Karol Conka | Batuk Freak

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Havia um tipo de vergonha compartilhada por um nicho específico demais em um passado não muito distante. Em festas mequetrefes realizadas em casas de shows e universidades Brasil afora, uma juventude (muito próxima das caricaturas que desenham os jovens da ala ciências sociais) buscava alguma identidade a mais se escorando no dub, no ragga e no dancehall.  Não vingou. Até hoje não dá pra saber se Lei di Dai era sacanagem ou não. Em uma outra ponta da questão, houve quem, com alguns desses expedientes que remetem à matriz jamaicana, fizesse daquilo um trampolim muito mais interessante, evoluído, sagaz. Black Alien talvez seja o mais notório. Hoje, é Karol Konca.

O que faz Karol brisar é uma certa predileção nostálgica por raízes, vontades e hábitos. Mas, no entanto, fosse só isso, não seria o bastante. Uma busca em qualquer rede social trará resultados com garotas de toucas estilizadas com o simbolo da maconha e com letras em cores da bandeira da Jamaica, fazendo apologia à natureza, a uma certa positividade e coisas afins. “Batuk Freak” não é isso e nem só isso. É um respiro artístico que há muito era procurado por quem desejava fazer esse flerte entre um certo resquício reggae/ragga que sobrou em nossa consciência pop. “Gueto ao Luxo”, por exemplo, é o esmero de um artista que não se contenta com uma ideia inicial promissora (em 2012, o Pollo tinha uma ideia boa, lembra?).

E esse esmero é justamente o que deu forma final ao álbum: as percussões e o diálogo de Conka com as temáticas da rua. MC legítima com performance ao vivo garantida e apoiada por todo um cenário que “Batuk Freak” constrói sofisticado. A isso acrescido nós temos refrão após refrão a certeza de que o álbum é possível porque há um intricamento tão grande entre produção, contexto e artista que uma faixa como “Gandaia”, ouvida junto ao todo, está longe de ser descartada como poderia ser se tivesse sido lançada como single isolado – medida comum em tempos em que álbum, muitas vezes, não significa mais do que um apanhado de canções de determinado artista. E, assim, cada detalhe da faixa ganha a importância que peças pop ganham. Assim, o canto moleque na hora de reparar que o vestido subiu demais é mais do que charme.

Posso confessar que ouço “Que Delícia” sem fazer nenhum link com um dos melhores memes dos últimos tempos. Perceber isso diz sobre minha saúde psíquica (embebida e maravilhada com os bordões que não estão no Zorra Total), porém diz também que coloco relevância radiofônica em uma canção deste naipe — por exceção, afinal, não há nada parecido com isto em qualquer programação popular Brasil à fora. Mas é possível (ainda eu não garanta que um dia será possível que o mercado pop absorva refrões como os de Conka). Aliás, estamos longe disso se nos baseramos nas identidades do que realmente bomba pelos caminhos de uma MPB que aglutinou Caetano/Gil, Lulu Santos e Claudinho & Buchecha num único produto soft demais.

Karol está em um passo bem mais interessante e, talvez por isso, utópico se pensarmos no mainstream brasileiro (utópico mas não distante. Nave Beatz, que produz Karol neste trabalho, já trabalhou com sucesso em quase hits de Emicida). Mas “Batuk Freak” não sinaliza um oásis. De fato, há discos recentes (e peculiares e já clássicos) da música brasileira que irão se perder com o tempo e precisarão que uma outra geração os encontre em sebos virtuais para que ganhem o valor merecido de mercado (são os casos deste do Rodrigo Campos, desse do Metá Metá, e desse do Max de Castro). Mas a linguagem de Karol Conka em 2013 é uma língua do agora, que não revisita. Aglutina o que se faz lá fora de uma forma indicando que, caso abuse um pouco mais das influências mais populares, há tudo para que uma nova estética possa permear sem parecer intrusa demais nos terrenos loteados das FMs.

“Caxambu”, de Almir Guineto, fecha em pancadão e terreiro “Batuk Freak” mostrando que Karol faz muito bem em ter ouvido os conselhos de seu pai – e poderá fazer muito mais se ouvir o que o povo está ouvindo nos alto-falantes dos carros. “Batuk Freak” é um disco de 2013 com os caminhos que nos levaram a 2013.