Carlos Henrique Latuff de Sousa, diz a Wikipedia, é um cartunista e ativista político brasileiro. Certa vez, conceituou “charge”. Segundo Latuff, a charge:

☛ Tem muito foco;
☛ Normalmente é sintética;
☛ Pode ser abrangente;
☛ Mas também pode ser pontual;
☛ Tem a capacidade de síntese e de expressar uma ideia que com palavras seria complexa ou seria muito prolixa e rebuscada.

chinelosNão tão grosseiro como são os traços e interpretações artísticas de Latuff é entender que a explicação acima também serve para a música pop. Em termos gerais, a música pop é uma charge que distorce propositalmente uma situação real permitindo titularidade a um subtexto em relação às linhas gerais. Assim, tivemos a pelve de Elvis, os cabelos dos Beatles e o pop continua tendo exemplos gigantes de texto e subtexto até hoje – do negro adotado abobado e rico Kanye West à Valesca Popozuda, ídola gay e já considerada próxima dos ideais feministas. É bem possível que Pharrell explique música pop tão bem quanto Latuff explica charge (e, quem sabe, Romero Brito não explique tão bem o processo de colorir!). No entanto, o cantor, o cartunista e o artista plástico estão mais ligados não somente pela óbvia falta de habilidade de exprimir o nítido, mas também pela não destreza em nos aproximar pelos questionamentos intrínsecos da arte — e, creia, eles estão lá, sempre estarão; mesmo na obra mais ingênua.

Mas, calma, vamos falar do disco.

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“G I R L” é o grande primeiro álbum de Pharrell após ter divido os méritos de “Get Lucky” com o Daft Punk. O sucesso foi radiofônico e mundial. Toca ainda em academias, no barzinho da esquina. Antes de “Get Lucky”, Pharrell já era considerado inofensivo pela crítica após tentar, sem sucesso, compôr peças pops liderando o trio N.E.R.D.. Saiu-se melhor como produtor: ganhou um bom dinheiro no início da primeira década produzindo sucessos que saiam do estúdio direto para a MTV. Além disso, virou figurinha carimbada depois da palavra “featuring”. Não foram poucos os hits de Fulano feat. Pharrell.

O real primeiro álbum, “In My Mind”, de 2006, passou incólume. Ninguém viu, ninguém ouviu. Quem percebeu não gostou ou achou tão raso quanto os trabalhos anteriores. Portanto, se alguém hoje procura ouvir “G I R L”, a culpa quase integral é de “Get Lucky”. Foi com ela que Pharrell cravou seu nome sete vezes nas indicações do Grammy 2014 (e levou pra casa o prêmio de produtor de música não-clássica do ano).

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Em linhas gerais, “G I R L” é um trabalho que traz faixas que pararam no tempo de N.E.R.D. (“Gush” e o pouco inspirado tema jamaicano “Know Who You Are”), outras que parecem sobras da época em que o produtor dava asas às vontades artísticas de Justin Timberlake (“Gust of Wind”, “Lost Queen” e “Marilyn Monroe”, faixa que abre o álbum). Em “Hunter”, temos o único rascunho inspirado de “G I R L”. Em “Happy”, uma Janelle Monaé que acaricia o Louro José enquanto conversa matinalmente com Ana Maria Braga.

Ao vivo, pharrell é pouco destro. Nas letras, pouco inspirado. Sagaz tecnicamente como produtor. Claro, ele é também norte-americano. E a gente sabe como funciona essa roda do entretenimento que nos invade. Por isso, Ezra Eliott escreve de forma pessimista: “Como que alguém pode se abater após ouvir um álbum que repete a palavra “feliz” quase uma centena de vezes?”. O questionamento que desembocará em uma aproximação do cantor com o neoliberalismo feita por Eliott ilumina todo o subtexto que temos (ou, melhor, sua ausência) em Pharrell.

Coincidência ou não, o diálogo com “Get Lucky” é quase inexistente. Quando é feito em “Brand New” é de forma paupérrima. A guitarra ali é alguma-coisa-ABC-Jackson5 e não uma série de colagens sem rosto (e de expressão assustadoramente viva!) que compõe toda “Get Lucky”. Esse amontoado confuso e ainda assim transparente (e vivo!) é o que fez de Elvis, Led Zeppelin e Daft Punk serem ícones pop. Pharrell tenta (à força) entrar em um hall para o qual seu talento natural não recebe convite. Contudo, o astro é apenas a parte mais aparente de um iceberg da música pop atual. Lady Gaga, por exemplo, não causa o impacto de cinco anos atrás. E não vai ser surpreendente se Beyoncé entrar, de repente, para essa calçada (quase sarjeta) da fama.

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“Até meu filho faz isso” foi o que provavelmente disseram as mães de vários cartunistas, DJs, cantores e artistas plásticos. No entanto, Laerte é muito mais do que um homem que gosta de se vestir de mulher, Daft Punk bem mais que uns caras fantasiados que fazem techno, Elvis bem mais do que um branquelo que roubou os artistas negros e Andy Warhol talvez seja mesmo um lixeiro do inconsciente — e, talvez, seja esse o seu grande papel. E é por isso mesmo que, no aeroporto (ou em qualquer outro lugar feito para mortais passarem rápido), teremos algo bizarramente colorido e recortado de Romero Britto, camisetas Abercrombie e ouvir-se-á a música que Pharrell e os Estados Unidos ajudam a constituir. Se um avião cair, rola até charge do Latuff.

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PS: em tempo, o Pedro Villas Boas fez uma análise asemiótica de uma charge recente de Carlos Latuff:

PS²: a obra que ilustra este post é montagem com o uso deste original e deste Pharrell estilizado.

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