Toro Y Moi | Anything In Return

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Chaz Bundick fazia música de moleque sensível trancado no quarto, no início. Com a privacidade escancarada de um notebook, o conforto e a solidão do mais doméstico dos territórios, se virava no meio de muitos, à época. Um chillwaver: sampleava e cantava nuvens eletrônicas, meio amaciadas, ocasionalmente aplainadas, quase sempre retrofuturísticas. Vez ou outra criava paraísos fáceis demais, beiras de praias invadidas por cobertas. Se firmava uma espécie de cientista residencial, com seu primeiro disco. “Causers of This” é o som de um rapazinho se maravilhando com as circunvoluções de substâncias coloridas, brilhantes, lentas na corrente e intensas no espetáculo visual. E aprisionadas num recipiente de plástico.

Em “Underneath the Pine”, Chaz se transformava em bandeirante, pra utilizar um termo essencial a uma das grandes referências – talvez inadvertidas – do disco. “Go With You”, “Before I’m Done”, “Still Sound” e todo o resto que se ouve ali é música de desbravador antigo descobrindo um pântano à meia luz, revoadas de vagalumes, grilos secretos e fogos-fátuos sendo a imagem equivalente de um disco que se propõe a iluminar, na escuridão, toda a vida – Milton, Lô Borges, Clube da Esquina, etc. – que se esconde em volta dum só ponto na mata. Tudo, ali, parte dessa noção de vida secreta, de repetições sonoras que, pouco a pouco, vão se expandindo, se alargando, se engravidando. Bundick crescia e aparecia, do tamanho de um pequeno ecossistema.

Passos importantes porque fazem a trajetória que o leva de volta à cidade grande, que parece deixar Bundick meio abestalhado. Inserido na urbe, reencontrou o PC, se desfez de uma banda “de verdade” e começou a fazer música mais de pista do que de outra coisa, o que já tinha experimentado com bastante êxito no EP “Freaking Out” e em projetos paralelos. “Anything in Return”, nesse contexto, é sobretudo um disco de luminosidade sintética permeada pelas epifanias orgânicas de “Underneath the Pine”. “Harm in Change” e “Say That”, as duas primeiras do álbum, afirmam esse regresso à iluminação artificial de boates descoladas, mas é como se Bundick se lembrasse o tempo todo de outra vida, de outro tempo. Como se a pista de dança fosse invadida por um rio imaginário – coincidentemente um teclado e um piano hipnóticos dando o tom de duas faixas cujos centros são batidas. E assim acontece, também, com “High Living” e “Studies”, a primeira a criação perfeita de uma selva que, de tão paradisíaca e chapada, parece de mentira, de brincadeira, de ironia, a segunda uma canção doce de acidez em pontadas, falsetes, truques de guitarra. Produtos de instantaneidade e de memória, ótimos pontos médios da distância entre o mistério do campo e o ritmo da cidade.

A fraqueza do álbum, que não chega a ser terrivelmente ameaçadora, é que esse rio nem sempre dá as caras. Sendo o cenário o mesmo ao longo do álbum – uma discoteca explodindo em jogos de luz de diferentes velocidades – a diferença é que, vezenquando, ele coincide com superficialidade, com luxo besta, com efeitos sem muita razão além do maravilhamento de um, dois, três mil pares de olhos abobalhados por uma noite de bebedeira ou qualquer droga que os faça excitados demais pra continuar com o mesmo juízo quando a madrugada tiver ido embora.

Quando isso acontecer, a última parte de “Anything in Return” (“Cake”, “Day One”, “Never Matter” e, até certo ponto, “How It’s Wrong”) já vai ter evaporado. Pois é na etapa final do disco que as coisas desandam. Cada uma dessas faixas é a traição do espírito que se equilibrava com certo êxito, até então, todas contaminadas por um senso espalhafatoso de diversão meio fria, quase morta. Em “Never Matter”, a luz extravagante e desequilibrada de sintetizadores de neon em volta de uma melodia rasa, em “Day One”, os improvisos “relaxados” (e desinteressantes) de tecladinhos de brinquedo, e assim por diante.

Depois de se realizar em adolescência selvagem, o último do Toro Y Moi, “Anything in Return” é o retorno do filho pródigo. E a perdição que esse rapaz encontra, desacostumado a aquecimento a gás, a asfalto e à comodidade da eletricidade artificial. Em suma: um músico perdido na modernidade.

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