Todd Rundgren | State

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Todd Rundgren é um segredo escancarado. No meio de sabe-se lá quantas listas de melhores discos de todos os tempos ou dessa ou daquela década, não é improvável que citem seu nome duas ou três vezes – geralmente acompanhado do que se considera seu melhor disco, o “Something/Anything” – e o então rapaz fez até uma aparição na lendária coletânea “Nuggets”, acompanhado de sua banda na época, o Nazz, com uma musiquinha que era pouco mais do que uma versão desavergonhada de “Can’t Explain” do The Who. Uma pesquisa um pouquinho mais aprofundadada dos mil cânones que se inventaram dos anos 1950 para cá, é suficiente para que se descubra a beleza de seus discos setentistas. O problema mesmo é TOPAR com Rundgren – em terra de Bowie, Led Zeppelin, Pink Floyd, Talking Heads e outros tantos conhecidos, Todd se torna um feliz tropeço, uma curva inesperada, uma surpresa que, imagino, muita gente talvez nem tenha ao longo da educação musical. O que torna o artista de “State”, na melhor das hipóteses – ainda mais se tratando de um público brasileiro – um ilustre desconhecido. E por isso que talvez seja bom entrar com um pouquinho de bagagem, tanto nessa leitura quanto na hora de ouvir o(s) disco(s).

Quando comecou sua carreira solo, Rundgren era um cara esquisito. Multi-instrumentista, estourou com “Something/Anything” um disco duplo cujos três primeiros lados de vinil foram inteiramente tocados por ele, sendo a última parte gravações com uma banda completa, de músicas tão cirurgicamente executadas quanto todo o resto que a precedia. Entre brincadeiras metalinguísticas – o jogo “Sounds Of The Studio”, no inicio do segundo lado, foi sampleado pelo Hot Chip em “Shake A Fist” – e psicodelias eletrônicas, era um disco de pop progressivo, ocasionalmente soft rock. O que, vá lá, não é tão estranho. As coisas comecaram a ficar mais esquisitas com “A Wizard, A True Star”, um disco tao grande para tecnologia da época que a qualidade do som foi propositalmente diminuida para que tudo coubesse numa só bolacha. Fragmentado, “A Wizard…” era um álbum de canções, meias canções e canções e meia, vinhetas, medleys, reprises e introduções, perfeitamente teatral em sua boa qualidade. E e desse disco pra frente que Rundgren se permite viajar mais, fazer pequenas brincadeiras e injetar conceitos em suas gravações.

O importante é entender que, naquela época, o traco mais interessante do trabalho de Todd era o fato de que ele era imbuído de um senso sofisticado de composição pop associado a estranhezas, excentricidades, a uma duplicidade que deu a luz tanto “How About A Little Fanfare?” quanto “Hello It’s Me”, uma duplicidade que parece perdida em “State”, seu mais recente trabalho. Antigamente, Rundgren era um craque em forcar os limites do gosto e das melodias água com açucar, extrapolando-os pra criar seu próprio padrão, seus próprios parâmetros. Uma coisa muito bonita de se ver, mesmo pra mim, que so descobri sua discografia ainda no inicio dessa década, depois de quilos de revoluções sonoras e no clima de “tudo já foi feito”. O problema em “State” é que os limites do gosto e da qualidade são extrapolados de forma gratuita, auto-indulgente. Em vez de fantasias calculadas, bem produzidas, projetadas, exageros com pouca massa cinzenta. O estranho de canções como “Serious” ou “Angry Bird” é que são composições cansadas, tediosas e principalmente baratas na produção, cheias de truques desnecessários que dificilmente salvam o estrato pobre em que foram plantadas. A discrepância entre essa realidade e um passado de canções ricas em timbres, arranjos e melodias é absolutamente triste, porque a visão de mundo de “State” é uma em que não há espaco nem para o deleite de uma canção de rádio, nem para a audácia de experimentos sonoros. Num disco cuja sonoridade não é exatamente alheia ao Rundgren – um misto de soft rock, música eletrônica e R&B – o aspecto dilapidado, meloso e progressivo de parte de seu catálogo se torna simplesmente mole, fraco, mal acabado. Equivocado, alguém diria que “State” é mais velho que “Todd” ou “Runt”, só para citar dois exemplos. No entanto, a questão aqui não é idade: é qualidade.

Em vez de um disco para um momento que não existe senão ao longo de toda a humanidade, um disco classicista, basicamente, a música que se ouve em “State” é música de um não-momento. Quase anti-rundgreniana.