Shows e festivais

Metá Metá @ Sala Funarte (17/03/2012)

Foto por Daniel Moura
5 perguntas para Kiko Dinucci:
Fita Bruta: Por que o Metá Metá parece tão rock and roll e por que ele nunca será descrito como “o nosso jeito de fazer rock and roll”? Não dá pra não encarar você como um guitar hero, ali.
Kiko: Existem vários jeitos de tocar rock n’ roll. Fela Kuti inventou o jeito dele de tocar funk. Jorge Ben é Rock, Nelson Cavaquinho tem a postura mais rock do mundo. Tem um grupo do deserto do Mali chamado Tinariwen que fazem rock do jeito deles. Não precisamos copiar os modelos ingleses ou americanos. O Siba na adolescência curtia metal, depois descobriu na música tradicional muito mais agressividade que nesses grupos. Me enxergo como um punk, sempre serei, não vou me prender a regras. Minha música tem sempre agressividade e sujeira.
FB: O disco parece não sofrer com a transição pro palco. Pelo contrário, só cresce. Mesmo assim, houve algum cuidado especial ao formular o show do Metá Metá ou é o mesmo esquema do estúdio: vocês e basta e pronto?
Kiko: Só percebemos que o disco tinha lado A e lado B depois de lança-lo. Não foi nada programado, foi um movimento natural e espontâneo, por isso que acaba dando certo.FB: É impossível imaginar outra formação do Metá Metá. Você projetou isso desde o início?
Kiko: A formação do Metá surgiu quando eu e Juçara chamamos o Thiago para fazer uma versão acústica do Padê, sacamos naquele momento que dava um caldo diferente, o suficiente para pensar em um novo disco.FB: Qual será o seu Sambazo? E o Passo Torto? Quem quer ouvir mais Kiko Dinucci busca onde?
Kiko: Sambanzo é um trabalho do Thiago França, que também tem o MarginalS. Sim, teremos outro Passo Torto. E já estamos preparando o Metal Metal que será ainda mais agressivo. É o “lado b” do Metá Metá com o peso multiplicado.

FB:  Todos da sala levantaram a mão e indicaram que  haviam baixado o disco. Tem aquele clichê, né?, “Artista ganha dinheiro com show”. O show estava R$ 2,50 – lotado, por causa do disco. As coisas são tão claras assim? Qual seria um cenário mais ideal?
Kiko: O download gratuito ajuda a divulgar o trabalho, depois as pessoas vão ao show, cantam as músicas e na saída se empolgam porque temos CDs físicos, com capas bonitas e preços bons (R$10). Essa é basicamente a espinha de toda nossa estrutura de sobrevivência.

É constrangedor. Uma fixação infantil que, com esforços, chegaria a ser pueril. Finda um ano e os olhares se voltam para o calendário de shows internacionais que aqui aportam. Não obviamente por causa da atenção que geram, mas o rubor se faz pois há algo muito intrigante quando um espetáculo de R$ 5,00 (R$ 2,50 a meia) lhe faz se arrepender de escolhas que julgou acertadas.

Passar a vida, ano-a-ano, se escorando em uma lógica de perde-ganha, de saldo-débito e, de repente, do alto do seu eu de escolhas que te deixam em vantagem nas rodas sociais, se encantar com um show gratuito, um show que custa a passagem de um ônibus. E pode causar um rombo no teto o um pulo que advém da sua lembrança de que batalhara muito em um sistema eletrônico de vendas para, então, mendigar um ingresso de concertos para uma juventude muito duvidosa e hesitante. Desconfortável. É hesitante hesitar das escolhas que você já fez quando você se depara com milhões de si mesmo em cima de um palco: falando as suas línguas, tocando os seus violões, vestindo aquela roupa conhecida como roupa e não como o que se precisa vestir para convencer. Definitivamente constrangedor.

Ano passado tava aí há pouco tempo. Essa relação não é tão óbvia: o passado se conquista por sua associação ou não. O “há pouco tempo” é um lembrete de que a agenda se inverte fácil. E, cá estamos nós, assistindo em 2012 um show do Metá Metá, Festival SP Representa, sala Funarte, 19:30h, R$5,00, ingressos esgotados com 20 minutos de bilheteria aberta.

Kiko Dinucci passeava pelas portas da Funarte e eu ainda assobiava algumas tortuosidades da noite anterior sob responsabilidade da excepcional Elma. Lamentava os gatos pingados que viram os garotos em ação nos imediatos lampejos que as linhas das músicas davam, deixando hipnotizados os parcos ali presentes.

Larguei a Funarte e parti adentro na sexta no Sesc Vila Mariana. Depois que deixei o show do lançamento de Nave Manha, da Trupe Chá de Boldo, já me incomodava saber que São Paulo se afoga muito mais lentamente em uma suposta crise da produção cultural (o teatro, lotado, insistiu por mais de cinco minutos por um bis) – ou, talvez, tenha, por instinto, criado uma talentosa forma de andar na linha bamba que, visto aos olhos leigos, chega a parecer fácil.

No sábado, voltando ao SP Representa, era Juçara Marçal quem detinha o poder do microfone mas, suave quando o nosso raciocínio era lento e soberana quando cientes e recompostos nos voltávamos com atenção para o palco, a voz ali era de todo mundo* (o que é um exagero de estilo, claro. Houve afetações: uma classe média que gesticula e dança na frente do palco como se estivesse em um santo local de louvores afro-religiosos sem o mínimo de noção de quão confuso estava sendo aquela reinterpretação da música do Metá Metá. Ainda assim, era bonito de alguma forma).

Mais destemido é o Metá Metá. É uma experiência paralela ao álbum cravado como um dos melhores desse ano que, mesmo sendo o ano passado, parece ter sido sugado por um início de 2012 com uma avalanche de empresas que tratam de forma peculiar jovens de mãos molhadas no mouse sedento por confirmações de compra. Nada pode ser mais rock and roll do que o show do Metá Metá que aquelas 120 pessoas (um pouquinho a mais pois a produção preencheu os espaços vazios com algumas cadeiras) presenciaram. Não é ufanismo, nem cegueira proposital e blasé: Dave Ghrol vai precisar investir um pouco mais para chegar aos pés do som do Metá Metá. Acho difícil que ele consiga: o termo investimento em inglês tem relação direta com o aparato tecnológico. E a enganação fica menos visível. A pertubação quase não existe. Pelos embróglio socio-cultural que há tempos vivemos, esse termo ganha uma repercussão muito grande na possibilidade de termos gerados grandes mentes, mãos, vozes amparados apenas pela solidão de não saber como fazer a roda girar.

Kiko Dinucci é um desses que souberam. E isso ao vivo é nítido. Fez um álbum que lotou aquela sala porque aquela sala inteira havia baixado o álbum disponibilizado gratuitamente – e, sacando por demais essa ironia, o público ria a cada vez que anunciava-se a banquinha com o CD em sua forma física para venda no lado de fora da sala. E já havia feito com Juçara o Padê: esgotado. E depois o Passo Torto com seus companheiros Romulo Froes, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, também de repercussão considerável. E ainda tem o Sambanzo e MarginalS, filhos do França.

 

Fotomontagem Fita Bruta / Daniel Moura

Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França: rock (Fotos por Daniel Moura)

Com a plateia ganha por causa das primeiras sílabas vindas da boca de Juçara em “Vale do Jucá”, já era previsível os efeitos colaterais que aquela sala sofreria se repetida a fórmula do disco. Tocado em sua íntegra e ordem, o álbum do Metá Metá se torna indiscutível com a transição de “Trova” e “Samuel” para “Vias de Fato” e “Oranian” – ainda mais quando marcadas pelas interpretações de “Más Línguas” e “Ir Pra Berlim” do irriquieto Itamar Assumpção, cuja carreira tem ligação estreita com a instituição que assume o SP Representa.

O lado b do álbum é tão incontestável que a platéia ao primeiro chamado de Dinucci já estava quase toda na frente do palco para dançar. Mas o termo não é dança, porque rock não se dança. E o que se via ali era o pior pesadelo para quem ainda se deleita com o termo MPB e com as rádios adultas do Rio de Janeiro e São Paulo que parecem ignorar que nós não somos tão cools. O Metá Metá é agressivo. Thiago França é agressivo porque é pertinente quando traz o melhor da música ambient por quase todo o show; Juçara é uma cantora que opera uma engrenagem de interpretação que vai do soft ao rap; e Kiko Dinucci é, de longe, muito mais interessante que o G3. Nós somos rock e fazemos bem melhor que eles, podicrer. Os nervosos Samba Ossalê (percussão), Sergio Machado (bateria) e Zé Nigro (baixo) ajudam muito o fluir desse lado do álbum no show. Nós só não sabemos ganhar dinheiro nos vendendo como banda grande para jovens estrangeiros. Se não existe amor (aliás, o show do Criolo, dizem, foi um absurdo nessa mesma sala), pode-acreditar-mano, há um Lollapalooza em cada final de semana de SP. Sem deslumbre.

* Fotos por Daniel Moura