São Paulo Underground | Beija Flors Velho e Sujo

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“O som precisa ser dividido, quebrado, batido, acariciado, beijado, afundado, enterrado e catapultado para novas dimensões de modo que inicie um diálogo entre universos”.

Ninguém vai explicar “Beija Flors Velho e Sujo” melhor do que Rob Mazurek. Sinóptica, a frase traz a imagem do som do São Paulo Underground, projeto original de Mazurek e Maurício Takara (mais tarde, com a companhia fixa de Gulherme Granado). À primeira vista, o tom desse trecho do release escrito pelo próprio músico pode parecer um pouco dispersivo mas não poderia ser mais preciso. A ação sobre o som (dividir, quebrar, beijar…), traduzida na manipulação em pós-produção, é peça-chave na concepção desta obra que, mesmo tendo Mazurek como centro de seu universo, ganha enorme extensão no pesado aparato sonoro de Takara e Granado.

Contribuindo com percussão e efeitos eletrônicos (além do cavaquinho em “Evetch”), Takara rivaliza em protagonismo com o cornetista, fazendo a ponte entre a música americana e a música brasileira. Particularmente insano nos umbandismos de “Basilio’s Crazy Wedding Song”, o multinstrumentista assume o papel do diplomata cósmico sonoro que o músico americano pede no release. Seu grande desempenho aqui já se anuncia em “Ol’ Dirty Hummingbird” (tributo a Ol’ Dirty Bastard, do Wu-Tang Clan), regendo uma fanfarra intermitente que esbarra no muro de ruídos de Mazurek.

Em “Arnus NusAr”, homenagem a Sun Ra (sim, esse disco é cheio de homenagens) e peça mais interessante do álbum, o carro chefe é um insistente riff de Granado, que passa 7 minutos alheio à ruidosa experimentação da dupla Takara e Mazurek. No ponto em que essa difícil faixa se transforma lentamente numa elegante versão de “Somewhere Over the Rainbow”, de longe se enxerga o diálogo entre os universos: não existem indicações claras para o ouvinte do que é improvisação e o que é composição.

Apesar disso, não se trata de uma obra impenetrável. Comparada à discografia do SPU, pode se dizer até que seja esta a peça mais acessível. Há uma noção de descontração aqui, com ênfase na segunda parte do disco, pouco vista nos trabalhos do trio – especialmente se posta em confronto com a tensão dos dois primeiros discos. No meio do álbum, um rompante carnavalesco chamado “Evetch” confirma o senso de diversão dos músicos, em faixa dedicada a Ivete Sangalo (o título deve ser pronunciado em inglês para melhor efeito).

Evitando qualquer prejuízo conjugal, Mazurek dá uma moral para a esposa em “The Love I Feel for You Is More Real Than Ever”. Como curiosidade, a faixa foi escrita para ser tocada no casamento de Mazurek, cerimônia que contou com Takara como padrinho e Granado como… dama de honra (N.E.: não sei se a história é verdadeira, assim ela é contada pelo noivo). E já que o artista incentiva a associação entre som e imagem, dá pra fazer uma analogia com a função dos músicos: temos Mazurek em protagonismo, Takara no fundo deixando tudo em ordem, e Granado abrindo caminho para a “noiva” brilhar.

Resumindo toda a complexidade do disco e sua concepção de som, “Taking Back the Sea is No Easy Task” fecha este grande disco acenando para cada possibilidade aberta durante a obra: um pouco de tensão entre percussão e sopro, um pouco de melodia, um pouco de barulho e um pouco de diversão na citação a “Suíte do Pescador”, de Dorival Caymmi (“minha jangada vai sair pro maaar…”). Note que Mazurek não diz que ele “acha” que o som deva ser assim, ele diz que o som “precisa” ser assim. Não é surpresa que se trate de um dos músicos mais relevantes em atividade no mundo: a música de Mazurek faz o que o som precisa.