Grizzly Bear | Shields

grizzly-bear-shields-300-3

Há muito o que falar sobre “Shields”. Ou não há nada. Das muitas melodias bem alinhavadas, dos acertos a cada instante, da absurda e quase sufocante ausência de equívocos, da beleza aterrorizante de cada instrumento, voz, ruído, ambiência: há pouco a se falar. O que há para tudo isso é o paradoxal silêncio que o encanto com “Shields” gera. A música do Grizzly Bear no seu novo disco alcança tamanha beleza que gera a doença de que esse texto padece: o que dizer, como expressar, como mesmo pensar o assombro a que “Shields” nos acomete? Melhor o silêncio, melhor o link.

Naturalmente, há muito ao redor de toda a proeza estética deste disco. Para começar, “Shields” é uma clara continuação  de todo um projeto que começa, no mínimo, em “Yellow House” (2006) e amadurece em “Veckatimest” (2009). “Shields”, em uma gradação estética que beira a perfeição, é o ponto culminante da trajetória artística do grupo de Nova York. Não há, portanto, muitas surpresas no no som escolhido pela banda nesse novo disco. Há uma continuação, um aperfeiçoamento e poucas novas escolhas. Todas as novas e pequenas veredas sonoras percorridas em “Shields” eram como se já estivessem previstas em “Yellow House” ou “Veckatimest”, apesar de não estarem, na realidade. O que o Grizzly Bear faz com impressionante sucesso e excelência nesse disco é um andar no escuro da música, jogando a luz difusa dos seus discos anteriores no semi-desconhecido que é “Shields”. É como caminhar impecavelmente na escuridão da própria sala de estar, a prataria toda exposta, a perna do sofá pronta para o dedo do pé. E nada: nenhum arranhão.

A imagem da casa, do outro lugar, do som no espaço é não por acaso uma constante na música do grupo, a começar pela sua clara alusão em “Yellow House”. “Shields” continua essa estética, a da criação de um som representando um espaço único em um tempo específico, ao mesmo tempo indefinidos, sem limites e eternos, simultaneamente familiares e distantes. Esse jogo de dicotomias e paradoxos pouco superficiais é, na minha opinião, o segredo do deslumbramento manso que o grupo nos causa desde 2006.

Como seus antecessores, “Shields” tampouco é apenas uma compilação de ótimas músicas. Há uma forte preocupação com o resultado final de todo o trabalho, o clássico long play. Por isso, uma faixa ambient e instrumental como “Adelma” não faz somente sentido como se mostra perfeita para o lugar que ocupa em “Shields”. De modo similar, canções que talvez pudessem ser consideradas não tão inspiradas se alheias ao disco, como “The Hunt”, formam juntas um todo tão coeso que crescem de uma maneira pouco vista nos nossos dias tão fragmentados. São desses pequenos acertos e escolhas que toda a experiência de ouvir “Shields” se constrói e se faz especial e, por isso, única.

Em comparação com seus anteriores, “Shields” é também o mais acessível. Suas canções têm em média um tempo mais rápido, suas estruturas não são incômodas nem mesmo estranhas. O Grizzly Bear trabalha a serviço do belo, do prazer estético, sem abandonar o conceito nem torná-los vazios. E de fato faz o disco mais bonito de 2012, onde há espaço tanto para a nuance quanto para a melodia simples e envolvente; para a experimentação e para o porto seguro da canção; para o alvoroço do ruído e o recanto do silêncio.

No entanto, tudo que se pensa ou se contextualiza sobre “Shields” não se compara à experiência de ouvi-lo e deixar-se imergir no universo parelelo que é a música do Grizzly Bear. Por ser o disco em que a banda mais se mostra e se abre ao ouvinte, a razão do seu título reside mais na criação de um lugar musical em que na verdade nós, ouvintes, e não a banda, nos sintamos protegidos, um lugar onde há uma beleza que possa talvez nos salvar de tudo que há de bom e ruim no mundo, este lugar fora desse lugar.