Mahmundi | Calor Do Amor

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Mahmundi

Calor Do Amor

[Independente; 2012]

4

ENCONTRE: Soundcloud

por Rafael Abreu; 20/03/2012

“Calor Do Amor” é um sinal dos tempos, e, como um sinal, faz pouca coisa além de indicar, de sintetizar, de se referir a qualquer coisa além de si mesmo.

Resume certo abandono de certa parcela da “música jovem brasileira” – seja lá o que isso for, nesta altura do campeonato – de se ater ao orgânico, ao banquinho e o violão, ao rock mpbístico, ao redescobrimento (à fagocitose, à remixagem, à refeitura) do samba e a um espírito meio universitário – uma característica de intenção neutra, nesse texto – de se fazer música. Mahmundi faz eletropop em um país em que não havia muito espaço pra tal gênero até que o chillwave – a semelhança entre imagens de divulgação com o Neon Indian, se coincidência, é meio triste, por lembrar um artista bem à frente da moça – já estivesse próspero e um tanto decadente, em tudo quanto é lugar. Sinais, então, de que uma faixa desse tipo é uma espécie de novidade, é coisa muito pouco vista e feita por aqui. Isso são fatos: não têm qualidade.

“Calor do Amor” é música da moda. E, portanto, canção de acessórios, nascida da esperteza em combiná-los e pra ser alardeada como um adereço bem cool, bem in. O que é a mesma coisa de dizer que Mahmundi faz música de timbres – oitentistas, obscuros, ligeiramente cafonas, retrôs e, no entanto, inegavelmente contemporâneos – visando antes instrumentos do que seus próprios sentidos e, consequentemente, o sentido maior de uma faixa.

É por isso, também, que “Calor Do Amor” é inadvertidamente uma canção parasita: só se sustenta em um joguinho esperto de contexto, de postura diante de uma década. Tanto que a própria apreciação, desconfio, prevê uma pequena concessão, a de que o que se ouve, ali, é quase ruim, ou ao menos surge de uma coisa meio ruim que se deveria gostar com certa condescendência, com certa desculpa (“Não é deliciosamente brega?”). Com mais essa faixa – a de estréia é a igualmente fashion “Desaguar” – Mahmundi “firma” o território de outros tempos enquanto perde, em última análise, o próprio chão em que pisa. Ainda que acabe fazendo a festa e movendo os pés de alguma gente. Divinamente vestida, é claro.

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