Gilberto Gil: Gilbertos Samba

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“Agora, não quero muita coisa mais, não. Porque a vida também tem sua desaceleração, seu atenuamento, a vida vai ficando mais rala naturalmente.”

Quando manisfestou, ainda na década passada, a intenção de gravar um disco de sambas, Gilberto Gil talvez estivesse um pouco mais disposto. Alguns anos depois, o mais musical dos tropicalistas transformou o desejo em homenagem ao mestre João Gilberto no conservador “Gilbertos Samba”, álbum que revela mais sobre o momento de Gil do que a já explícita frase citada no início dessa resenha.

“Gilbertos Samba” é conservador, sim, mas também é legítimo. Vai existir quem exija de Gil uma “versão autêntica” do gênero em oposição a um suposto elitismo e ao tradicionalismo representados pela bossa nova no imaginário da cultura brasileira. Mas Gil nunca foi da turma do samba do morro. Junto com Caetano, nunca esconderam, em discurso e obra, uma maior ligação com o homenageado e seus associados do que com o samba carioca de Cartola e Paulinho da Viola. E, sobretudo, é de grande inocência a relação entre um samba de origem mais popular com autenticidade, visão ainda mais simplória hoje, com o gênero completamente incorporado ao tradicionalismo.

Ainda assim, caberia ao projeto maior liberdade do que as tomadas por Gil em estúdio. É bem verdade que, desde o meio dos anos 90, o compositor baiano deixou de ser o mais ousado dos dinossauros da MPB. Seu período de pop mais descarado, principalmente nos 80, ainda hoje soa fresco e original (“Palco”, por exemplo, dá um banho em qualquer tentativa de Daft Punks e Pharrells), provando que mesmo em formatos mais rígidos, o cantor sempre buscou a expansão. Dessa vez, Gil ficou preso no mínimo de João.

Aqui e ali, o álbum mostra alguns sinais de inquietação escondidos sobre modos de intensa reverência. “Desafinado”, talvez a canção mais conhecida do repertório, ganhou guitarra ruidosa (de Pedro Sá) e percussão pesada (de Domenico Lancelotti), ainda assim, escondidas sobre o volume alto da voz e violão de Gil, presenças quase opressoras sobre todos os arranjos. Desta maneira até pequenas provocações, como o acordeom de Mestrinho em “Doralice”, ficam em segundo plano atrás do banquinho e do violão. Vale ressaltar, também, a escolha impecável do repertório: embora recorra a alguns clássicos, esta é uma seleção criteriosa e condizente com trajetória do artista e a do homenageado. Ao emendar “Eu Vim da Bahia”, (de Gil) gravada por João Gilberto em 1973, com a inédita “Gilbertos”, o baiano faz as justas prestações de contas e se coloca também como personagem de sua própria história.

Mas é “Você e Eu”, escolhida para divulgar o disco em rádio, que funciona como síntese deste disco. O samba de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, arranjado por Rodrigo Amarante, tem interpretação soberba de Gil, adornada com percussão econômica de Domenico e cordas sutis, numa leveza que dificilmente incomodará o ouvinte. Se não há incômodo, tampouco há a densidade que o encontro entre esses dois grandes atores da música do século XX prometia. Caetano Veloso diz, no encarte, que “Gilbertos Samba” é uma “experiência de densa textura histórica”. Talvez seja, na teoria. Na prática, Gilberto Gil foge da caricatura mas bate de frente com seu próprio contentamento.

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