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Jack White | Blunderbuss

Jack White, “Blunderbuss”

Jack White

Blunderbuss

[Third Man Records / Columbia; 2012]

8.0

ENCONTRE: iTunes

por Túlio Brasil; 24/04/2012

A atenção sempre traz referências, seja na leitura de um livro ou na audição de um disco. Parte uma agonia pessoal e devastadora pela busca em simultâneo ao deleite do produto em mãos. “Blunderbuss”, primeiro álbum solo de Jack White, é um exemplo de obra criada por referências bem incorporadas. Indo além dos demais projetos, a carreira solo permite desenvolver invenções ainda em falta na prolífica carreira do músico. E é nisso que seu álbum se baseia.

Referenciando o referenciador, ele demonstra os pontos de partida de sua música sem códigos cifrados. Apenas para nota, refere-se aqui aos seguintes projetos: White Stripes, banda que revelou o talento de White, pegada lo-fi com apreço pelo blues; The Raconteurs, conjunto com os amigos do Green Hornes e Brendan Benson, indie-rock no primeiro álbum, vingou pro classic no segundo; e Dead Weather, encarnação megalomaníaca num “super grupo de garage-rock” (ele mostrou que é possível) com Alison VV (The Kills) e Dean Fertita (QOTSA). Bastante música e gente demais para pouquíssimo tempo, a conta aumenta se considerar os trabalhos de JW na produção e gerência da gravadora Third Man Records.

Vertentes originadas da mesma fonte, uma inesgotável coletânea na cabeça de Jack White. O mais interessante de “Blunderbuss” é a forma como ele usa isso para fazer, finalmente, um álbum próprio. Em entrevistas ele mesmo diz que se sentia “solo” no White Stripes, mas a idiossincrasia do formato de dupla certamente é diferente de agora. Montou bandas diferentes para apresentar suas inéditas antes do álbum sair e gastou o quanto pode daquilo que o influencia. Uma das revelações de “Blunderbuss” é como ele monta em cima disso um modelo autêntico, não replicado. Recolhe dos gêneros que o chamam atenção (folk, soul, blues, classic-rock, lo-fi) um material para seu discurso; tomando cuidado para não fazer com que essas influências se sobreponham à voz que sua obra tem. Ou seja: quando se ouve a guitarra de Jack White, pensa-se em Jack White e não nos seus guitarristas favoritos — alguns claramente referenciados, palavra recorrente neste texto. “Seven Nation Army” não deixa mentir.

“Blunderbuss” não tem um hit como “Seven Nation…“, embora carregue o cerne do que é a carreira do guitarrista. O riff no talo e cheio de ruidos de “Sixteen Saltines” é um pedaço de “White Blood Cells” (terceiro álbum do White Stripes), mas a música prossegue numa toada totalmente diferente daquela de 2001 (gravação do WBC). “Missing Pieces”, faixa de abertura, vem com um piano à 60’s, pegada rock-branquelo paquerando com a música negra. No que “Love Interruption” escancara, acompanhado de uma cantora soul, ele faz sobre uma base blues uma canção melancólica sobre o amor. São combinações antes imagináveis de ver na obra de Jack pelo vasto histórico produzido pelo cara.

A multiplicidade tecnológica tirou o peso dos instrumentos tradicionais. Imergir nos novos processos virou obrigação de uma classe emergente (e bem talentosa também). Por esse acaso, ele acaba como um marginal por insistir na posição de guitarrista. Uma colocação impensável há duas décadas, e perfeitamente compreensível hoje. O contemporâneo pede um “soar diferente” às vezes confundido com a exclusão do antigo, Jack é um que olhou de outra forma e leva a retromania para seus lançamentos. Retro representado na fidelidade vintage e exploração dos sons típicos da música negra seminal norte-americana.

Não se espera a vanguarda pela guitarra de Jack. Através de um filtro bem apurado (bom-gosto) ele concretiza em “Blunderbuss” uma antologia de referências com foco sobre a música negra americana, blues mezzo soul, com a assinatura de um guitarrista vivo. É um dos partidários que a novidade às vezes vem sem confronto e com uma cara familiar. Por essa lógica, muito picareta se apóia, mas no Jack White a gente pode confiar.