Hospitality | Trouble

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Há coisa mais babaca ou irresistível do que tentar ser diferente? 2014, tudo quanto é tipo de prova de que a cultura pop – leia-se: capitalismo – engole e regurgita pasteurizado qualquer desejo, expressão ou obra de arte, e ainda há quem tente. Provavelmente porque funciona – a ingenuidade do disco único, do filme esquerdo, da arte alternativa, pra utilizar uma palavrinha desajeitada, pode, de fato, ir bem longe. Basta bom senso. E boa sensibilidade.

O Hospitality, bandinha americana de vocal-guitarra-baixo-bateria-e-um-pouquinho-de-teclado, é uma banda de rock, mas não só: é banda de indie rock. Como tal (e como jovens), o imaginário é tão preciso quanto o termo e tão vago quanto o que ele inspira. O segundo disco do grupo é um trabalho de canções pop que, no geral previsíveis, te fazem ouvir duas vezes. Resta a dúvida: foi isso mesmo que ouvi, era só isso mesmo? Pra quem é mais paciente nos juízos e mais responsável na escuta, a recompensa vale, embora tenha seus percalços. O truque é justamente a pulga atrás da orelha, a sensação implacável de que o disco é um som radiofônico assombrado por seu duplo esquisito. O truque é a tal da diferença, a ilusão romântica de que nem tudo é produto ou indústria (mesmo que seja). Um disco de déjà vus certeiros: você já ouviu e não ouviu o disco de cabo a rabo, mas não sabe bem onde.

“Trouble”, então, com capinha esperta e melodias insuspeitas, é atravessado da banalidade juvenil de fotos bem enquadradas, acordes despojadamente produzidos e filtros certeiros. Não há surpresas ou descobertas. Há aprofundamentos, deturpações interessantes de realidade, momentos em que a foto descolada parece mais do que ela é, e talvez seja mesmo. Se há um problema no disco, inclusive, é que tenha pouco controle dessas qualidades. A base é comum – o vocal pequenino de menina blasé, a guitarrinha moleca, um senso raso de tristeza e melancolia – mas há espaço para profundidade no que a música tem de prosaica. Em “Nightingale”, o início é traiçoeiro: explosões de guitarra e gritinhos de que, à noite, você vai ver fantasmas na sua cama são seguidos de uma música maior, das primeiras caras de um disco de uma juventude consciente, garotos que fazem merda e são garotos, mas pensam um pouco mais no que fazem. Menos Best Coast, mais Violens (a diferença é de espírito, a sonoridade passa longe da última banda).

Muitas das faixas, mas nem todas, sofrem um processo de auto-libertação como o de “Nightingale”: livram-se dos próprios limites, das próprias besteiras, e rumam prum desconhecido familiar, uma aposta segura. E param, rápidas. No caso da faixa em questão, é a despedida viajandona e solene, o sintetizador criando um universo lunar, lá longe. Em “Sunship”, a partir do conforto tão sussurrado, sensivelzinho e prescrito, a canção vai tomando forma maior, entram sopros, cordas espevitadas, um metal com um senso de dignidade maior do que qualquer coisa que tenha sido cantada até então – coisa de orquestra mesmo, uma eloquência de sopro que se faz em alto e bom som, tão sensível quanto o sussurro, mas mais corajosa. É por isso que “Trouble” não é um disco perfeito, não é um disco memorável, não é nem um disco imperdível. Mas é um disco de achados: de beleza escondida debaixo da pedra, juízos apressados que se desfazem à nossa frente. Um disco que nos corrige, de vez em quando, de um enfado fácil.