Foals | Holy Fire

foals-holy-fire-300-1

Na faixa que define o último álbum do Foals, “Spanish Sahara”, Yannis Philippakis repetia como uma mantra “Eu sou a fúria na sua cabeça, eu sou a fúria na sua cama”, enquanto a música crescia até chegar em lugar algum. Era a fúria, sem a fúria. Se até aqui a banda tinha sempre desejado soar em estúdio tão muscular quanto é ao vivo, “Holy Fire” faz um bom contraponto entre esses dois Foals que ainda existem com os mesmos quatro integrantes.

Não que o terceiro disco do gurpo inglês abandone completamente as texturas submarinas do som da banda desde “Antidotes” (herdeiro da mixagem a cargo de Dave Sitek). “Holy Fire” ainda parece ter sido gravado debaixo d’água – coisa que a produção dos ratos de estúdio Flood e Alan Moulder não faz nada para mudar – mas aos poucos, como os cavaleiros da capa, a banda começa a pisar em terra firme.

Prova maior disso é “Inhaler”, primeira faixa divulgada do disco, na qual finalmente a fúria que atormentava Philippakis surge combustível para música do Foals. Como as melhores canções do grupo, “Inhaler” começa com um groove de branco que vai ganhando força aos poucos. O que antes geralmente daria num refrão meio Snow Patrol como “Spanish Sahara” de “Total Life Forever” ou numa levanta dançante como em “Red Sock Pugie”, de “Antidotes”, aqui tem força onda quebrando no ocean. As gritarras ecoam e crescem até que tudo parece parar no ar por um milésimo de segundo e então desabar furiosamente no grito “I can’t get enough spaaaaaaaaace” de Philippakis. É o tipo de movimento que redefine carreiras e provavelmente a melhor coisa que o rock com crachá de grande gravadora faz em muito tempo.

O resto de “Holy Fire” não segue exatamente a palheta de “Inhaler”, mas o single funciona para apresentar um novo modus operandi para o Foals: menos regras, mais ação. Um ato de liberdade que contamina o resto do álbum, da popice declarada de “My Number” a ritmo calmo de reflexivo das faixas que encerram o disco, “Stepson” e “Moon”. Liricamente, Yannis está mais direto e inteligível, o que é certamente positivo para uma banda que parece decidida a fazer conexões com uma audiência maior do que a origem indie um dia lhe permitiu.

Assim, “Holy Fire” também é um disco que soa a dinheiro gasto em horas de estúdio, o que talvez seja o seu único problema. (Esse dinheiro, no caso, está devidamente planilhado em vermelho em algum ponto do mundo, num escritório da Warner.) Um tipo de expectativa que querendo ou não acaba vazando no som da banda, que beira o superproduzido. Há pouquíssimo espaço ao longo das 11 canções produzidas por Alan Moulder e Flood (que juntos produziram “Mellon Collie And The Infinite Sadness” do Smashing Pumpkins), o que por vezes torna a audição enfadonha, principalmente em canções com sonoridade semelhante como o bloco central do disco.

Como obra de arte e como produto, “Holy Fire” cumpre o que promete: liberta e reposiciona o Foals, margeando a zona de conforto que eles haviam estabelecido em “Total Life Forever”. Se tudo der certo a partir de agora, a banda chegará a um quarto álbum mais confiante e com menos explicação para dar. Daí, quem sabe, a fúria finalmente tome conta do Foals.

  • gabriel

    Caralho, puta disco, puta resenha, dá-lhe Livio.