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Sambanzo | Etiópia

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Sambanzo

Etiópia

[Independente; 2012]

8.3

ENCONTRE: Site

por Matheus Vinhal; 19/03/2012

Leitor, eu confesso: não sei bem como, não sei bem de que maneira poderia eu, esse arremedo de crítico/blogueiro musical, escrever sobre “Etiópia”, o recém-lançado disco do Sambanzo, a banda/projeto liderada pelo saxofonista Thiago França. Talvez eu até saiba, talvez eu tenha medo. De escrever, mesmo.

Explico: o som produzido pelo Sambanzo – além dos horizontes da música em si – é uma representação quase perfeita da armadilha pega-mata-e-come crítico, um artifício pra denunciar as mazelas daquele que escreve sobre música. Em resumo, “Etiópia” é uma cilada. Pro crítico, não pro ouvinte comum. Deixa o meu ego, aqui.

A música do Sambanzo é um convite ao clichê, ao enfeitamento, à firula literária. (Mas cuidado aqui, amigo: a música do Sambanzo não é clichê, não é enfeitamento, não é firula.) E eu não quero isso pro meu texto, sei que é feio, sabe, não vou sair por aí falando que a música de alguém é um verdadeiro petardo, uma amálgama sonora inspirada no melhor da música latina, brasileira e africana, soltando pelos parágrafos as imagens sinestésicas d’antanho, de sempre. Aquela vergonha alheia tomando conta de quem lê. Não, obrigado.

Não vou sair catando as poucas migalhas sonoras que tenho capacidade de catar, arremedo de crítico/blogueiro musical que sou, ao longo do disco e tentar mostrar ao leitor – como se precisasse, como se não fosse óbvio pra aquele que ouve – de que maneira Thiago, com seu potente, intenso, magnânimo, serpenteante saxofone, vai alinhavando em “Etiópia” as mais diversas e possíveis músicas, muitos sons, muitas possibilidades rítmicas, melódicas, essas coisas. Não vou falar de, mais do que uma sonoridade, uma mentalidade afro-beat sobrevoando soberana o projeto, da africanidade presente nos timbres e nos arranjos, da possibilidade múltipla de composição e improviso que os músicos do projeto desenvolvem, na qual há espaço para todos, sob a liderança do sopro de França. Isso é uma armadilha, cara. Parece que o homem fez um disco pra eu chafurdar na lama do que há de pior na crítica musical. E eu não quero isso pro meu texto, não. Vade retro, clichê.

Uma coisa é certa: o leitor que ouvir o álbum, despretensioso, vai encontrar um disco que flui, que se desenvolve e se agiganta, dança um bolero, requebra, vai e volta, uma travessia transatlântica, sem essa preocupação besta minha e do meu texto  que – sei bem, não precisa jogar na cara, leitor – faz com que minha audição fique prejudicada, estou com medo desse disco, e “Etiópia” não é pra se temer, é um disco livre, como um texto que se desenvolve tranquilo, vai aparecendo sem a gente se dar conta, a gente vai lendo e ele vai se fazendo, tecido que é, quase não sendo pontuado – o sax de França nem pontua, não finaliza, ele é como uma vírgula em um parágrafo de uma frase só, vai acertando o ritmo, construindo novos caminhos, calmo, seguro, como diz o Matias no texto de apresentação do show do grupo, desbravador como um bandeirante, lembrando aquela época em que São Paulo não tinha medo do mundo, do Brasil. (Essa imagem do bandeirante, vou usar em todas as resenhas de grupos paulista, anotem aí.)

Mas, o que restaria, então, a esse arremedo de crítico/blogueiro musical? Talvez tentar ser direto, descritivo, falar o que é o disco, como surgiu, fazer uma entrevista, talvez. Dar as credenciais de Thiago França, o saxofonista por trás dos sons de quase todo disco bom lançado em São Paulo ano passado. Dizer que o Sambanzo é cria de um projeto anterior, focado mais na gafieira, que levava o nome próprio de Thiago. Nomear os músicos que fazem parte do projeto: Kiko Dinucci, Samba Ossalê, Welington Moreira, Marcelo Cabral, entre possíveis outros. Talvez o melhor seja falar só isso, deixar tudo aberto, provocar o leitor, quase ninguém vai ler mesmo.

É melhor nem resenhar um disco desses, melhor ouvir.