Mais povo, por favor: Luciano Huck, o artista descolado e a meia-entrada

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Foi patético ver Luciano Huck falando asneiras para um superfaturado Maracanã de calçadas manchadas de spray de pimenta usado pela Polícia Militar do Rio para desnecessariamente conter manifestantes (entre eles crianças de escolas públicas do entorno). Mas é também patético ver os atores Beatriz Segall e Odilon Wagner e Pedro Henrique Santos, da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), discutindo o projeto de lei que limita a 40% o total de ingresso para meia-entrada em eventos culturais e esportivos (ainda precisa de aprovação no Senado, no entanto). E igualmente patético é ver artistas sem alguma contudência em relação a todos esses assuntos. E, sim, há uma relação entre estas três pontas.

 

Vamos à meia-entrada: a patetice geral que ronda o tema (o que acontece em 90% dos assuntos que, no Brasil, mexem com o bolso de quem acha que coordena a economia cultural do país) está imbutido nas falas de Segall, Wagner e Pedro Henrique por meio de reflexos de um país que até hoje se atrapalha ao falar de dinheiro, bolsa-cultura, empresários, público e outras palavras-chaves antes de falar na tag maior desse assunto: educação. A mesma educação (ou falta dela) que nos permite discutir meia-entrada sem nunca querer saber porque uma pessoa sem relações estritas com arte não vai mais aos pontos de cultura. A mesma educação que permitiu que o príncipe Luciano Huck ficasse na TV até hoje. A mesmíssima educação que permite a um fã de qualquer artista da música independente brasileira ignorar o rádio, os artistas do rádio. Eu acho que você ainda não entendeu muito bem a relação entre os tópicos.

Voltando à meia-entrada: quem vai ser beneficiado caso seja aprovada a nova lei? Há múltiplas respostas; no entanto, em nenhuma delas estará quem deveria estar: quem não mais frequenta casa de shows, teatros, cinemas, estádios. Mas estarão nessas respostas:

1) o empresário
2) o artista

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O empresário brasileiro que discute esse assunto não merece muito espaço. Eu prefiro falar do artista. O artista do teatro pequeno, singelo e descolado que se considera mais ator do que outro artista de um meio mais massivo de comunicação; o artista barbudinho da música independente brasileira que odeia música popular, que não escuta rádio; o jornalista que também se acha artista e que não sabe, em momento algum, eliminar hierarquias culturais hiper ultrapassadas e extraem bem pouco do papel político que um artista deve ter num contexto como esse (e inclusive como se posicionar). Na maioria dos casos, artistas que se orgulham de vir de uma classe média baixa para não caber em uma carapuça que se aplica normalmente a uma classe médita tradicional e apática politicamente. Mas, no fim, é o mesmo balaio. E outra: como irão tocar no rádio se não entendem o rádio? Como irão fazer uma tevê de maior qualidade se cagam e andam para o que consideram baixa cultura? Será que você ainda está perguntando o que isso tem a ver com a baixa frequência nos seus espetáculos?

Esse ponto é importante porque está atrelado à significância que damos à cultura no país atualmente. Artigo de luxo, acessório de moda apenas um tanto acessível. E esse tratamento é tão esdrúxulo que ofusca a palavra cultura de situações que são bem mais interessantes do que as noticiadas nos cadernos culturais dessa classe média. Talvez, um fã de baile funk frequente bem mais do que 30 concertos do gênero por ano. Bem mais do que nossos amigos de faculdade e trabalho dedicam à atividade semelhante. No entanto, a apropriação que fazemos desse tipo de possibilidade nos permite que chamemos isso de diversão. Nunca de cultura.

(Assim, para muitos, a cultura não está nas escolas. O professor não sabe ouvir um hit do MC Rodolfinho vindo direto do celular do aluno e entender como aquilo é a tábua de salvação. Esse professor passa cinco horas por dia com o aluno em questão. Você acha mesmo que o empresário que fracassa ao trazer a Lady Gaga para o país está querendo saber o porquê há de ser tão bom ser vida loka?)

47988_408083192632883_1965353971_nLimitar a meia-entrada, fiscalizar a meia-entrada, criar dispositivos para a meia-entrada: pra quê? Os beneficiados serão os mesmos. O que mudará se o preço dos ingressos diminuirem ou continuarem o mesmo? Não há Augusto Boal para encenar no meio de um complexo penitenciário uma peça que leva política (e ação) a quem está na prisão por ter nascido longe da política. O que há são empresários que precisaram fazer saldão de ingressos para que popstars americanos não cantassem para meia dúzia de adolescentes em um estádio de São Paulo. Em momento algum discute-se quão eficaz ou não são as logísticas desses grandes shows (apenas há o fracasso, aqui). Em momento algum se esclarece que a maiora das pequenas casas de shows operam por sistema de consumação que dispensa a carteira de estudante (apenas há o fracasso, aqui). Em momento algum, procura-se saber que povo é esse que não vai ao espetáculos culturais e esportivos — eventos cada vez mais elitistas no país. Como uma peça de teatro é tratada por agentes jornalísticos e artísticos em um meio de comunicação como a TV senão de modo elitista até hoje? Como a agenda de discussões culturais do jornalismo brasileiro é empobrecida a cada novo e interessante agente criador que surge em meio a um cenário desolador de grandes veículos desnorteados e viciados? Por que pessoas administram sem desespero um ano inteiro (às vezes dois) sem pisar em uma casa de shows, em um cinema? Essas perguntas não serão respondidas com 40% de porcentagem mínima para a venda de ingressos a meio preço.

Foi ridículo assistir Luciano Huck sendo o host (e, no final das contas, sendo o Luciano Huck de sempre) do evento-teste do novo Maracanã. Foi, claro que foi. Foi ridículo ver Eduardo Dusek, Sandra de Sá, Martinho da Vila, Fernanda Abreu, Naldo e Preta Gil em constrangedores playbacks de músicas populares brasileiras. Foi, claro que foi.

 

Untitled-1Mas, durante o ano todo, uma cena musical de São Paulo, por exemplo, vive como ratos à procura de um mínimo sinal de palco – os artistas da maior cidade da América do Sul agradecem dia e noite pela existência do sistema Sesc que é o único palco para muitos artistas de SP (e do resto do país). No Rio de Janeiro, a situação é a mesma. Eu não vejo diferença da elite global para a elite paulista, para a elite carioca. O que eu vejo são pessoas que, isoladas, podem ser muito contundentes em suas expressões artísticas e, às vezes, até fora delas. Mas que até hoje não conseguiram se opor à lógica mór e, em muitas situações, não conseguem perceber que estão jogando no mesmo time de quem se adora odiar. Há artista frustrado até hoje porque não toca em rádio; porque não está nas paredes das casas (e sim lá está um Romero Britto); porque não tem um milhão de visualizações no You Tube.

A resposta está na cultura consumida por quem hoje é excluída das discussões sobre… cultura. Não à toa, o hip-hop, o funk carioca (e sua vertente paulista) e outros gêneros tão característicos como o forró eletrônico e o tecnobrega, por exemplo, por serem mais intuitivos na busca por soluções acabaram desenvolvendo estratégias que são hoje canais permanentes de lucro e divulgação. Nenhum deles toca em Sesc algum e, em muitos casos, nem em rádio. Mas se você for à rua, eles estão nos porta-malas, nos alto-falantes. Eles estão na rua porque eles nasceram na rua e, assim, fazem a política de quem está nas ruas.

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Enquanto isso, os patinadores da classe artistica intelectual batem continência com discursos inflamados porém esvaziados de ideais de como vão ter voz ativa. Ao se depararem com a não propagação de suas ideias, voltam aos seus circuitos, a suas vidas, as suas composições, aos seus espetáculos. Talvez, seus discos sejam prensados, seus shows contratados e suas músicas gravadas pela mesma lógica que sustenta o empresário que não está nem aí pra esse troço chamado cultura. O mar é o mesmo. Ainda que alguns se debatam, a maré segue com os peixes no mesmo fluxo.

A Odilon Wagner, Beatriz Segall e todos os artistas do país que discutem com afinco a questão da meia-entrada, eu apenas desejo que se olhe com menos sindicalismo os tópicos dessa questão. Aos que não discutem, que continuem miseráveis e reclamando em fanzine que ser artista no Brasil não é fácil.

Luciano Huck, o artista independente e a  meia-entrada. O que há em comum? A necessidade de saber quem é mesmo esse povo. O povo que sabe que a limitação à meia-entrada não fará o preço do espetáculo baixar porque, antes de tudo, por que ir ao espetáculo?

 Primeiro o povo, depois o amor (porque amor sem voz alguma é apenas cartaz).