumpinski: A gente também não é exatamente uma banda de rock em todas as instâncias. Eu tava até falando com um amigo meu esses dias que a gente não era um do cenário das bandas de rock de Porto Alegre, vivemos à parte daquilo. E ao mesmo tempo a gente não era do cenário das bandas mais abrasileirada. Então é meio natural esse limbo entre um estilo e outro. A gente vai sempre caminhando desamparado de um cenário em volta, que nos sustente.

FB: “Nescafé” acabou se tornando a canção mais conhecida da banda, ganhou versões de outros artistas e tudo mais. Por que vocês acham que isso aconteceu?
Kumpinski: Não sei. Ela foi uma música que meio que se mostrou muito forte para gente. Por exemplo, os primeiros clipes que a gente fez foi de “Prédio” e “Um Rei E Um Zé”. Se eu fosse chutar uma coisa que levou a isso tudo, eu diria que foi a letra, as pessoas se identificam bastante.

Acho que ainda é preciso profissionalizar o cenário independente brasileiro. Ainda é um pouco desestruturado, amador em vários sentidos.

FB: Como surgiu a música?
Kumpinski: A composição dessa música foi uma loucura. Eu comecei fazendo ela no violão, comecei a letra. Depois passei pra um amigo meu, o Marcelo Souto, para que ele escrevesse o que viesse na cabeça dele, enquanto eu tocava o instrumental. Ele escreveu um monte de coisa que depois a gente recortou. Desse recorte, saiu a letra e os principais versos. Depois me juntei com o Ian Rammil para gente continuar a partir do que eu e o Souto tínhamos feito. Ficaram faltando algumas lacunas que eu acabei terminando com o Diego Grando.

Aí o curioso é que o Diego Grando e o Ian Rammil são co-autores da mesma música e eles nem se conhecem.

FB: E o clipe?
Kumpinski: A gente não fez nada nesse clipe para falar a verdade. O que a gente fez foi escolher a música e dizer para o Bruno Carboni, que é nosso amigo, “Cara, faz o que tu quiser”. E eu curti muito resultado. Não só a ideia do roteiro e a montagem, que é dele e do Ternuna. Um é o diretor e outro o diretor de fotografia, e a fotografia é muito importante para esse clipe. O Ternura tem um talento muito grande para tirar imagens belas mesmo, foi um golaço do Bruno Carboni chamar ele.

FB: O tamanho que acabou tomando a turnê dos Los Hermanos deixou bem claro a importância que a banda ainda tem no Brasil. Sendo uma banda que tem influencia deles, como vocês veem essa questão? Por que o rock brasileiro ainda não conseguiu produzir algum fenômeno semelhante depois deles?
Kumpinski: Talvez o impacto deles na música brasileira exista muito porque eles tenham sido a primeira banda que tenha surgido em muito tempo uma a qualidade de composição tão grande. E foi uma banda que surgiu para essa geração. Havia grandes bandas, Paralamas, Titãs, mas que eram bandas de outra geração, que surgiram para outras gerações. Para a nossa geração, de certa forma, eles foram a grande banda que surgiu com essa preocupação com a qualidade de som e de composição. Isso ainda é o que segura eles nesse posto porque nada ainda chegou no gosto de uma nova geração, muito menos dessa geração anterior que já se apegou a eles com tanta força.
Zancanaro: Acho que o fato deles terem trabalho com uma estrutura de gravadora ajudou também. Eles fizeram essa transição na verdade. Na real, eles nunca foram muito grandes, mas mesmo assim eles foram amparados por esse aparato midiático. Mesmo não sendo o principal produto da gravadora, eles estiveram nesse meio.
A partir disso, tudo se desestruturou e surgiram muitas bandas independentes que não conseguiram ter um alcance tão grande. Talvez até possa existir alguém que mexa com as pessoas dessa forma, mas o tempo que isso iria demorar para atingir as pessoas com essa magnitude, se atingir, é muito grande. Talvez não aconteça mais.

FB: Vocês falaram que o trunfo deles talvez seja a composição mesmo. Como compositores, o que vocês veem de diferente nos Los Hermanos?
Kumpinski: Acho que um resgate da canção, da música brasileira, com uma roupagem mais moderna. Eu vejo isso, que parece ser uma mistura coerente com o que o público tava querendo ouvir. A nossa geração ouvia MPB, curtia o rock e eles fizeram esse meio termo.
Zancanaro: Eles sempre fizeram algo que se propunha diferente, criativo, artístico mesmo.