Epicentro do Bloquinho | Hegelianos de Direita

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“DJ Guerrinha”, “Japa Habilidoso”, “Funk do Sindicalismo”, “Príncipe de Montreal”, “40% Foda/Maneiríssimo” e a própria logo do selo, um desenhinho prosaico com os traços da canetinha tremidos: os caminhos são muitos até “Hegelianos de Direita”, álbum de estreia do Epicentro do Bloquinho – grupo formado por Gabriel Guerra (Dorgas), Lucas de Paiva (Pessoas Que Eu Conheço) e Savio de Queiroz. Mas todas as aparências inspiram desconfiança. A primeira impressão – a que precede a que realmente importa, a da música – é que deve ser arte de “zuera”, bigodes sardônicos e camisas de estampas espalhafatosas transcritas pro áudio.

A surpresa, diante do humor de piadinha interna que permeia o marketing de “Hegelianos de Direita” (porque se trata disso) é que a música é, de fato, séria. Num país em que o eletrônico no meio indie descolado chegou como um revertério tardio da chillwave e do synth/eletropop, que no estrangeiro quase sempre se fez sem muita novidade ou alvoroço, a música que o 40% Foda/Maneiríssimo lança é austera por comparação. Clara em cores e medidas.

O que se ouve em “Hegelianos…”, então, não obstante os títulos excêntricos que o atravessam tanto como disco quanto lançamento, é a coragem de falar o que se quer do jeito que se quer, o artifício direto da pretensão como pretensão mesmo, sem constrangimentos. Daí que em “João Filipe”, “Jorge André” e “Henrique Léo” se tem música eletrônica em vez de música de eletronismo, house em vez de doses homeopáticas do gênero diluída em rock, em pop, em rádio – em modinha enfim. O trunfo do Epicentro é se desfazer, no som, da ironia meio doentia que tem tomado tudo quanto é coisa da nossa bela e ó tão triste geração, a geração do “é legal porque é ruim”, do gostar não gostando, da simpatia pelo feio como atestado de mente aberta.  Pois cada um dos nomes dos hegelianos de direita designa músicas cuja beleza não está no contexto ou na apresentação, e sim na concisão e na clareza de uma sonoridade. Suas batidas, seus ritmos e seus sintetizadores vêm sem manual: são o que são, fazem o que dizem, tornam-se o que querem ser.

E o que é essa musica? É eletrônica de guerrilha, calcada em produção barata, de acabamento tosco e senso apurado, música  “mal acabada”, as aspas justificadas pela ausência de emulação de acidente ou de simulacro de desleixo. As camas de ambiência, as batidas de sucata virtual, os sintetizadores em borbulhas e os recortes melódicos são viagens intergaláticas na escala exata a que se propõem ser: pequenas, de espaço limitado. A sonoridade, aqui, é convertida em sistemas planetários de papel machê, miniaturas de naves cinzentas de arestas tortas, planetas de cores irregulares, quase todas foscas. A beleza e o interessante em “Hegelianos…” são frutos de engenhosidade e sensibilidade, não de efeitos especiais. É música que tateia e experimenta, sendo os pontos de partida o house ambiente e o kosmische, e a qualidade do álbum vem, de fato, de uma lógica de erros e acertos felizes. É o que torna a música do Epicentro humana, boa e imperfeita, como aquela paixão de andar desajeitado e pernas lindas; de dentinho torto, mas sorriso alinhado.

Talvez não seja tão óbvio, mas cada uma das faixas se encaixa na categoria de jam – os meninos se intitulam um “jam trio”, o que as torna algo como um trabalho de tradução simultânea das direções do grupo e parece ser a origem das imperfeições fortuitas do disco. Tudo, então, se torna uma busca de linguagem, e a melhor parte é se perder nela. Dito isso, é difícil pensar que, com menos jam e mais produção, o Epicentro não acabe entregando discos melhores.  “Henrique Léo”, a melhor faixa, é a que se separa um pouco do aspecto exploratório do álbum inteiro, mais segura em seus módulos, num crescendo de ansiedade e melancolia. E é nesse ponto que o humor do selo de onde vem “Hegelianos…” goza do que o rodeia, não de si mesmo. Os nomes esdrúxulos são pistas falsas. Pois as faixas de “Hegelianos…” e de grande parte do catálago do 40% vêm sem as diretrizes revisionistas brega-cool que encharcam o que é, de certa forma, o berço e o habitat dos sets do Epicentro do Bloquinho, a Comuna.

A Comuna é o onde a galera descolada do Rio vai, um espaço de cultura alternativa em Botafogo. Como lugar de cena – os carões inexpressivos ocasionalmente se misturando com extravagâncias irônicas – é um caldeirão de pretensões boas e ruins. Em outro lançamento do 40% Foda/Maneiríssimo, DJ Guerrinha (o nome artístico de Gabriel Guerra) agradece a todos os que foram lá ouvir seus sets, sempre “extremamente fracassados” e com “muitas poucas (sic) pessoas”. E é impossível não pensar que, de certa forma, isso é uma vitória, porque a quantidade de pessoas que realmente gosta de música em lugares hipsters ultra-cool é absurdamente baixa (nesses lugares, tendem a “curtir um som” ou nem isso). Se são poucos os que igualmente gostariam de “Hegelianos…”, tanto melhor, porque a pista de dança primeira, nesse caso, é hipotética, de fluidez incerta de corpos, de dança de descoberta. A estreia do trio é tão boa quanto inconclusiva. A sorte de quem ouve é que as pontas, mesmo soltas, fazem bastante sentido.