Caetano Veloso | Abraçaço

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Das milhares de coisas que se falam sobre Caetano Veloso, duas são verdades incontestáveis. A primeira é que ele fala milhares de coisas. E a segunda, foco desta resenha porque diz muito sobre seu 49º álbum, é que Caetano tem grande apego por suas ideias. Um ou outro pode dizer que o nome disso é picuinha, mas não é o caso. Há uma tirinha, excelente, feita por Arnaldo Branco, em que uma garçonete no meio do restaurante pergunta “Quem pediu a opinião do Caetano? Quem pediu?”. É basicamente isso: ninguém pediu sua opinião, mas ele ama suas ideias. E quer debatê-las, quer confronto, quer (e isso é muito importante para um artista) dialogar. Por isso é, de todos do esquadrão de ouro da MPB que completou 70 anos em 2012 (Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Jorge Ben), o único que tem mantido uma carreira recente desafiadora.

Finalizando uma trilogia que começou em 2006 com o disco “Cê”, o baiano marca seu septuagésimo aniversário com o lançamento de “Abraçaço”. Diz Caetano que o nome do disco surgiu do modo como termina de escrever seus e-mails, e que gosta da maneira como o aumentativo forma um eco, e que é interessante por ser uma palavra que permite o uso de duas cedilhas… Enfim, isso você já deve saber de cor, porque Caetano o disse algumas centenas de vezes no último mês. Do título ao último acorde, “Abraçaço” é um artista pensando e querendo fazer alguém ouvir seus pensamentos, custe o que custar.

Ao se oxigenar com a banda Cê, Caetano conseguiu alinhavar uma forma mais contundente de expor seu discurso. Vá lá que em alguns momentos o discurso sobrepujou a música (como em “Lobão Tem Razão” e “A Base de Guantánamo” , de “Zii e Zie”, que poderiam ter ficado restritos a sua coluna de domingo em “O Globo”), contudo, o formato indie-rock fez bem a Caetano, que soube moldá-lo a seu estilo de composição com habilidade. No novo disco, uma faixa evidencia isso de maneira muito clara: “Um Comunista” é didática e longa, quase uma armadilha para o compositor reincidir nos erros do disco anterior. Mas, aqui, Caetano conseguiu submeter a sua exposição, bem pessoal (“o baiano morreu enquanto eu estava no exílio”), a uma estrutura de blues-samba que segura bem uma bonita porém longa reflexão sobre os amigos comunistas (“vida sem utopia/ não entendo que exista”, “os comunistas guardavam sonhos”) e sobre não ter se envolvido diretamente com a luta política nos anos 1960.

Típico Caetano, que aparece com toda força já na abertura e peça-chave deste álbum, a intensa “A Bossa Nova É Foda”. Na canção, o músico traça um paralelo com o espanto que o bruxo de Juazeiro, João Gilberto, causou aos estrangeiros e o espanto que Minotauros e Anderson Silvas (e a coisa toda…) causam agora. Verborrágico, enlouquecido, cantando como nunca e, acima de tudo, divertidíssimo, Caetano conversa com o “college-rock” e com o rock psicodélico que deu forma a tantas ideias tropicalistas, dele, dos Mutantes e outros nos anos 60. Mais indie-rock é “Um Abraçaço”, que surge em seguida fazendo pensar nas declarações dadas por ele na época de “Cê”, dando conta de seu encantamento por Pixies e seu “Live At BBC”, apresentado por Pedro Sá. O mesmo que rompe a faixa com um solo altíssimo, como se estivesse cobrando seu disco de volta. Referenciando com nomes do gênero, “Um Abraçaço” parece muito com as canções duras dos primeiros discos do Modest Mouse, mas se estes também são influenciados pelos Pixies, essa referência é apenas circular.

Sá, importantíssimo no conceito dos transambas de “Zii e Ziê”, aparece menos neste disco. “Estou Triste”, outro momento em que Caetano se apresenta bastante vulnerável (“o lugar mais frio do Rio é o meu quarto”, diz, com sinceridade comovente), também tem seu solo de guitarra, embora aqui a conexão seja com alguma balada de “Bloco do Eu Sozinho” ou “Ventura”. O único samba propriamente dito (“Quando o Galo Cantou”) é carregado somente pelo violão, ressaltando um estilo de compor samba que Caetano só tem esmerado com o tempo.

O mesmo não pode se dizer do seu fascínio com o rap, quase humorístico de tão quadrado. Em “Funk Melódico”, o cantor insiste nessa métrica inadequada que o tinha vitimado em “Língua” e, mais recentemente, “Miami Maculelê” (do ótimo disco composto para Gal Costa, no ano passado – basta ver o que faz Domenico, com a mesma letra, nas apresentações ao vivo). Nada que enfraqueça a faixa, funk carioca orgânico cheio de intervenções: uma valsa no refrão, uma guinada rockeira, um funk “americano” como ponte, tudo conectado ao tamborzão.

Há aqui uma coragem, que pode parecer tola, mas existe. Por isso, uma faixa como essa é mais importante para o Caetano 70 do que “Vinco” ou “Quero Ser Justo”, quando o cantor acena com o mpb-padrão que dominou sua carreira durante boa parte dos anos 90. Podem ser clássicas, podem ser elegantes, mas apenas retomam aquele estágio pré “Cê”; o que definitivamente não é o ideal. O disco termina com uma canção parecida, mas que guarda a sua importância, ao menos para o artista: “Gayana” foi composta por Rogério Duarte, conhecido como o mentor da identidade tropicalista, figura com quem Caetano não trabalhava há algumas décadas.

Embora sem nenhuma grande surpresa, “Gayana” fecha “Abraçaço” e a trilogia prometida por Caetano de maneira simbólica. Um disco cheio de êxitos, tolices muito divertidas e erros, como nos dois anteriores. E que carrega uma frase bastante importante na sua última canção. Tudo bem, é só uma canção de amor. E foi escrita por outra pessoa, não custa lembrar. Mas como é bom ver Caetano dizendo “eu não vou mais me calar”. Mesmo que todo mundo saiba disso há tempos.