Guilherme Arantes | Condição Humana

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O que divide o álbum “Condição Humana” de Guilherme Arantes é “Moldura do Quadro Roubado”. O arranjo é ruim demais. E, adivinhe, não importa muito. Em cima dele, Guilherme está longe de ser oportunista ao falar da quadrilha de gravata que assalta um terço todo mês, do lobo, do pastor, do homem do Baú da Felicidade. Pelo contrário. Está sendo Guilherme Arantes, o homem que acredita em uma suposta “monocultura” no Brasil. O refrão “Onde foi que eu li que era cor de rosa? Que era só rezar pra ele ouvir?” limpa às más impressões do tom alarmista e dá ao ouvinte uma outra chance para gostar da canção. E daí pra frente, mesmo que fale de como a favela explodiu e outras besteiras mais automáticas, a canção já está ganha. Uma peça que parece não ter saído muito dos anos 80. É retrô sendo feito por alguém que viveu no ano de menção. O que diferencia “Moldura…” é justamente a guinada pós-refrão, a ponte que leva a canção não só para um solo de guitarra dispensável (de novo e quase por todo o álbum, sob cuidados de Luiz Sergio Carlini) mas para a percussão e para uma bateria extremamente voltada para o rock. É uma faixa que se salva aos poucos, como um fiel desacreditado. Uma supresa do álbum. Surpresa? Sim. “Condição Humana” padece em sua primeira parte. Vamos à segunda.

A verve pop (ou até fofopop, como cunhou Lívio Vilela aqui) de Guilherme Arantes é tão interessante (e ao mesmo tempo tão presa em uma ideia fixa) que “Oceano de Amor” acaba ficando em uma linha tênue entre ser uma música de qualquer novela do “Vale A Pena Ver De Novo” e ser uma peça realmente bonita. E se essa linha define “Condição Humana”, passa longe de “Olhar Estrangeiro”, a melhor faixa do álbum. O folk, o teclado se arrastando deliciosamente é, enfim, uma canção maior no álbum. Não bastasse, a canção ainda adentra os 2 minutos com uma ponte sensacional e  de emoção peculiar. O menino sujo na esquina, o olhar perdido, a poluição, o choro, o retorno ao tom original da canção, a voz de Guilherme invadindo realmente a canção antes da guitarra distorcida marcar os próximos passos mais cinzas da cidade e da música. Não há disputa nesse álbum se “Olhar Estrangeiro” estiver no páreo. Ouso dizer que é a melhor música de Guilherme Arantes em 15 anos.

E é talvez a faixa que abre um EP secreto neste disco chamado “Condição Humana”. É uma sequência perfeita de canções até “O Que Se Leva (Temor do Tempo)” que conta com a participação de Marcelo Jeneci. “Você  Em Mim”, “Castelo Do Reino” e “O Que Se Leva” é tudo o que se espera de Guilherme Arantes: que não seja uma cornucópia em clichês que já foram interessantes e originais um dia — e, muito deles, criados ou perpetuados de forma brilhante pelo próprio compositor. Uma parte de “Condição Humana”, esta última parte, é um apelo do insconsciente do artista lhe implorando que não se deixe levar pelo seu talento em compor peças pop de um Brasil que já passou. De um Brasil que assiste sem constrangimento os últimos DVDs ao vivo do Roupa Nova sem perceber que talento e caráter, às vezes, não chegam como qualidade em determinadas obras.

O álbum que Guilherme Arantes lança em 2013 evoca duas coisas simples: o melhor de Guilherme Arantes foi muito diluído durante sua carreira e, a segunda, é a consequência: não é tão injusta uma certa desvalorização do artista no mercado. Antes, é preciso deixar claro que o mercado nem sempre respeita talento, coisa que sobra à Guilherme Arantes. Poucos artistas chegam tão perto de não soarem bobos quando ganham alcunhas como “piano de mão de pedreiro”. Arantes é um desses. Então, se é importante celebrá-lo como tal, é tão importante quanto desconfiar de algumas glórias que são lhe imputidas por seu caráter e talento (e nem sempre por suas obras mais recentes). E a primeira parte da obra mais recente de Guilherme Arantes pode (e deve) ser vista com muita desconfiança. Porque dialoga de forma oca com o passado, ainda seja irresistivelmente pop em alguns momentos.

Quando lançou “Lótus”, em 2007, sua imagem ainda girava em torno de um senhor já barrigudinho rodando o Brasil tocando “Planeta Água” em um piano. Uma mentira. Em primeiro lugar porque Arantes vai bem além de um senhor decadente (que nunca foi). E, ainda não sejam grandes álbuns, tanto “Lótus” quanto “Aprendiz”, de 2003, não atentam contra a discografia do músico. Mas, em 2009, pode até parecer que não, mas as rádios, a TV, tudo era ainda muito pouco sagaz. Quanto mais uma geração como a minha que não viu Guilherme Arantes no auge e, principalmente, antes do auge e que desatou a tacar o nome Guilherme Arantes em tudo o que encontrava pela frente. Foi assim com “4”, último álbum do Los Hermanos, foi assim com “Feito Pra Acabar”, debute de Marcelo Jeneci, foi assim, enfim, com “Claridão”, debute de SILVA.

Posto isto, “Condição Humana” é, antes de tudo, uma necessidade. Como peça musical, deixa a desejar em muito pontos. O disco foi ambientado no habitat natural de Guilherme Arantes, o Coaxo do Sapo. Mas, levando isto para uma metáfora, o disco está em um território conhecido demais. Isso não é de todo ruim em “Condição Humana”. O single “Onde Estava Você”, por exemplo, corre independente desse terreno com letra de uma pessoa em clara entrega. E, ali, estão piano, teclados, wah-wah, todos como peça de hoje. Poderia ser gravada pelo Jeneci, poderia estar em Claridão. Mas a primeira etapa de “Condição Humana” é antipática com essas comparações. A faixa-título mistura uma letra retirada do “gerador automático de músicas de Guilherme Arantes” e um arranjo genérico que incluí aquela famosa guitarra desfiando de ponta-a-ponta do refrão, coisa que se instaurou como vírus em tudo o que foi feito nas rádios brasileiras na década de 80. Mas há um outro lado para se olhar isso. Ele está nos primeiros parágrafos desse texto e, principalmente em uma única música da primeira parte de “Condição Humana”.

Em “Tudo Que Eu Fiz Por Você”, Guilherme será, para os mais novos e atentos, a versão masculina de Fernanda Takai. Não é um exercício difícil ver a canção no repertório do Pato Fu pós-Isopor. E isto é um mérito. É uma canção falando sobre o verdadeiro amor, a paz, a alma feliz e de como tudo isso é simples e, o melhor, em uma canção sobre a canção que vai dizer que ele te ama. Funciona demais aqui. Principalmente porque  vem logo depois de outro bom gancho dessa primeira parte “Cruzeiro do Sul”, provável outro single de “Condição Humana”. Mas, até esta parte do álbum, tudo isso é o Guilherme Arantes que a gente cismou em não querer enxergar mais. E isso foi apenas burrice nossa. O melhor de Guilherme Arantes está quando ele se debruça sobre seu talento e resolve mostrar novos modos que ele tem de falar sobre o que ele sempre falou. Não é crime ter uma fixação. Crime é ultrapassá-la e realizá-la materialmente como se um álbum inédito fosse palco para um tributo a si mesmo. Quando comete esse erro, “Condição Humana” é extremamente chato (o que se torna agradável para aqueles que vão colocar “justiça” em um texto sobre o álbum). Livre disso, Guilherme compôs seis músicas (de “Moldura do Quadro Roubado” a “O Que Se Leva”) que poderiam estar tranquilamente em seu repertório pra sempre.