Arctic Monkeys | AM

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por João Oliveira

Perguntado depois de vencer algum prêmio sobre quem admiraria mais como compositor (o “quem você quer ser quando crescer?” dos jornalistas musicais), um jovem Alex Turner disse: “Jarvis Cocker”, o cronista maior da cidade de Sheffield e ídolo de infância de Turner. Na época a resposta parecia adequada e indicava um futuro possível para os Arctic Monkeys: o de cronistas meio cínicos/meio românticos da vida britânica, fadados a serem admirados pelos anglófilos do mundo, em especial pelos mineradores de referências orgulhosos por saberem o que é o “Hunter’s Bar”, mas que se esquecem que o importante é colocar as anotações de lado e talvez se divertir um pouco.

O furo nessa narrativa veio logo com o segundo álbum, de 2007, no qual Turner parecia querer fugir dos temas adolescentes e ingleses com maior rapidez do que as batidas impacientes do baterista Matt Helders. Seis anos depois, não é a toa que, na fuga consciente dos “anglicismos” daquele script, a banda tenha ido parar no deserto californiano, do outro lado do hemisfério. Esse lugar geográfico acaba se traduzindo em um lugar musical distinto em “AM”, quinto álbum do grupo. A propósito, o título conciso parece dizer pouco, mas, na verdade, diz muito. Pode ser tanto uma afirmação de nova identidade para a banda – a abreviação do seu nome – quanto um toque sobre as intenções musicais do álbum em ser pop, repleto canções de rádio. (Talvez não seja um disco para a rádio de 2013, infelizmente).

Baixo, falsete, backing vocals: são essas as pedras fundamentais de “AM”. Da simplicidade desses elementos os Arctic Monkeys forjam neste trabalho doze canções com propósitos claros: primeiro entreter, depois seduzir e, por fim, já desarmado, conquistar o ouvinte. Tudo o que havia de ambíguo, indeciso e cansado no trabalho anterior, “Suck It and See”, é descartado pela mixagem coerente, direta e cristalina de Tchad Blake. Talvez não coincidentemente, “AM” soa na maior parte do tempo como uma versão mais nuançada de “El Camino”, dos Black Keys, no qual Blake também contribuiu.

Nessa altura do campeonato, já podemos considerar como ponto pacífico a influência de Josh Homme e seu Queens of the Stone Age sobre a banda, então é interessante passar para o que realmente há de novo em “AM” em termos de sonoridade. O que temos aqui é uma banda continuando a beber um ponche de influências dos anos setenta, com um twist. Começando pelos singles “R U Mine?” e “Do I Wanna Know” e passando pelas baladas – a eltoniana via Gallagher “No. 1 Party Anthem” e os ecos de Lou Reed em “Mad Sounds” –, Alex Turner e banda acabam nos entregando uma festa cheia de refrões para cantar junto, para chamar aquela pessoa pra pista e depois, quem sabe, para aquele sofá mais reservado. Toda essa clareza de propósito e simplicidade sonora e melódica não se reflete, porém, nas letras de Turner. Elas continuam evoluindo no seu mosaico de detalhes, mesmo que ele tenha abandonado logo no segundo disco as abordagens estritamente descritivas e narrativas. É difícil não interpretar “Do I Wanna Know?”, por exemplo, como uma continuação adulta e inevitavelmente mais complexa dos temas do debut do grupo.

Nascidos de um amálgama de influências e forjados na roda da fortuna do hype, os Arctic Monkeys parecem flutuar, em 2013, fora do seu próprio tempo, colhendo aqui e ali as referências que lhes parecem mais interessantes. Se um dia foram a síntese e culminação de certo indie rock do começo da década passada, hoje caminham meio alheios aos mesmos modismos que lhes deram projeção. “AM” é a confirmação definitiva do talento melódico e lírico de Alex Turner e, ainda que o grupo nos apresente algo realmente diferente dos outros álbuns, não quer dizer que este disco seja um trabalho que quebre algum paradigma ou que transcenda classificações. “AM” é “apenas” o disco mais imediato e carismático da banda até aqui.

Fugir das suas origens e das expectativas de quem cerca o dito “mundo pop” – sem, como dizem, olhar para trás – talvez tenha sido o melhor caminho para Alex e banda descerem dos ombros de gigantes como Jarvis Cocker e começarem a vislumbrar, um dia, a caminharem lado a lado, ombro a ombro.

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