Daniel Rossen | Silent Hour / Golden Mile EP

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Existe uma sensação de repetição terrível quando se diz algo honesto. Por procurar outras palavras para confirmar uma sensação própria, o enunciador sofre uma coação interna constrangedora. Um interrogatório passageiro e um tanto inofensivo, “você realmente tá falando isso?”. Ou se fecha a caixa e responde com um “não”, ou se usa a afirmação do “sim” para ser do contra. Nas duas vias há uma incerteza maldita que só sai depois que a decisão foi tomada. Sem tentar impor nenhuma tese complexa agora, digo que o Daniel Rossen é um cara que sabe das coisas. Por supor que ele passa muito por isso, mas na ânsia das ex-incertezas, me fica uma certeza terrível de que ele tá muito certo. Seu EP solo “Silent Hour / Golden Mile” é mais um caso disso.

Explico.

Rastreia-se fácil na sua bagagem de canções com o Grizzly Bear e o Department of Eagles um discurso reincidente (e necessário). Um pouco de tudo composto por Rossen traz uma manifestação lírica – prepare-se para repensar um adjetivo banalizado, sublime. Assim funciona no EP, em “Saint Nothing” ele é lento e cresce nas notas de piano colocadas com micro-silêncios para soar até o tempo certo. Pela passividade de notas impressionante, canta sobre um santo sem nome que se faz ouvir bem. Pondera uma sensibilidade vinda de sabe-se lá onde e faz, assim, um sublime. Fosse o caso de colocar cinco estrelas de recomendação em uma música e relegar todas as outras a média, ele não mereceria uma descrição assim. Vai além.

“I Live With You”, música do álbum Veckatimest (Grizzly Bear), tem uma catarse caótica no meio-fim da música, um trânsito congestionado das referências de Daniel, um fluxo tenso novamente indorporado em “Return To Form”. Comparando as duas, ele deixa de ser excessivamente lento na primeira parte da canção para satisfazer uma vontade de fazer folk bem trabalhado, valorizando o espaço em que sua voz soa em primeiro plano. Mas, chegada a hora, com parcimônia e educação para manter as coisas certas, ateia fogo em tudo e faz com um rabisco — a suposta desordem da profusão dos sons — um mosaico bem armado.

É mais cru em “Up on High”, música de abertura do EP, que oportunamente apresenta a intenção da proximidade com o folk rebuscado. Para um lançamento de apenas cinco músicas, e com menos de trinta minutos ao todo, definir a direção ajuda na consistência do material. Se, como dito antes aqui, Daniel garante sua mágica como letrista, foi atencioso em formatar um EP redondo. Às vezes os discos que aparecem com essa alcunha soam meio como sobras,impressão ausente em “Silent Hour / Golden Mile”. Convence o discurso de que as cinco canções surgiram de questionamentos solitários do autor por Nova York, e da sua necessidade de fazer delas um projeto à parte das demais bandas.

Passando longe do cinismo e das incertezas perversas, “Silent Hour / Golden MIle” é, assim, um trabalho honesto. Não na definição fácil, daquilo que só está certo e pouco se crava. Mas pela coragem de chegar na melancolia via tristeza e com apenas a vontade de declamar o que se sente. O quanto se sofre não é importante se o que faz sofrer é a estagnação do ciclo de “busca tragédia para consequência desastre” — reinante no mundo pop da música de fossa, existe uma verdade nítida que quebra, marca. Hoje o santo tem nome. Enquanto Daniel Rossen estiver disposto ele dará sua versão, acredite.