Hurtmold | Mils Crianças

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Talvez a grande banda da música brasileira, o Hurtmold passa por um momento interessante de transformação. O disco autointitulado, de 2007, o melhor da sua irrepreensível e dinâmica discografia, colocou a banda num ponto limite. Existia ali uma abundância de elementos, de percussão e de climas que representava um grupo de músicos no auge, como se fosse a realização indiscutível da representatividade de todos eles para a música nacional na última década. Aquele enorme pequeno álbum se transformou também num marco temporal, levando, entre projetos solos e colaborações com Pharoah Sanders, Rob Mazurek e Marcelo Camelo, cinco anos para encontrar um sucessor. Tendo em vista a importância do disco anterior, não parece surpreendente que “Mils Crianças” busque na economia uma forma de se posicionar em contraste com “Hurtmold”.

Temos aqui não somente faixas menores (duração menor), mas faixas aparentemente mais concisas em estrutura. É importante salientar que esse aspecto é só aparente, porque o Hurtmold continua sendo uma banda bastante rítmica. A diferença fica por conta da forma de apresentação, menos percussiva, mais roqueira, incluindo aí uma ligação maior com o Hurtmold do inicio dos anos 2000. Passagens em “Joji” e “Naca” refletem mais uma frieza anglo-saxã (do post-punk, principalmente) do que o calor afro-latino de pedradas como “Sabo”, por exemplo.

Como parece ser um disco de resumos, mesmo iniciando com alusões ao post-rock e post-punk de início de carreira (das seis primeiras faixas, somente em “Harvi” se permitem maiores latinidades, como reggae e salsa – “Chavera” é praia, mas americana), o trio final se conecta com maior força aos termos de cinco anos atrás. Com percussão em protagonismo, “Tomele Tomele” e “Cleptociprose” não deixam de seguir também o método atual, como se formassem versões mais diretas dos climas dispersivos do predecessor. “Pigarro”, por fim, funciona como o “Hurtmold-Standart”, com aquela escala típica de grandiosidade do post-rock, não esquecendo do sotaque brasileiro.

Desta forma, o sexto álbum do sexteto paulistano é um marco evolutivo esperado e reconhecível em diversos outros artistas, incluindo seu primo norte-americano, o Tortoise. Conciso mas dinâmico, consegue soar acessível sem abandonar a complexidade rítmica que sempre marcou o grupo. Mesmo propositalmente “menor”, “Mils Crianças” é resposta quase definitiva para quem gostaria de saber qual a maior banda do Brasil.