Marcelo Jeneci | De Graça

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Os tons de azul e rosa na imagem de divulgação (ex-capa do single) de “De Graça” é a evidência visual do processo de burilamento musical de Marcelo Jeneci em busca do fofopop perfeito. Por isso, não é mera semelhança que os tons pastéis de “De Graça” estejam tão próximos do visual escolhido para “Tudo Tanto”, de Tulipa Ruiz. Tulipa e Jeneci são parceiros e provavelmente os artistas com mais interesse e conhecimento na confecção de um som “pop sofisticado” na atual geração brasileira (vide nosso texto sobre “Tudo Tanto”).

Em “De Graça” Jeneci se mantém no fofopop e o leva um pouco mais além. Estão na faixa 1) a melodia pop simples, franca e marcante; 2) o aproveitamento musical de ritmos e de gêneros brasileiros (aqui mais especificamente da música nordestina) com o uso de elementos e timbres musicais ‘moderninhos’; e 3) a temática e a letra leve, pouco conflituosa e quase alienante. Esses três elementos são entrevistos em separado ao longo da música, como nos gritinhos uh uh uh ou ó ó ó e se unem hábil e ilustrativamente no fim da canção, quando Jeneci canta o verso chave da canção: “O melhor da vida é de graça“.

“De Graça” leva o fofopop um pouco mais além pois se atreve mais do que os seus pares. Um pouco ao contrário de Tulipa em “Tudo Tanto”, a sofisticação e o pop de “De Graça” não elimina o interesse da faixa por texturas, ruídos e ambientações, por exemplo. Nana, em “Pequenas Margaridas“, é outra adepta do fofopop que soube utilizar bem esses elementos sonoros dentro de uma composição abertamente pop. E há ainda em “De Graça” a sanfona, maior trunfo musical de Jeneci, que a usa sem preconceito ou afetação. Quando o sanfoneiro em Jeneci surge, faz de longe o melhor momento da faixa.

Por fim, há muito comentário de que a faixa traria grande influência de Caetano Veloso, talvez pelo uso dos timbres, mas a audição cuidadosa mostra como Jeneci se espelha e se mostra discípulo do atual momento de Arnaldo Antunes, especialmente na composição lúcida ao mesmo tempo que lúdica. Em resumo, Jeneci em “De Graça” parece Caetano, mas é Arnaldo.