Santigold | Master Of My Make-Believe

Santigold

Master Of My Make-Believe

[Atlantic Records; 2012]

6.0

ENCONTRE: Site Oficial

por Rafael Abreu; 30/04/2012

Quatro anos atrás, Santi White ganhava fama por fazer pop de grife. Esquerdo, agressivo, meio dançável, meio eletrônico, meio terceiro-mundo, “Santogold”, o então homônimo disco de estreia da americana, era um fenômeno de nicho. “L.E.S. Artistes” e “Creator”, pra ficar nos exemplos mais sintomáticos (são singles) e talvez mais bem sucedidos do álbum, eram música de risco calculado: o suficiente para, naquela altura do campeonato, intrigar alguns ouvidos e desafiar um tantinho assim do establishment com a certeza de que não faria ruir o sistema. Santigold podia gritar o tanto que quisesse, mas “Santogold”, arredio que fosse, trabalhava com ganchos, fazia concessões, se atinha a um senso de concisão dificilmente vista em outros campos, se aproveitava de uma produção esperta e estratégicas, em seus momentos de excelência, e deixava espaço, inclusive, para a execução meio preguiçosa de guitarras à pop rock desinspirado. No horizonte, Clash, música jamaicana (sobretudo dub), new wave e algum tipo de radiofonia, ao menos hipotética, ao menos segmentada.

Quase meia década se passa e há muito pouco de novo sob o Sol. “Master Of My Make Believe”, o segundo disco da moça, chega ao mundo no ano apocalíptico de 2012, mas, em questão de cronologia de voz, de autoria e de estilo, o ano é 2009, no máximo. O que não resulta num disco datado: somente um pequeno passo, quase imperceptível, à frente, pra moça. Ou melhor, um passo ao lado, um passo que nem desenvolve o tanto de idéias interessantes – e sobretudo medianas – de um disco de estreia relativamente bem sucedido nem se arrisca por mares nunca antes navegados.

O que se tem, então, é um disco na mesma linha de punk moderno e terceiro-mundista de “Santogold”. Estão lá a tensão dos sintetizadores, as linhas de baixo malvadinhas, as pequenas viagens de psicodelia ascética, a produção impecável, o timbre esganiçado de Santi e um punhado de ideias, agora não tão instigantes quanto reproduzidas, resgatadas de si mesmas. Se há uma discrepância óbvia entre o que se ouvia e o que se ouve da moça é a imponência da música. O fato de que, à época de “Santogold”, Santi fazia sua turnê junto de M.I.A. é sintomático da força que pouco se vê em “Master…”, muito porque a produção das duas artistas tinha vários paralelos, em 2008. Ambas autoras de pop esquisito, ambas figuras visualmente marcantes, no cenário da época, ambas autoras de música que, embora bastante vendável, não se contentava em ser vendida: resistia e retorcia desde a origem.

“Master of My Make-Believe” é uma versão mansa de tudo que já foi, um disco que, cheio de excelência técnica – a lista de produtores, de Buraka Som Sistema a Dave Sitek, passando por Diplo e Q-Tip, tem bastante gabarito – se esvazia, em essência. Daí faixas como a quase ensolarada de “Freak Like Me”, o dubzinho 8-bit de “Pirate in The Water” e a marra sintética de “Look At These Hoes”, todas baseadas em elementos que, antes, renderam frutos minimamente comoventes. Não mais: por ora, Santigold trabalha no piloto automático.

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  • Ela recebeu quase a mesma nota de Norah Jones, o que deixa claro o gosto pessoal intervindo demais. Norah procurou um dos melhores produtores, escreveu com ele vários temas de forte cunho pessoal (e bonitas), variou em diversos e novos ritmos e ainda brincou de maneira inteligente com seu delicado e delicioso vozerio, só porque as músicas dela são lenta e não tem a necessidade de soar “alternative” que fica no mesmo patamar de Santogold, que apesar de bons produtores, apenas refez o que ela fez com o primeiro álbum e ainda copiou M.I.A. descaradamente em alguns momentos. 5 para essa, 7,5 para Jones.