Entrevista: Jeneci

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Três anos após “Feito Pra Acabar”, Marcelo Jeneci lança seu segundo álbum sabendo se equilibrar entre o otimismo e a frustração.

Cito Tulipa Ruiz. Cito Criolo. Seguem nomes como José Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes, Erasmo Carlos. Falar* com Marcelo Jeneci é encontrar um bonde sem freio da música pop brasileira. Wisnik o chamava de “Robinho”, Erasmo o leva como um grande novo irmão, Antunes deu-lhe os caminhos da crônica.

Ele se coloca ao lado de Tulipa, encaixa-se no mundo pop, encara outra dupla do pop contemporâneo, Emicida e Criolo “Eu apareci com a Tulipa representando uma outra fatia desse lugar paulistano da música”, analisa. Como faz em “De Graça”, seu segundo álbum, Marcelo Jeneci denuncia-se. Diz-se otimista, músico por causa da frustração de seu pai Manoel, acolhido por tutores, namorado em dívida com a cônjuge e parceira musical e, principalmente, consciente do seu papel como um dos ícones da música pop brasileira.

Fita Bruta: Marcelo, você vai iniciar uma turnê nova, mas tanto o “De Graça” quanto o “Feito Pra Acabar” possuem arranjos complexos, muitas das vezes orquestrados. Como é que o público vai receber essa transposição do CD para o palco?
Jeneci: Dessa vez, vai ser um processo menos desconhecido porque já passamos por isso no “Feito Pra Acabar”. E a melhor coisa foi quando a gente abriu mão de ter a orquestra ao vivo e reduzimos tudo para uma banda de seis músicos que adapta as melodias e acaba as deixando ainda mais forte como estética. É uma diversão pra mim. Aliás, eu não acho que o show deva ser igual ao disco. E é por esse caminho que a gente vai trilhar.

FB: Como você tem encarado a recepção do público com o novo trabalho? No YouTube tem muitas pessoas comentando que estavam ainda se acostumando com uma suposta nova sonoridade da música que dá nome ao álbum (e que foi lançada antes).
Jeneci: Pô, Yuri, tá sendo muito legal. Eu sempre gostei muito das pessoas que comentam no YouTube. Qualquer coisa, não só sobre meu trabalho. Adoro os comentários. De vez em quando, acho pessoas geniais lá. Tenho recebido muitos retornos positivos, tô adorando ver o disco sendo compartilhado! Era isso que eu tava precisando. Depois de se fazer um disco, é este [vê-lo sendo compartilhado] o próximo passo.

FB: Em dezembro, você vai dividir um festival com Os Paralamas do Sucesso…
Jeneci: [Interrompe, empolgado] Acho que o Paralamas vai ser o melhor show do dia! Foi muito aquela banda da minha juventude, muito importante pra gente. É uma das bandas únicas que conseguem uma carreira íntegra e bem sucedida, disposta também a balançar 100 mil pessoas de uma só vez.

No primeiro disco, eu tinha uma expectativa maior. Esperava que as pessoas iam dar importância para uma síntese de música elaborada com música popular. E aí, aprendi que a expectativa é a mãe da frustração.

FB: Bom, e o Criolo também…
Jeneci: Eu acho que ele chegou com o Emicida representando muito bem a necessidade de dar voz à música da periferia paulistana. Acho do caralho, sou fã, acho um artista incrível. Vai ser muito bom encontrá-lo de novo, admiro-o muito. Antes de ele aparecer com o Emicida, eu apareci com a Tulipa representando uma outra fatia desse lugar paulistano da música. Acho legal estar no mesmo palco que ele, que a minha música esteja no mesmo festival que ele porque a música, justamente, une.

FB: Aliás, nunca foi tão claro a capacidade de diferentes assinaturas musicais no mesmo momento e mercado como tem sido agora em relação a São Paulo, né? Curumin, a turma do Passo Torto e Metá Metá, radicados como Karina Buhr…
Jeneci: É engraçado, né? Uma mesma São Paulo produzir músicas tão diferentes, né? Apesar de eu não fazer uma música planfetária como o hip-hop ou o rap, venho também da perifieria de São Paulo. E eu acho a cidade uma fábrica de nichos e linguagens diferentes. Então tudo a ver tocarmos no mesmo dia. São Paulo tem esse lance de hospedar muita gente de fora e até de cidades que parecem outras cidades de tão longe, como Guaianases, de onde eu venho. Acho muito legal essa riqueza e o encontro desses dois shows no mesmo dia revela pra mim um paralelo entre eu que sou de Guaianases e ele que é do Grajaú.

FB: O Criolo conseguiu criar um elo muito forte com o Grajaú para quem nunca esteve lá. A música dele transparece o quanto ele é grato pelas oportunidades que recebeu. Ele sempre frisa que os parceiros musicais mudaram a vida dele. A música te salvou também?
Jeneci: Com certeza, cara! A música me salvou com todas as letras e melodias que existem nela. Com certeza, cara. É engraçado pois é um chamado que a gente sente, ouve. De alguma maneira inexplicável, a gente coloca a nossa vida a favor e a serviço daquilo – cada um com a sua linguagem e com a história que a família e os ancestrais e a própria vida trazem. Eu acho muito bonito quando a gente se despe da memória RAM atual e se liga nas coisas que tem mais a ver com o nosso HD de 300 terabytes que é o nosso inconsciente. Então, a música te leva pra esse lugar. É uma honra participar disso com tanta gente verdadeira. E, no fundo, é o que faz a diferença.

Eu me fodi muito. Tenho dito que esse disco me fez um bem horrível. Porque foi muito difícil fazer, tem muita camada, muito sofrimento, muita densidade. É um segundo disco, é uma nova fase de vida, cheguei aos 31 anos, sofrimentos, experiências.

FB: Bom, sobre o novo disco, tenho outra pergunta mais pessoal para lhe fazer. Você é um cara otimista? Sua música diz que sim.
Jeneci: Muito! Me considero sim. Eu acho que a graça da vida é dar risada da própria desgraça. A vida, ela vive tirando e cabe a gente colocar outras coisas no lugar. Ou transformar este lugar em um lugar menos abismal do que uma depressão que fazem com que a gente dramatize ainda mais o que já é um drama. Acho que é bacana chamar a vida pra ser o nosso par. O sentimento da solitude, o chorar sozinho, o se virar e poder contar com os amigos é do caralho. É a nossa graça. Senão a gente morre e não saca qual é a da parada. Os meus pais são muito de dar risada. Muito risonhos. Fui criado em um berço que a base era essa, sabe? Bola pra frente, positivar as coisas. É extraordinário viver tendo ou não tendo. E é isso que me foi introjetado no berço. Sou muito otimista.

FB: Foi sempre assim na família?
Jeneci: Sempre teve esse clima alegre. Meus pais são jovens e muito legais. É um clima muito amoroso. É daí que vem as coisas que eu faço hoje em dia. Depois, por conta própria, acabei buscando coisas que meus pais não tiveram condições de me ensinar. Chega a um ponto que é isso: eu estou aqui na sala da minha casa e tem um quadro do Erasmo [Carlos, e o quadro é um pôster de uma série de shows que Jeneci dividiu com o cantor] em que ele diz assim: “Amigo é o irmão que a gente escolhe. Jeneci é meu amigo”. Não quero falar de mim, mas quero dizer o seguinte: uma coisa é o irmão biológico e outra coisa é o irmão da vida, seu melhor amigo que não nasceu dos seus pais. E é assim com todas as coisas da vida. Temos a família em casa e a família da rua. O lance é aprender nas duas. Só que essa primeira fase, dos pais, é muito importante. Faz toda a diferença ter um pai e uma mãe muito capazes e amorosos e afetusosos. Isso ajuda muito a gente. Acho que tem que se jogar pra se limpar depois. Tem que ter cuidado, mas não é só cuidado. Ficar se preservando não rola. Tem que ir e foda-se. Quando a gente se liga nisso, muita coisa chega.

FB: Ainda sobre o poder da música na nossa vida, me parece que isso também liga você a seu pai. [O pai de Jeneci era um curioso tecnológico e consertava todo o tipo de aparelho. De televisão à sanfona do Dominguinhos]
Jeneci: Eu sou músico, primeiramente, por uma vontade dele. Ele tinha um ritmo de vida que impediu que ele fosse músico, não conseguiu. Mas permaneceu o sonho de ter sido músico e aquilo permaneceu comigo. A gente sempre é a continuação de algo que vem antes da gente. Seja o pai ou qualquer outra figura que a gente se identifique. Ora se opondo, ora dando continuidade. Então eu tento ver a vida por esse viés. Minha memória RAM só é capaz de definir se eu vou pra direita ou pra esquerda. Mas quem manda é o inconsciente. São todas essas coisas que a gente não tem capacidade de enxergar a toda hora e a precisamos notar sempre que possível.

Acho que é bacana chamar a vida pra ser o nosso par. O sentimento da solitude, o chorar sozinho, o se virar e poder contar com os amigos é do caralho.

FB: Você se percebe tão claramente como eu percebo uma continuação da linguagem do José Miguel Wisnik?
Jeneci: É muito claro. Eu sou muito, muito, muito apaixonado pelo Arnaldo, pelo Zé [Miguel Wisnik], pelo Luiz Tatit, pelo Zé Tatit. Amo. São meus amigos. Quando eu sai debaixo do teto dos meus pais e ganhei esse teto sem fim que é o céu, eu precisei ir atrás de tutores que me ajudassem de algum modo. Porque, precocemente, a música me jogava em lugares que eu nunca imaginei que poderia frequentar. Foi como um arremesso, minha vida mudou da água pro vinho, entende? Como a do Criolo também. Não é muito diferente. A única coisa é que eu não falo tanto sobre isso e a música que eu faço não chama muita atenção para esse lance das classes sociais. Chama atenção para outras coisas. Não que isso seja menor ou maior; simplesmente diferente. Então, quando eu saí da casa dos meus pais, houve uma violência muito grande bem parecida com a dele que é um exemplo muito mais claro, focado nesse assunto. E aí, obviamente, precisei me aproximar de pessoas que me davam alguma segurança de crescimento, de continuidade, de aprendizado. E foi aproveitando as chances da vida que eu me liguei nesses caras. Inclusive o Sawmi Jr., que é um músico importantíssimo brasileiro, diretor musical da Omara Portuondo, toca violão de sete cordas, tem uma carreira lindíssima e é um grande amigo também. E eu fui atrás desses caras. São eles que dão as cartas agora. É impressionante como eles estão dizendo coisas importantes. Taí pra quem estiver atento. E aí foi muito massa chegar perto dele. E me identifico muito com a imensidão que cada um deles carrega.

FB: Você se recorda a primeira vez que conheceu o Wisnik? Insisto nisso porque esse teu novo álbum é ainda mais claro na inspiração que ele te exerce.
Jeneci: Lembro. Eu tinha 19 anos. Fui convidado pra tocar naquele disco “Do Cóccix Até O Pescoço” [disco de Elza Soares, de 2003] e eu não o conhecia. Quem me convidou foi o Alê Siqueira, produtor do álbum, e aí eu conheci o Wisnik. E ele foi muito atencioso com o fato de eu ter apenas 19 anos e tal. E aí [risos], ele que entende bastante de futebol ficava me chamando de um caso como… er… como ele falava? Peraí, deixa eu lembrar agora… Tinha o Diego do Santos… Quem era o outro?

FB: Robinho?
Jeneci: Isso, Robinho. Ele falava “Robinho”, me apresentava assim pra todo mundo. Era engraçado. Então, a partir disso, ele muito atencioso, foi me chamando pra fazer parte dos projetos dele, foi me ensinando muita coisa e é daí, da minha vivência com o Zé Miguel, que vem o meu chamado pra canção. É daí.

FB: Mas você assumiria o rótulo de “sucessor”?
Jeneci: Ah, então, Yuri… Sinceramente, por meio da música que eu faço, quase ninguém exceto você e outras poucas pessoas vão se ligar nessa ponte. Tava tendo esse papo inclusive com o Zé. Mas como somos pessoas diferentes, elas saem com estética e resultados diferentes. O Zé é a pessoa mais fantástica que eu conheço. Muito foda. Tanto é que eu não me sinto nenhum sucessor dele. Eu fico atento a tudo o que ele diz e o trato como um amigo da mesma idade. Não faço nenhuma reverência. Mando se foder, fico jogando bola junto. E acho que ele gosta disso [gargalha]. Não tem essa coisa “Ai, o Zé”. A gente foi aproximando e ficou uma coisa de bróder mesmo. Ele é muito jovem e acaba permitindo esse tipo de encontro. Não me sinto um sucessor, me sinto um amigo. A gente dialoga, ele me mostra o que faz, eu mostro o que eu faço, a gente conta um com o outro. Mas longe de me sentir um sucessor porque a imensidão que esse cara carrega eu não conheco em mais ninguém e não tenho a menor capacidade de me colocar nessa posição. Tenho, sim, capacidade de juntar a assinatura e o filtro que me foi dado pelo lugar onde eu nasci, pela vida que criei que tá muito mais ligado à sedução da música pop, das melodias fáceis de assobiar, da beleza. Mas dessas camadas [do Wisnik]… quem sabe um dia.

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FB: Me perdoe a ignorância. Quem é Isabel Lenza?
Jeneci: É… minha namorada [risos].

FB: São seis músicas com ela, certo?
Jeneci: Certo [ainda rindo].

FB: Mas foi parceria como as que você tem com o Arnaldo Antunes? Meio a meio? Como foi essa experiência?
Jeneci: O quê? [ainda se recuperando dos risos] Ah, foi legal. Na real, o seguinte: eu classifico mais como parceira do que namorada. Inclusive tá aqui minha chance de eu fazer diferente. Tenho dito que é “minha amiga / namorada” e, obviamente, isso soa estranho. Pra ela, inclusive.

FB: Vamos mudar isso.
Jeneci: É! Ela ficou puta! Ela postou “no meio do caminho tinha uma barra, tinha uma barra no meio do caminho” no Facebook. Achei do caralho, aliás. Mas, enfim, é uma mulher incrível. Diretora de conteúdo, trabalha com vídeo e nunca tinha mexido com música. E ela filmou o projeto todo do “De Graça”. Tudo. E é um disco muito complexo de produção. Deu muito trabalho. Eu me fodi muito, Yuri. Tenho dito que esse disco me fez um bem horrível. Porque foi muito difícil fazer, tem muita camada, muito sofrimento, muita densidade. É um segundo disco, é uma nova fase de vida, cheguei aos 31 anos, sofrimentos, experiências. Enfim, foi um disco muito intenso porque eu queria fotografar nele esse período. E fiz. E ela, muito parceira, amiga, esteve muito presente filmando e, nisso, a gente acabou fazendo as músicas. É um período como amiga, como namorada. Então prefiro falar que foi uma parceira.

FB: Então vou grafar como parceira para a sua situação ficar tranquila.
Jeneci: [risos] É uma parceira que faz toda a diferença nesse disco. Não só nas canções, mas também no resultado estético. Nesse disco, tem duas letras que são só minhas: “O melhor da vida” e “Tudo bem, tanto faz”. O resto, todas, são nossas. E aí, muito embasado na minha vontade de dar conta das letras sem meus grandes parceiros. Então mesmo tendo feito as seis músicas com ela, ela está ali como interlocutora, apontando detalhes, erros, acertos. Opinando mesmo, ajudando a fazer. Parceira em todos os sentidos.

FB: Em algum momento, você se percebeu frustrado com o fato de “Feito Pra Acabar”, seu primeiro disco, não ter alcançado todo o sucesso e repercussão para os quais ele parecia ter nascido pronto? Era um disco muito acessível.
Jeneci: Não, não tenho. Na real, o que eu tenho é: no primeiro disco, eu tinha uma expectativa maior. Esperava que as pessoas iam dar importância para uma síntese de música elaborada com música popular. E aí, aprendi que a expectativa é a mãe da frustração. Não que eu tenha ficado frustrado, mas este disco tem um encontro muito mais importante de mim comigo mesmo. E isso muda a importância que a gente dá para a opinião do outro. O que eu busco é a fazer uma música que fale para mais gente. Tava até falando pro Erasmo, durante a gravação do disco dele, “quando eu faço música, eu penso que, desde o primeiro acorde, que eu melhore a vida das pessoas”. E como eu cresci bebendo nessa fonte de entretenimento que chegou à periferia nos anos 80, esse filtro foi nascendo em mim, essa linguagem, essa assinatura, sei lá. Mas eu acho que tá tudo legal. Acho que, aos poucos, conforme vai ficando mais sólida a minha obra, mais espaço vai ter. Estou menos ansioso do que estive no primeiro disco. Estou um pouco mais seguro.

FB: Há um apelo comercial muito forte em “Feito Pra Acabar”.
Jeneci: E nesse também. Pode ser legal a gente se falar daqui a dois anos porque eu tenho certeza que algumas músicas vão tocar bastante.

FB: Quais?
Jeneci: “Temporal”, “O Melhor Da Vida” e “Pra Gente Se Desprender”.

FB: Arthur Verocai, a exemplo do que fez no álbum anterior, conduz a orquestração de algumas músicas. Porém, neste, temos agora também Eumir Deodato.
Jeneci: Sensacional, né? Um cara desse no seu disco. Até hoje não entendi direito. Mas foi natural. Eu sempre tive um pouco dessa admiração pelas músicas que, além da canção, exploram momentos mais melódicos. E quando isso acontece com orquestras junto à banda, tem a ver até com a música progressiva, né? E com a música barroca também. E isso me leva para um lugar muito familiar que é o lance da música e do cinema. Essas janelas panorâmicas que se abrem no meio das canções. Então, no primeiro disco já tinhamos essa necessidade, o que acabou permanecendo no segundo. E o Eumir sempre foi tão importante quanto distante pra mim. Mas o Kassin, recentemente, tinha feito um projeto com ele e tava com o contato. A gente deu o papo nele, ele se amarrou e acabou fazendo. Foi meio, tipo, “ah, vamos perguntar, ver se o cara topa”. E ele topou, foi muito gentil. Fez arranjos incríveis, lindos. Toda vez que eu ouço fico impressionado e sou muito grato a ele. Acho um cara foda. E eu não me dei conta ainda, estou sob efeito anestésico, da realização, de estar no meio do furacão. Mas, talvez, depois eu me impressione mais. Porque realmente foi um presente. Graças à Natura que me patrocinou, me permitindo fazer o disco que eu quis, chamando quem eu quisesse.

O Arnaldo é uma supernova: ao mesmo tempo que ele explode, ele dá luz e voz a quem estiver perto dele. É um agregador.

FB: Você falou da Tulipa e eu acho que vocês dois, junto com o Marcelo Camelo, buscam um cotidiano nas músicas. Você se vê como um cronista?
Jeneci: Pensando em mim, na Tulipa e no Marcelo, acho que vamos atrás de uma mesma coisa, mas o resultado é totalmente diferente. Mas, sim, vamos atrás de um sentimento coletivo, muito honesto. Que traz conforto e, ao mesmo tempo, temos que tensionar porque a vida também incomoda. Então é legal que a música incomode também. Então, acho que vamos atrás dessa mesma coisa. Mas cronista mesmo, eu vejo isso muito mais no Arnaldo Antunes. Mais do que na gente. O Arnaldo é um cara que eu vejo como um cronista. Muito mais do que no que eu faço, no que a Tulipa e o Camelo fazem.

FB: De fato, no novo álbum dele [Arnaldo Antunes] tem uma chamada “Vá Trabalhar” que impressiona de tão simples e boa. Faz você pensar “como eu não pensei nisso?”.
Jeneci: Na música, esse é o nosso cronista. Vou te dizer que eu, ó, me impressiono sempre. Vendo de perto é absurdo. É um absurdo. O Arnaldo é uma supernova: ao mesmo tempo que ele explode, ele dá luz e voz a quem estiver perto dele. É um agregador.

FB: E o Adriano Cintra? Ele até hoje é visto com ressalvas por muita gente. Como é trabalhar com ele? Qual foi a importância dele para “De Graça”?
Jeneci: É uma pessoa adorável. Tô morrendo de saudade dele. Tava agora convidando-o para escutar o disco aqui em casa. Aliás, se quiser vir, cola aí. [risos] Mas é o seguinte: o Adriano foi muito importante no projeto. Ele ficou como co-produtor, ficou até a metade, por causa de outros compromissos. E eu acho que, além do que ele fez efetivamente, a presença dele, por ele ser um cara que carrega uma história ligada à música brasileira e música indie, que teve a repercussão que teve com o CSS… Então, a presença dele trazia essa gestalt da música indie e essa coisa de uma música que tenta ser menos brasileira e mais internacional, sabe? Então a presença dele, mais até efetivamente do que o que ele colocou (e ele colocou algumas coisas como superdub de bateria), ajudou muito nessa busca do dia. Ele é um cara massa. Quando você fala de um questionamento que ele sofre, as história do empresário que robou uma fortuna… Falando sério, a música brasileira não teve nenhum episódio como o do CSS sendo headliner dos principais festivais internacionais. Não teve isso nem com a Nação Zumbi que é, pra mim, até mais importante, sou muito fã dos caras. Do CSS, sou muito fã do Adriano. E acho impressionante a história dele ali, é absurdo o lugar que eles alcançaram naquele período. De lá pra cá, são ecos e manifestações. Seria surpreendente se, diante de tudo isso, ele ficasse super diplomático, leve ou polite. Mas acho muito legal ele aparecer da maneira como ele faz. Acho genial e, daqui a pouco, a gente vai perder ele para algum outro projeto gigantesco.

FB: Você me parecia muito tímido na estreia de “Feito Pra Acabar”. Hoje, parece bem mais tranquilo no palco. Quais inseguranças você precisou superar de um trabalho para o outro?
Jeneci: Eu acho que para quem faz música a grande escola é a estrada. Aprendi muita coisa entre um álbum e o outro. A interatividade da música com o público, a necessidade de fazer uma música ou cantar de um jeito que ocupe um espaço inteiro, fazer a voz chegar mais longe. No “Feito Pra Acabar”, eu tava muito tímido porque eu tava fazendo canções, elas foram ficando famosas nas vozes de outros artistas e, de repente, tomei coragem para gravar meu próprio disco. Mas ali tem muita timidez, muita insegurança. O “De Graça”, não. Quando eu fico muito longe do local de fazer shows, alguma coisa me incomoda. Então a diferença entre um álbum e outro foi que esse lugar [de fazer shows] tem sido muito confortável pra mim.

* Entrevista concedida ao jornalista por meio do Circuito Banco do Brasil no qual o cantor se apresenta em dezembro.