seixlacK | O Seu Lugar É o Cemitério

SEIXLACK300

por Lucas Castro, do nada alucinatório

O selo carioca de house/techno 40% Foda/Maneiríssimo só está no seu oitavo lançamento, mas tem revelado entre seus músicos um esforço notável na busca de uma textura que dialogue, de alguma forma, com tudo o que se faz do gênero ao redor do mundo. Este primeiro EP com um artista de fora do Rio, o mineiro seixlacK, reforça (há ainda mais confiança quando se sabe que ele já havia flertado com o footwork): o ponto de entrada de seixlacK em “O Seu Lugar É o Cemitério” é seu contato com o house e o techno circulado nos últimos anos, da balada britânica às menções rotineiras dos gêneros na Internet. Esse contato é a base sólida para seixlacK poder recriar uma atmosfera precisa, fortalecida por momentos pulsantes e ao mesmo tempo nostálgicos.

Nas duas primeiras faixas, “O Seu Lugar É o Cemitério” e “Bart”, há um jogo de atração que perpassa a experiência sonora, similar aos últimos estudos de dance music do Four Tet, onde cada sobreposição aponta um espírito diferente, não tão facilmente identificável. A ideia de desconstrução de um gênero, para seixlacK, inclui uma espécie de abstração das sensações, onde as sensações mais instigantes vem nos momentos mais incertos (perigo, inquietação, tensão, amoralidade), que os fazem valer a pena. De certo, cairia bem assistir um film-noir com a faixa-título do EP de trilha sonora, como aqueles de Howard Hawks e todo o seu clima jazzista, tão semelhante à confusão de sentimentos que seixlacK busca neste EP.

E se seixlacK faz valer seus artifícios de criar imagens em “O Seu Lugar É o Cemitério” e “Bart” (em menor escala, já que tudo aqui é progressivo), em “Tele-Sexo” ele não poderia estar mais distante dessa estética. Se não pelo fato de ser uma faixa de 8 minutos relativamente mais festiva que as anteriores, talvez mais por inserir, no lugar das ideias de um John Talabot, uma sensibilidade estilística mais próxima do pop. “Tele-Sexo” é, talvez, unanimidade como o melhor momento do EP, com o synth grandioso permeando cada instante e sendo uma forma de estrutura livre da faixa, que soa convincente e contida ao mesmo tempo. “Tele-Sexo” é como capturar aquele momento, ou melhor, aquele grande momento de qualquer faixa pouco ou muito cativante e torná-lo o único; o cerne pulsando e representando totalmente a relevância da faixa, como se fosse um loop de 8 minutos.

Nada como negar tudo que se observou nos primeiros instantes e ainda assim deixar “O Seu Lugar É o Cemitério” mais intrincado. Desta forma, seixlacK termina evidenciando essa tensão nas faixas meticulosamente trabalhadas, onde a coerência entre a virada catártica em “Tele-Sexo” e o resto do EP se faz menos por uma linearidade estética do que pela criação de uma atmosfera de níveis densos, ainda que enganosos, sobre cada situação ou beat.