MC Dede | Role de Hayabusa

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Foi com a grana dos shows que Josley Caio, paulista de Tiradentes, conseguiu que sua mãe Rita de Cássia se fixasse como auxiliar de limpeza após tê-la visto detida por furto em um supermercado. Cuidando sozinho das irmãs, MC Dede arranjou seu nome artístico e tempo para flertar com o funk melody e também com o charme antes de Role de Hayabusa, seu principal hit (música que, aliás, antes que você pergunte, o Fita recomenda pois é uma música de destaque do gênero no ano.

A nota é média por, apesar de tudo, não possuir fissuras ou rompantes estéticos).

Se você joga a versão brasileira e tunada do Pro Evolution Soccer, certamente esbarrou com “Levando um Sonho” (do péssimo verso “Sei que todo mundo odeia o Chris”) na hora de mexer na tática do seu time. Mas não deixe isso te impedir de ver o que Josley fez em 2012. O MC Dede (fala-se Dedê e não Dedé) mostra em “Role de Hayabusa*” que seu fanatismo quando ainda criança pelas lambadas de Beto Barbosa e pelo pagode não foi em vão.

Não há lambada em “Role…”. Mas há um esboço de fuga do padrão paulista que os MCs desta capital vão imprimindo no funk carioca. Evocando as mesmas temáticas de “Megane” (MC Boy do Charmes) e do hit principal dessa lavra paulista “Como É Bom Ser Vida Loka” (MC Rodolfinho), “Role de Hayabusa” é um pouco mais ousada ao relembrar que é possível um pouco mais por parte dos produtores e cantores do gênero. Após seus versos iniciais, o hit dá uma guinada que mistura a segunda (90’s) e a terceira geração (2000’s) do funk carioca.

Outra observação: se o brega da periferia de Pernambuco explora a temática do funk carioca e se destaca por usar a batida do eletro-forró ou mesmo tecnobrega, o funk feito em São Paulo se espelha apenas nos aspectos técnicos do funk feito no Rio de Janeiro. A fala é quase sempre similar a do rap — o que não acontece em “Role…”. O  baile de MC Dede é como os outros, claro: tem uísque, área VIP, Hollister & Abercrombie Fitch. Mas as semelhanças param por aí – e também na batida a capella característica da produção contemporânea do funk carioca. É em sua segunda estrofe (Ao contrario do que dizem por aí /Eu sei que você quer se divertir /Andar de vestidinho, mini saia ou mini blusa /Vem dá um rolé de Hayabusa) e também na ponte (Meninas solteiras o baile é de vocês / Vem dançando uma de cada vez) que a canção dá sinais de que não é mais um rap paulista em cima de uma base vinda do Rio.

Os versos em destaques evocam nitidamente o clichê da vertente mais romântica do funk carioca, o charme, e que foi utilizado com louvor pela dupla Claudinho & Buchecha até seu terceiro álbum chamado “Só Love”. E está aí o grande mérito de “Role de Hayabusa”: por misturar, não se torna repetitiva ou cansativa como são os outros exemplos de canção dados neste texto. Se é agoniante ouvir as péssimas métricas e rimas de MC Rodolfinho ou a agressividade vocal de MC Boy do Charmes, MC Dede catalizou o que o gênero oferecia e transformou “Role de Hayabusa” no principal hit do gênero no ano.

Ao sintetizar uma espécie de berimbau para compôr o riff principal, a canção poderia ficar limitada em seguir a melodia no tom maior deste instrumento. Porém, usando uma progressão bastante incorporada no indie-rock brasileiro, por exemplo, MC Dede transforma o que seria monótono em extremamente dançante e, diga-se, reflexivo a partir do momento em que a canção traz imediata diferenciação. E é na hora em que descreve a mulher digna de ir dar uma volta na Hayabusa que tudo acontece: a batida ganha seu complemento, a voz de Dedé contorna-se para a fala e simultaneamente para o canto e a pista já deve estar tomada por pessoas dançando uma canção que, pelo seu tema, normalmente esbanja grosseria vocal e rudez de seus MCs — e que, na maioria das vezes, ignora o pagode e os antecedentes do funk tão típicos quanto o dialeto rap.

Se colocado de lado as grandes arestas que o funk carioca possui na comparação formal com outros gêneros, MC Dede não é de fato um grande cantor. Mas, sim, “Role de Hayabusa”, produzida por DJ Bruninho FZR, é um exemplo para a produção contemporânea de qualquer outro gênero. Principalmente por se tratar de um gênero extremamente comercial e popular — popular demais: vai do .mp3 pro carro, do carro pros bailes, dos bailes pra rua, das ruas pros carros.

E, sendo assim, é bom que uma MPC e um microfone deem uma surra no argumento daqueles que vivem insistindo em um tremendo mimimi mercadológico para justificar seu fracasso comercial. Aliás, “Role…” é bem melhor do que tudo já lançado por MC Dede. “Role de Hayabusa” é sexy sem ser vulgar na classificação capanemística (outrora oferecida à Andressa Soares, a Mulher Melancia). Ou melhor, como diz a letra, é tão sensual e discreta quanto a morena da letra. Que coisa absurda.

 

*Lançada em 1999 pela japonesa Suzuki, a Hayabusa é um dos modelos mais conhecidos da montadora e também a moto que divide espaço junto com outras motos de 1100 cc no imaginário funkeiro e rapper. E, pelo jeito, possui possibilidades de rima muito interessantes para um funk. O MC já havia “testado” a moto em outra música, chamada “A 1100”.
  • Pelvini

    Parabéns ao Fita Bruta e ao Yuri por não ignorar o funk. Sou educador, trabalho com crianças e adolescentes da favela – onde o funk é amplamente escutado – e é incrível como minha luta tem sido muito mais no sentido de botar na cabeça do profissional que funk é, sim, música (e eventualmente protesto, afronta e militância).

    Daí que lendo isso aqui eu pelo menos sinto que estou dialogando sobre funk com alguém. Valeu, fita!

    • Yuri de Castro

      Pelvini, fico muito feliz com seu comentário. O funk é o único gênero no país com alguma força de corroborar ou modificar algo. Nenhum outro chega aos pés de sua objetividade. Parabéns se você usa-o como fonte de interpretação de muitos preconceitos existentes na sua própria vivência e na vivência dos alunos. Existe bastante coisa ruim sendo endossada no funk, é claro. Mas até isso pode ser explorado.

      Obrigado!

  • amandita

    Mesmo sendo de estilo diferente, o melhor funk do ano ainda é Luxuria da MC Byana, é tipo uma Beez in the Trap melhorada, muito bom. Mas Dede tem seus méritos.

    • Yuri de Castro

      Amandita, tenho sérias restrições com a Byana. Acho que a MC apenas corrobora com o machismo já amplamente divulgado pelo funk e “Luxuria” é um tanto “escrotona” nisso: não é chiclete, não é atrativa e apenas conta com uma letra como chamariz de alguma atenção. Isso sem contar que essa a voz dela é uma afronta a qualquer tentativa de audição.

      • amandita

        haha, não sei se é pelo fato das músicas anteriores dela serem horrendas (principalmente “Vem putaria”), Luxúria foi uma surpresa . Tanto que a última música dela (deboche) continua sendo tão ruim quanto as outras, o que é uma pena, pois o funk feminino tá precisando de novas representantes.

        • Yuri de Castro

          E juro que tentei aturar a Byana. Mas nem os porta-malas que ouvem funk aqui em SP conseguem aturar a menina. Nunca mais se ouviu “Luxúria” por aqui. “Fala Mal De Mim” continua #1 nas pick-ups. haha

  • Imparcial, profissional, abalizada e genial. É o que tenho a dizer sobre esta análise. Chega a ser anti-classista (diante do fato de possuir requinte, mas ao contrário dos classistas, não repudia ou trepudia). Exemplo de meta-análise condizente que qualquer musicista deve contemplar ao testar novas possibilidades musicais, sem pojos ou preconceitos, e sem parar no ponto comum e na simploriedade. Virei fã e leitora certa do Fita Bruta, assim ao acaso. Parabéns.