Terreno de todas as coi­sas, o pen­sa­mento reserva os segre­dos do ponto de vista. Evasivo sem ser impes­soal, Bonifrate con­clama seus deva­neios mais pre­ci­sos pelo rock psi­co­dé­lico. Em tom calmo, uma voz nada sóbria dis­cursa sobre cons­ta­ta­ções tão insa­nas que até ven­dem uma coe­rên­cia. “Um par de pés sem­pre me levou pr’onde eu for, agora eu quero um arte­fato voa­dor”, diz ele logo na pri­meira música (“Esse Trem Não Improvisa”) como um con­vite a ir além do pro­blema real. Afinal, tudo está conectado.

Todas as músi­cas pro­mo­vem uma con­ti­nui­dade, são atos e epi­só­dios sobre uma única via­gem. Letras estru­tu­ra­das a par­tir de um empi­rismo louco cos­tu­mam aba­ter por seus para­do­xos. Nesse álbum, porém, existe uma mis­tura semân­tica ate­nu­ante dos absur­dos: a ordem das músi­cas e seus ele­men­tos criam micro-ciclos gera­do­res de uma repe­ti­ção men­tal. O com­passo sem­pre engata numa mar­cha lenta que empurra o ouvinte cari­nho­sa­mente para frente. Conforme as fai­xas pas­sam, novos níveis são alcan­ça­dos. São pro­gres­sões de uma ideia que foge em ser ideia. Ordem em via con­cre­ti­zar em um elo maior entre a música e seu ouvinte.

Efeitos em con­junto com peque­nas micro­fo­nias cli­ma­ti­zam a liser­gia. A viola con­cen­tra a sen­sa­tez, único som per­fei­ta­mente nítido e claro. Serve de pavi­mento o cami­nho para as pro­po­si­ções mara­vi­lho­sas enun­ci­a­das por Bonifrate no vai e vem da voz. A repe­ti­ção de riffs na gui­tarra, entra­das de gaita e saxo­fone pro­pi­ciam um clima de infi­ni­tude letal. Combinações ensai­a­das durante o álbum inteiro, e que cul­mi­nam na última faixa, “Eugênia” — dez minu­tos para a prova da lição ensi­nada. Experimentos como estes lem­bram a esté­tica de alguns álbuns do cole­tivo ame­ri­cano Elephant Six. Deveras uma obra bem tra­ba­lhada no Lo-Fi (a mai­o­ria do álbum foi gra­vado na casa do pro­ta­go­nista) ins­pi­ra­dor de um ritmo leve e nada urbano.

A fumaça tra­gada por Um Futuro Inteiro não é a dos car­ros e fábri­cas, é do verde. Mas nem por isso há o esca­pismo “fugere urban” dos arca­dis­tas. As ima­gens trans­mi­ti­das pelas músi­cas bus­cam um con­traste, uma pos­si­bi­li­dade em recriar o olhar. Inclusive nos olha­res poluí­dos. As onze can­ções são peque­nos refú­gios, fon­tes pro­du­ti­vas de uma ener­gia des­co­nhe­cida ao caos que flo­res­cem no olho do fura­cão. A cita­ção do Largo das Neves (bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro) em “A farsa do Futuro Enquanto Agora” repre­senta bem. O apra­zí­vel bairro a pou­cos quilô­me­tros do estresse do Centro cari­oca. O ques­ti­o­na­mento não é a loco­mo­ção de um lugar a outro, e sim como a lógica vigente do sujeito o pode moldar.

Como carro-chefe do esquema, a saga­ci­dade é cele­brada. “Arranque peda­ços meus, é quase certo que eu não vou mor­rer de poe­sia” (refrão de “Antena a Mirar o Coração de Júpiter”) marca um dis­curso raro e con­sa­gra­dor por si. Poucas fra­ses soam tão geniais em 2011. Em tem­pos de indi­vi­du­a­lismo, tem-se aqui uma expres­são da supe­ra­ção de uma uni­dade do sujeito. A repar­ti­ção da cri­a­ção (e, tal­vez, do ego) afirma a obra como um mérito plu­ral. Ele não vai mor­rer da pro­cri­a­ção de suas ideias por outrem; registra-se uma indu­ção do tipo “con­suma o cri­a­tivo para que ele se torne parte de ti”. Fazer disso um már­tir para o novo.

Um Futuro Inteiro tem sucesso nas inú­me­ras cone­xões dos seus raci­o­cí­nios ébrios. Mesmo a vidên­cia pre­gada não sendo de via lógica, as músi­cas indi­cam o álbum como inte­grante dos des­ta­ques desse ano. Em mui­tos peda­ços para ser­vir melhor.

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