Emicida | 9 Círculos

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“Acho que a música faz jus à São Paulo que vemos hoje” foi o que disse Emicida ao lançar a canção criada para a trilha sonora de “Max Payne 3”, que usa uma São Paulo virtual como cenário. Foi Sabotage (assassinado em 2003) quem deu o primeiro passo fornográfico para uma ruptura amigável do gênero no país pós-legado racional. Se os versos do segundo EP de Emicida, intitulado “Doozicabraba e a Revolução Silenciosa”, estavam fazendo uso de esquis nos quais se equilibravam de forma destrambelhada (mas sem cair) em referências pop e clipes de gosto duvidoso, “9 Círculos” é o que mais aproxima o rapper de fazer parte de uma segunda (ainda amigável, lembre-se) quebra de correntes dos geniais achados morais e cívicos que Mano Brown incorporou à música brasileira.

Entre cuícas, agogos, cavaquinhos e beat sangrento, Emicida cria um laço ainda maior de sua obra recente com os versos debutantes no mainstream de “Triunfo”. Os contemporâneos de Emicida ainda não sacaram que, antes de chegar em Neymar (saiba mais), a sua poética é firme quase sempre e suas referências abusadas. Tal como Neymar abraça o mediano Allan Kardec, surgem Projotas e afins da obra de Emicida. Mas esse desdobramento não está e nem é “9 Círculos”. Aqui, é o refrão que se apoia no coro de “anjos”, a raiva que divide a composição em duas, como se fosse possível uma primeira parte dedicada a um observador desolado com São Paulo e uma segunda dedicada à raiva e aos versos de rimas elaboradas em batidas e samples criativos, o que de melhor faz Emicida para o rap.

Dos Tuskegee Airmen¹ a Kenny G², apropriando-se de Renato Russo³, do povo que não deve abrir as pernas como se estivesse dançando can-can aos inimigos do povo, “9 Círculos” lava o ódio embaixo do sereno fazendo gênero expelir o que melhor pode oferecer ao século, ou seja, ponte para criar elaborações de discurso a quem se dirige. Se a música vai chegar em milhões de lares com TV de LCD, três andares, XBOX e Playstation, azar – não da arte, mas de quem acredita, ainda, que é o rap um gênero limitado. É leão demais pro nosso quintal – se continuar assim. Por aqui, já tivemos muitos gatinhos pagando de felino de savana.