Fiona Apple | The Idler Wheel…

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Erros, vez ou outra, tropeçam em acertos. Recentemente, no que se provou ser mais uma pá de terra a abrir a cova em que a NME se enterra obstinadamente – uma publicação tipicamente preocupada com tendências, não música – publicaram uma resenha de “The Idler Wheel…” com a foto de uma Alanis Morrissette sorridente. Vá lá, a foto não podia estar mais errada, mas há que se admitir que Alanis e Fiona têm mais em comum do que a discrepância absurda entre seus dotes nos leva a crer. As duas habitam o mesmo imaginário músico-mercadológico nebuloso: garotas de beleza e delicadeza traiçoeira, por ser, cada uma, capaz de suas próprias malícias, coração na manga e  destino à própria mão. Mulheres, também, muito embora ambas, à época em que surgiram (Fiona, em 1996) ou estouraram (Alanis, 1995), fossem pouco mais do que meninas. Uma, canadense e majoritariamente inofensiva. Outra, americana, desajeitada e estranhamente erótica. Uma, autora de um single ferido e esganiçado: um descontrole “honesto”. Outra, autorade uma canção de sarcasmo e provocação, de calor e crueza.

E o que se ganha da brincadeirinha de comparar duas cantoras que, partindo do mesmo ponto, chegaram a lugares completamente diferentes, é a certeza de que a americana era uma jovem de arte madura, trabalhada. Nos discos que viriam, Fiona, construindo uma carreira agradável de artista de sala de estar – acomodada e excelente em medidas iguais – se tornava mestra de uma tarefa complicada, a da adolescência adulta, da arte do diário escancarado. Apple certamente depositava um tanto da própria vida em seus discos, tanto no som quanto no sentido. Paralela a esse movimento de confessar as coisas, no entanto, a moça sempre arranjava um jeito de sair pela tangente de seus próprios segredos. Fiona se rasgou, no meio tempo que separa “The Idler Wheel..” de  seu último trabalho (“Extraordinary Machine”, lançado há sete anos, em meio a muito drama, nos bastidores), mas guardou um tantinho de frieza para, além de se escancarar, se analisar. Encontra sua força no ato de criar, em vez de confiar toda a sua potência à tal da sinceridade. É sempre bom lembrar que ela não é o suficiente.

“The Idler Wheel…”, como um disco em que toda uma carreira se realiza, é um trabalho cuja força vem justamente do limiar em que Apple se empoleirou, há dezesseis anos, o ponto em que a confissão se torna arte e o particular se faz universal. Um disco que conta, então, na mesma medida em que inventa. Pois com a própria voz, um tanto de batidas esparsas, outro tanto de instrumentos de câmara e um piano, Fiona escava, em canções enganosamente comuns, o extraordinário do coração partido, de sonhos a dois e lobisomens sentimentais.

Desprovido de uma produção ostensiva, este é, talvez, o álbum mais nu que lançou, e é também o mais preciso, no jogo de se despir que Fiona faz há tanto tempo. Talvez seja difícil perceber isto, em tempos em que a regra é se desavergonhar em redes sociais, mas a beleza de um disco como esse é que, no processo de virar a própria alma do avesso, a cantora saiba exatamente o que mostrar ou esconder, o que não é tanto uma questão de suspense quanto de mistério. Diz-se, aqui, que Fiona tem uma carreira de sala de estar porque seus discos trabalham uma magia discreta, facilmente ignorada: são como objetos que se perdem na decoração de um cômodo talvez porque se tenha desaprendido a perceber beleza naquilo que é tão somente belo, não tão “novo” ou inaugural quanto plenamente realizado.

Entre narrativas basicamente lineares e um senso de composição que não parece admitir, em sua origem, muitos efeitos especiais, “Werewolf” e “Left Alone” são trabalhos de aproximação e perspectiva. Porque a sensação mais comum, ao longo do álbum, é a de que o ouvinte passou, poderia passar ou vai passar pela maioria das situações e experimentar a maioria dos sentimentos que os sons conjuram. Do sonhar acordado do piano e da percussão de “Anything We Want” à tristeza agridoce e um tanto esperançosa de ouvir, triste, crianças brincando em “Werewolf”, Fiona se põe pertíssimo do ouvinte e situa sons e narrativas emocionais no lugar de ideias generalizadas. As canções não só expressam – são as tristezas e os desejos que se propõem a representar, refletem e guardam, dentro de si, o universo em que existem. Se universam.

O resto não se diz, se ouve.