Se igual à “Semáforo”, Hélio Flandres dizia ter mais que meia dúzia, então o nome do novo álbum de sua banda é uma grande – e irônica – homenagem a estas faixas.

“Boa Parte de Mim Vai Embora” poderia ser divido cruelmente em lado “A” e lado “B”. Propositalmente, neste segundo lado, estariam apenas as faixas que podem passar batidas aos ouvidos de quem nem mata, nem morre pela banda cuiabana. Se ajuda o leitor, passo para nota as faixas desse lado: “Se Tive Que Ser na Bala”, “Desmentindo a Despedida”, “Nessa Cidade”, “Engole (Arde Mais Que Brasa em Pele Quente)”, “A Patinha da Garça”, “Onde Você Parou”, “Amigo”, “Morrerão” e “O Que A Gente Podia Fazer”. Se você deseja se divertir enquanto cria este roteiro para poupar seu tempo, chame este lado de “músicas em que Hélio Flandres começa cantando de um jeito insuportável e algumas músicas em que Hélio Flandres não começa cantando de um jeito insuportável” (porque quem canta é o baixista Reginaldo Lincoln). Se a diversão não estiver completa, acrescente asteriscos em “Amigo” e “O Que A Gente Podia Fazer” e escreva no rodapé: “incompreensível”.

A qualidade das canções, no entanto, diz pouco sobre o ótimo molde do álbum. “Boa parte…” é, portanto, interessante em sua concepção. De cara, surge menos pretensioso que o álbum de debute da banda, o homônimo Vanguart. E se é reduzido o número de pompas, também é pouco o número de hits. Aliás, depois da capa, a São Paulo do Vanguart aparece e impressiona logo de cara com “Mi Vida Eres Tu”, não apenas um ótimo single, mas candidata a ser uma das melhores faixas lançadas pelo rock neste ano. Cantando como se o resto do álbum não existisse, Flandres encarna qualquer um que esteja afim de cantar, mesmo que não tenha perdido mulher, mesmo que não esteja triste. Mas que, sim – e parecia até que a banda tinha entendido isso -, canções são para, mais do que existirem, cumprir uma função do social que não esteja apenas na poética e na vivência de quem canta. O rock brasileiro esquece de que é preciso ser mais plural. Nós não temos tempo para termos um Wilco – e o Radiohead tropical não perderia tempo cantando rock.

“Mi Vida Eres Tu”, parceria entre Flandres e Lincoln, merecia um álbum próprio, só pra ela. E, às vezes, parece que o Vanguart quase fez isso de propósito. Mas, não. Superior, a faixa acaba parecendo um acidente no álbum. Se repetir a fórmula nos próximos álbuns, a banda poderá montar uma boa coletânea (download grátis) de singles. E isso é um acidente de percurso para o discurso (chocho) do Vanguart.

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