Marcelo D2 | Nada Pode Me Parar

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Marcelo D2 diz não ter idade para ouvir Cone Crew Diretoria. “Deve ser porque estou velho”, acusa quando percebe a diferença de seu mais recente lançamento em comparação com os outros que vieram após o boom da carreira solo em um álbum de samba com rap e carregado por um single que era quase rock. “Qual É” demorou um ano pra estourar, mas estourou. Em 2013, “Nada Pode Me Parar” soa um tanto deslocado porque não há concorrentes diretos para uma comparação no rap brasileiro. Em São Paulo, Emicida, Criolo e Rael apostam em uma outra direção. No Rio, os pupilos ideológicos de D2, o Cone Crew Diretoria, ainda é besteira juvenil. D2 diz estar velho, ficou afixionado em Chet Baker (a capa é inspirada em “Let’s Get Lost”, filme de 1988), não gosta do ambiente do rap no Brasil e recebe SMS de Maria Rita o parabenizando pelo novo álbum. Curiosamente, uma das frases marcantes deste trabalho é “O legal agora é tirar onda de careta / diz que não fuma maconha mas se junta com os picaretas”, na ótima “Você Diz Que Amor Não Dói”. Por causa de três álbuns relevantes apenas para o próprio processo do artista, “Nada Pode Me Parar” é um disco que muda a biografia fonográfica de Marcelo D2.

O sample de xilofone e as crianças cantando em “Você Diz Que Amor Não Dói” (e, claro, fazendo uma referência a outra letra de autoria própria, algo característico na carreira); o tramp em “Fella”, narrativa mais fraca do álbum, mas que tem produção esperta e cativante do próprio filho — ainda tenha cheiro de 2012; a referência à “Selvagem”, dos Paralamas do Sucesso, na ótima letra de “Livre”; o cansaço com a insistência da mídia em classificá-lo como um representante da pauta cannabis no Brasil em “A Cara do Povo”. É um alívio ver Marcelo D2, finalmente, produzindo letras que não são reciclagens de ideias já criadas por ele próprio em um passado recente. Um dos álbuns do ano pro rap nacional — e com cara de que será esquecido pela crítica no final do ano porque, no Brasil, ser naturalmente pop é de um crime tremendo.

“À Procura da Batida Perfeita” e a carreira de D2 fazem aniversário em 2013: 10 e 20 anos respectivamente. O novo álbum tem quase nada daquilo que consagrou o disco de uma década atrás. Marcelo D2 reconhece como pouco inspirados os sucessores de ” À Procura…”. Culpa alguns movimentos errados: ter viajado bem na época do lançamento de um, por exemplo. Mas a verdade é que o álbum de 2003, considerado por muitos um marco recente (eu não sou tão otimista assim), era o início e o fim de um ciclo de uma mistura óbvia — o tal rap com samba — mas que nunca antes havia sido explorada tão bem e descoberto tamanho sucesso no pop brasileiro.

Antes de falar de “Nada Pode Me Parar”, preciso insistir em “À Procura da Batida Perfeita” e o ano em que estava. Em 2003: Pitty aparecia no mercado, Frejat lançava seu segundo álbum solo, O Rappa fazia o primeiro álbum sem Marcelo Yuka, Maria Rita era alvo de louvor e acusações, tinha ainda um resquício de música pop eletrônica com Marcelinho da Lua e, enfim, claro, tinha “Ventura”, dos Los Hermanos. Apenas um álbum desse ano chegaria perto de dialogar com algo próximo ao universo de D2: “Enxugando Gelo”, de B Negão e os Seletores de Frequência — e mesmo assim, aos 49 do segundo tempo, forçando a barra pela (não) proximidade dos artistas. O que me chama atenção é de que ainda nenhum dos outros álbuns acima destacados, com exceção de “Ventura”, merecam de fato algum destaque, todos os artistas continuam muito vivos no imaginário popular. Não à-toa, por ter feito um álbum bem mais interessante do que os citados, Marcelo D2 não só perdurou no inconsciente como também foi abraçado pela crítica.

Dito isto, “Nada Pode Me Parar” é um diálogo com o Marcelo D2 anterior a 2003 e, ao mesmo tempo, bem mais próximo de 2013. Evoca “Eu Tiro É Onda”, de 1998, seu primeiro álbum e praticamente não reconhece a paternidade de “Meu Samba é Assim” (2006) e “Marcelo D2 Canta Bezerra da Silva” (2010) — este último, seu pior álbum e relembrado pela voz chata de D2 ao samba na fraquíssima “Vou Por Aí”. De 2008, “A Arte do Barulho” é o único que flerta mais abertamente com uma fuga da fórmula de 2003.  É bom falar: todos esses álbuns tiveram hits. Ora gigantesco (“Qual É”), ora cumprindo tabela nas rádios (“Dor de Verdade” e “Pode Acreditar [Meu Laiá Laiá]”. Em “Nada Pode Me Parar” não é diferente por causa de “Eu Já Sabia”, com participação de seu filho Sain e Helio Bentes, vocalista da banda Ponto de Equilíbrio. A faixa é boa, um dos impulsos do repertório do álbum. É a faixa que registra mais obviamente as influências de D2: o crescimento do filho que não mais canta “Loadeando” e, sim, lidera um grupo de rap; a vocação para gostar do passado e do contemporâneo do rap norte-americano (Like, membro do obscuro grupo Pac Div,  participa do álbum tanto quanto a estrela Aloe Blacc ao mesmo tempo em que “The Low End Theory”, do A Tribe Called Quest é uma das grandes matrizes deste trabalho); o amor por “good kid, m.A.A.d City”, de Kendrick Lamar, pelo refrão e pelo bom gosto em escolher samplers e parcerias. Você já ouviu falar em Navebeatz aqui no Fita Bruta: o produtor está por trás das melhores faixas de Emicida e Karol Conká. Não seria diferente em “Nada Pode Me Parar”.

 

 

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