As 50 Melhores Faixas Brasileiras De 2013

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[50-11] [10-01]

10.fabrica-viracaoFábrica
“Viração”

Alguém ajude esses meninos liderados por Emygdio Costa a encontrarem um degrau no espaço-tempo para se sentarem. O Fábrica prova em “Viração” que não é deste momento e está gloriosamente deslocado de seus pares com menos imaginação. De tanto que se arrastam velozes frente à tentativas chatas e opacas para reviver clubes, esquinas, e miltons, a banda faz “Viração” se tornar peça tão única quanto invisível. Uma peça que só vai ser devidamente observada por quem estiver equipado com um mapa de calor para observar a música brasileira deste século. (Yuri de Castro)

09.sp-underground-arnus-nasarSão Paulo Underground
“Arnus Nusar”

Arnus e Nusar são anagramas para o nome de um conhecido músico de jazz vindo de Saturno. Eles estão no título da melhor e mais longa faixa de “Beija Flors Velho e Sujos” como homenagem, mas não há cortesia maior que seu próprio conteúdo: uma construção minuciosa baseada num pesado riff de sintetizador que deixaria o filósofo cósmico honrado. Rob Mazurek é, certamente, um músico profundamente identificado com o legado musical de Sun Ra. Curiosamente, em “Arnus Nusar”, o cornetista escolhe a discrição, deixando a faixa ser dominada pelas intervenções de Guilherme Granado. Mas no fim, sozinho, faz sua reverência. Não há nenhuma palavra de agradecimento, mas o homenageado entende tudo desse tipo de linguagem. No planeta em que estiver, Sun Ra está orgulhoso. (César Márcio)

08.passo-torto-a-cidade-cai-300Passo Torto
“A Cidade Cai”

A visão singular da canção brasileira que o Passo Torto promove na sua viés “elétrico” é tão contundente que ajuda até a ampliar terrenos já arrasados pelo excesso de uso. Há espaço para o uso do termo samba-rock aqui, mas não da maneira tradicional. “A Cidade Cai” está longe de Jorge Ben. Poderia ser por naturalidade: paulistaníssimo, o trio fala e toca para São Paulo. Mas não é. O trio canta como Martinho, da Vila Isabel. E o trio escreve pensando em Chico Buarque. O samba-rock é tão torto que “A Cidade Cai” tem guitarras como as de Lee Ranaldo e Thurston Moore debaixo de uma melodia de samba enredo. Note o uso da palavra “debaixo”, porque mesmo sob uma aparente submissão ao formato, o samba ocupa posição fundamental aqui (e no restante do álbum), incluído ou diluído no rock alternativo de Nova Iorque. Sempre presente e sempre torto. (César Márcio)

07.dorgas-hortencia-100Dorgas
“Hortência”

O carioquês mudou de sotaque em 2013. Ainda no fôlego dos EPs, o álbum de estreia do Dorgas fincou bandeira e fez de Botafogo o epicentro do bloquinho de um bloco que não samba (mas também pode, quem sabe, sambar um dia). “Hortência” é um hino de excomunhão dessa galera com o que se entendia até então como música do Rio de Janeiro. E não poderia ser mais adequado. O escracho nonsense da letra flui a gosto do sintetizador e dos proeminentes riffs de guitarra de Eduardo Verdeja. O sample desencontrado de Marvin Gaye e o insólito refrão ‘eu como sua mãe’ fecham o pacote do hit brasileiro mais absurdo do ano. (Túlio Brasil)

06.apanhador-so-despirocar-300Apanhador Só
“Despirocar”

A Polícia Militar tem que passar longe de “Despirocar”: é puro vandalismo. Uma faixa que parece dedicatória escrita em caligrafia de insônes à catástrofe do mau humor em construção. A voz desesperada de Alexandre Kupinski acompanha o experimentalismo descoordenado da banda, de zumbidos, ecos e pancadas na bateria. Sem dúvida, o grande momento rock (rock!) da música brasileira no ano. (Túlio Brasil)

05.jeneci-de-graca-faixa-300Jeneci
“De Graça”

Jeneci nunca foi do tipo de artista que se gaba, mas alguém poderia perder essa chance? Com dois discos impecáveis, uma lista de parceiros que só cresce e uma meia-dúzia de canções cravadas no cerne do pop brasileiro dos últimos 10 anos, Marcelo bem merece esse momento de descontração e comemoração inconsciente. “A conta é muito fácil / Eu posso comprovar / Já comprovei mais de cem”, brinca com a marra de quem entende exatamente onde está e o que faz. Versada como de costume numa simplicidade que desarma até os mais cabreiros, “De Graça” é o momento em que Jeneci despe sua música em seus elementos mais básicos: a sanfona, a guitarra, o teclado. Música pop imediata feita com rigor de artesão. (Livio Vilela)

04.caca-machado-sim-300Cacá Machado
“Sim” (Part. Elza Soares e Zé Miguel Wisnik)

O disco de estreia de Cacá Machado é um curioso e bem sucedido caso de mistura de tipos e de ideias e “Sim” é daquelas raras primeiras faixas que já valem por um disco todo, quase não importa o que virá depois. Começa com um violão grave, ganha brilho e depois suaviza, para te fisgar antes mesmo do refrão. Sob a batuta de Cacá estão as vozes de Elza Soares e Zé Miguel Wisnik, um dueto tão bom quanto improvável. Ela desfila, enorme, a musa. Ele acompanha com a elegância e a competência habitual de quem sabe humildemente o que fazer. Elza protagoniza, assume o eu-lírico que dá de ombros ao inusitado da vivência amorosa — “eu não tô nem aí” — enquanto Zé, a consciência, o conselheiro, faz a ressalva moral — “sim, tem que ter cuidado”. Um ótimo exemplo da sofisticação proposta pelos eslavosambas de Cacá, que tem no seu entorno um time estelar de músicos, todos eles também autores. “Sim” é um samba na base, é pé no chão, é olhar atento, é respeito, é história, é antropologia, é modernidade e é também alegria e pagode. (Thiago Borges)

03.criolo-duas-de-cinco-300Criolo
“Duas De Cinco”

Além de preparar o terreno para o esperado sucessor de “Nó na orelha”, “Duas de cinco”, o single, embaralha as dúvidas e as impressões deixadas por Criolo. “Duas de cinco”, a faixa, vai na contramão de tudo que se ouviu de inédito desde o disco anterior e que ia na direção de consolidar um outro lugar que se afasta cada vez mais da ortodoxia da fase Criolo Doido/rinha de MCs — movimento que autoriza a desmemória que trata o “Nó na orelha” como a sua estreia. Aqui, Criolo retoma o caminho que parecia ter perdido força quando mostrou tudo que é capaz de fazer em detrimento daquilo que ele faz melhor. Ficam um pouco de lado as facetas cantor e compositor e volta o MC com talento para rimar qualquer coisa em críticas sociais contundentes. Nada extraordiário, não fosse o vasto repertório de referências que faz caber na mesma música Jobim, Drummond, Kinect, Foucault e Rodrigo Campos, ainda que o tema seja o mundo das drogas. É daí que Criolo dá o salto e faz o rap sair do gueto, porque consegue preservar o dialeto das quebradas e dar a ele a autoridade de falar como fala, e com quem fala, toda a tradição da música popular brasileira. Não é simples fazer isso, não é para qualquer um e também não é fácil de explicar o que acontece. Fato é que estão lançados os indícios de que não há comodismo nem linha reta na trajetória do rapper paulistano e que o melhor provavelmente ainda está por vir. (Thiago Borges)

02.mc-marcelly-bigode-grosso-300MC Marcelly
“Bigode Grosso”

Nascido no ainda não “oficialmente pacificado” Complexo do Lins, no Rio de Janeiro, “Bigode Grosso” foi uma sensação para além do funk. A quase piada interna destinada aos traficantes Americano e Brinquedo tornou-se comemoração Brasil afora com os dois dedos em cima dos lábios indicando o nome da canção. O funk carioca continua sustentando a nossa melhor forma de fazer música pop. (Yuri de Castro)

01.emicida-crisantemo-300Emicida
“Crisântemo” (Part. Dona Jacira)

Artifício maior de um gênero que é quase sempre escrito em primeira pessoa, a autobiografia parece algo instintivo para quem já mordeu cachorro por comida. Mesmo assim, “Crisântemo” não deixa de ser assombrosa diante do resto da obra de Emicida e de todo rap nacional. Alheio às expectativas mercadológicas e geracionais, Emicida faz em “Crisântemo” um mergulho num vórtex de uma dor tão íntima que parece minha, sua, nossa. Se fosse só acapella, esta aqui já seria imensa, mas nerd que é, Emicida ainda adorna detalhadamente sua criação. Enquanto a lírica irmana tanto contemporâneos (Rodrigo Campos, Clima, Kiko Dinucci), quanto antepassados (Chico Buarque, Paulinho da Viola), o choro que sai do violão de Luizinho 7 Cordas é o mesmo que escorre na cara do menino. Como se não bastasse, há ainda Dona Jacira, uma rocha no meio do furacão nos lembrando que, sim, é tudo verdade. E dói. (Livio Vilela)

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