Supercordas | A Mágica Deriva Dos Elefantes

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O fantástico é mais uma vez a obsessão do Supercordas. Através de letras surrealistas, “A Mágica Deriva dos Elefantes” monta uma desordem de imagens criadas pelo rock lisérgico — dos 60′, “rural” e sem medo de badtrip. No inverossímil, as músicas criam um dicionário ilustrado próprio sem definições. A manifestação da mensagem que perpassa no álbum é a característica que marca.

De um jeito estranho, o Supercordas sabe o que quer. Muitas bandas se perdem em intenções e se imobilizam por tantas ataduras de referências. Isso não é um problema do Supercordas, certeiro em conjugar um paciente rock psicodélico pontuado por folk, às vezes numa onda lo-fi. Toda a desordem genuína das letras que anunciam “um futuro deixado para trás” por uma perseguição ao “dragão” (em “Mágica”) funciona pela inteligência da banda que traduz no seu som uma realidade paralela em que os integrantes devem viver.

A Mágica…” emerge dessa estética sem ratear em egotrips desnecessárias. São precisos na beleza das canções, contemplativas sem demasiar ou se repetir. É pela forma que “Um Grande Trem Positivista” trata a relação entre dois de forma lúdica, “você não vai parar se a frente houver alguém/ mas um dia eu vou e te descarrilho”; a proximidade a perfeição melódica com “Índico de Estrelas”; e o experimentalismo inabalável e incrível na música que tem o melhor título possível, “Ninguém Conquista a Noiva Dançando”.

As novas canções do Supercordas representam uma continuidade saudável do estilo que a banda promoveu em seus outros discos. Em “A Mágica…” a banda vem com letras preenchendo mais espaços e filtros para a voz que nem sempre fica em primeiro plano. Um formato menos “livre”, com menor quantidade de pausas, mais acelerado, que “Seres Verdes Ao Redor”, álbum antecessor lançado em 2006.

No tudo, não tem muita justificativa para esse repertório tão bom ter demorado tanto para sair — o primeiro single, “Índico de Estrelas”, ronda na internet desde  2009. A felicidade é que deu tempo para tudo. Sem pressa, esse novo disco no Supercordas traz uma anti-catarse. Ele se impõe pelos detalhes postos a todo segundo, pelas imagens desenhadas nas letras e barulhos estranhamente familiares a brotar.

Os temas melancólicos são especialmente bonitos. “À Minha Estrela Bailarina” e “Ninguém Conquista a Noiva Dançando” são exemplos se uma sensibilidade ímpar consolidada por caminhos tortos. Ruídos, voz abafada, sons atípicos são elementos peculiares e não muito utilizados para induzir a reflexão. O próprio Supercordas poderia investir mais nisso.

Em seu caminho ébrio, o Supercordas esbanja uma certeza de banda com repertório e discurso para criar ainda mais. Mesmo que o surreal dispense qualquer roteiro.