Melhores de 2012: Escolha dos Editores

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Ao longo desta semana, vamos publicar nossas primeiras listas de final de ano “para valer”. Passamos quase 1 semana brigando discutindo para chegar nas listas que vamos publicar, mas o resultado reflete melhor as escolhas do Fita Bruta ao longo do ano do que qualquer um de nós, editores, imaginaria.

Veja a programação do especial:

17/12: Escolha dos Editores
18/12: 50 Melhores Faixas Internacionais
19/12: 30 Melhores Álbuns Internacionais
20/12: 50 Melhores Faixas Nacionais
21/12: 30 Melhores Álbuns Nacionais
22/12: Listas Individuais

Hoje, começamos com algumas escolhas pessoais de cada editor que não passaram no corte da lista final. A ideia é simples: cada um de nós poderia escolher para escrever sobre um álbum e uma faixa que não havia entrado nas listas finais.

Clique nos nomes e veja as escolhas:

[César Márcio]
[Livio Vilela]
[Rafael Abreu]
[Túlio Brasil]
[Yuri de Castro]
[Matheus Vinhal]


César Marcio

chris-cohen-overgrownChris Cohen
Overgrown Path

Com anos de serviços associados a bandas como Deerhoof e, principalmente, Ariel Pink’s Haunted Graffitii, o músico Chris Cohen adquiriu certo gosto pela melancolia do pop americano dos anos 70. Com segurança suficiente, Cohen largou o pseudônimo The Curtains e lançou seu primeiro disco registrado com seu verdadeiro nome investindo na arquitetura rebuscada de canção que parece ter sublimado aos últimos minutos de 1979. “Overgrown Path” é herdeiro da tradição de Byrds e Todd Rundgren, e por isso, também de Grizzly Bear e Ariel Pink. Mas, ao contrário dos contemporâneos, Cohen tem preferência pelo bucólico, ainda que o disco soe tão cuidadoso quanto um grandioso “Veckatimest”, por exemplo. Dá para dizer, assim, que “Overgrown Path” é o pequeno grande disco do ano.

congosSun Araw/M. Geddes Gendras/The Congos
Happy Song (Ouça aqui)

A série FRWKWYS tem como objetivo traçar um paralelo entre gerações de músicos. Pegue um artista experiente, junte a um seguidor jovem e veja o que sai desse conflito proposital de gerações. “Icon Give Thank” quase segue essa premissa. Esboçado na Califórnia por Cameron Stallones (Sun Araw), o álbum foi realizado na Jamaica, em viagem conjunta com o produtor M. Gedddes Gendras, com a colaboração da lendária banda The Congos, cuja estreia está em diversas listas de melhores discos de todos os tempos. Acontece que Icon Give Thank é basicamente um disco do Sun Araw. Felizmente, um dos melhores até agora. “Happy Song” é um dos poucos momentos que o aspecto colaboracional realmente aparece. Existia uma pequena chance disso tudo acabar como uma daquelas bestas feras que surgem quando a chamada “world music” se encontra com a eletrônica, mas a produção de M. Geddes Gendras aqui é certeira. Textura eletrônica fragmentada, percussão manual, baixo pesadíssimo e vocal vocativo de qualquer coisa religiosa: um excesso de informação que poderia adquirir uma forma assustadora mas, ao contrário, não tem forma nenhuma. Transcendental, por assim dizer.


Livio Vilela

field-music-plumb-250Field Music
Plumb

Colocando 15 músicas dentro de enxutos 35 minutos, “Plumb” funciona como primeiro experimento do Field Music que deu realmente certo. Mesmo que não dê para achar nenhum conceito comum entre as faixas do álbum, “Plumb” é feito como se tivesse nascido para ser um grande épico como um “Dark Side Of The Moon” ou um “OK Computer”. Só que com tudo feito em miniatura, até a catarse. Assim, “Plumb” nem chega a ser um disco de canções propriamente dito por isso: é um disco de parte de canções, peças minúsculas e ideais que vão se colando umas nas outras até formarem uma figura identificável e quase perfeita. É como um LEGO musical em que cada harmonia, cada refrão é uma peça importante de uma reprodução em miniatura de algo milhões de vezes maior.

taylor-we-are-neverTaylor Swift
We Are Never Ever Getting Back Together (Ouça aqui)

Se era dúvida para alguém de que lado Taylor Swift sempre jogou, “We Are Never Ever Getting Back Together” prova que a loirinha não quer dominar apenas os Estados Unidos, mas todo o pop. Para isso, Taylor recrutou Max Martin, uma espécie de Maquiavel de qualquer aspirante a rainha do pop desde os idos de 1997, que dá um verniz ainda mais radiofônico as melodias grudentas que ela vem aperfeiçoando desde “You Belong With Me”. Sim, a referência sonora aqui é Avril Lavigne (metade “Sk8r Boy”, metade “Girlfriend”), mas Taylor é esperta o suficiente para levar tudo um pouco mais além. “WANEGT” é “You’re So Vain” e “You Outta Know” misturadas à autoconfiança que alguns milhões de discos vendidos lhe dão. Ela não perde tempo chamando Jake, o ex, de convencido e nem lembrando a merda que ele deixou quando foi embora. Taylor simplesmente não quer voltar. Like, ever. Não é qualquer pessoa que pode dizer isso.


Rafael Abreu

takingtripseachotherEach Other
Taking Trips

Difícil pensar neste disco como outra coisa que não um filme de Michael Haneke: uma obra que existe em função de e acreditando piamente na força do mal. No caso de “Taking Trips”, essa fé é traduzida não por um alemão austríaco de 70 anos, mas garotos de banda, jovens diabretes que resolveram inventar um disco de guitarras, basicamente. Simples e deliciosamente retorcido, a psicodelia aqui é o oposto do escapismo – de um imaginário inicialmente idílico-juvenil, o Each Other te leva pros cantos mais escuros e pros lugares mais desconfortáveis. Um disco bom talvez à revelia de quem pode ouvir – vez em quando, esquecemos que o mal existe.


Túlio Brasil

bish-boschScott Walker
Bish Bosch

Scott Walker lançou “Bish Bosch” no limbo do fim do ano. Uma época de lançamento bem ingrata para um álbum tão trangressor. Scott aqui não traz o pop assobiado para Maria Bethânia, nem o sóbrio e triunfante da sequência maravilhosa de “3” e “4”. “Bish Bosch” é um arrombo que 2012 ainda não teve tempo para calcular a gravidade. Experimental e excêntrico, Scott canta e grita no silêncio e abre as portas do mundo com os sons improváveis e inóspitos possíveis para desbocar em anti-canções soturnas. Uma tensão rara que merece mais atenção.

julia holter - ekstasisJulia Holter
Goddness Eyes II (Ouça aqui)

O apuro de Julia Holter em “Goddess Eyes II” sintetiza seus dois álbuns lançados até agora. Tanto “Tragedy” (2011) quanto “Ekstasis” (2012) idealizam um superfície sonora sem atritos. O sintetizador, vocoder, loop, repetidores, etc. criam um fluxo limpo. São diversas camadas, mas poderiam ser uma. Em “Goddess II” os laços atados geram uma levitação mental residente no vai-e-vem dos mesmos timbres e da voz de Julia. Uma imagem impossível, quase dada, mas que é registrada em cheio no proto-refrão “I can see you, but my eyes are not allowed to cry”. Nem tudo o que se vê causa emoção. A canção de Julia, inventa uma fatia imaginária, fora da lógica, que aparece causando maravilhamento.


Yuri de Castro

4180_g5 A Seco
Ao Vivo No Ibirapuera

Você pode até fazer por humor (eu também faço), mas não sejamos ignorantes do método ao custo de algumas gargalhadas. Sacanear os sapatenis que lotam cada show do 5 a Seco é engraçado até certo ponto. E o ponto é não ignorá-los como artistas e que o mérito dos cinco no palco é muito mais do que juntar um tanto de aleatórios na platéia. E, além disso, lembre-se, quem almeja ser popular não consegue homogeneizar (e nem deve). E é aqui que reside a contradição do 5 a Seco: são tão bons em agregar influências que o ouvinte começa a ficar desesperado entre a paixão e a repulsa. Os maldosos podem dizer que é uma releitura insipiente de Lenine, Chico César ou Moska. Eu prefiro enxergar da minha própria experiência com o grupo: ainda não rompam quase nada conquistado pelos seus ídolos, a qualidade de cada um ali é passível de ser uma grande arma para tal. Assim, que “Ao Vivo No Ibirapuera” seja um quadro que não se repita. Há um grande público que já confia o suficiente no grupo como representantes do “bom gosto” juvenil. Nessa sinuca, o 5 poderá ser um grupo marcante se conseguir ganhar dinheiro sem prostituir a sua forma de arte. Ou então, veremos um novo Roupa Nova explorando adultos chatos. Quero acreditar que não vai ser assim.

MC dede 250MC Dede
Role De Hayabusa (Ouça aqui)

O funk ainda mantém rádios no Rio de Janeiro, DJs, MCs, bailes, empresários e, claro, a Nextel. Para contratar qualquer MC, basta ter a ID do aparelho. Mas o jornalismo brasileiro ainda insiste em querer saber do funk com pessoas que não sabem do funk. E muitas vezes nem o próprio MC sabe do funk, resultado direto do conceito imediatista que se desloca do método de produção e passa a infestar todo um contexto que cerca o gênero. Assim, em 2012, se falou de tudo, menos de música. “Funk da ostentação”, “funk do Rio vs. funk de São Paulo” foram algumas das coisas que lemos por aí. No final, o gênero – um dos poucos capaz de divertir uma programação radiofônica – acaba tocando somente nos bailes, nos porta-malas e nos celulares país adentro. Por isso, pouca gente ouviu “Role de Hayabusa”, do MC Dede. A faixa é totalmente diferente das duas pontas do gênero; não se parece com MC Rodolfinho e genéricos, tampouco é apenas zoeira como a carioca “Passinho do Volante”. É quase um dos melhores esforços de equilíbrio no gênero. A temática ainda cansa, no entanto. Mesmo assim, todo mundo ouviu e dançou isso o ano inteiro. Nenhuma rádio e TV tocou. O funk é o gênero mais independente do país.


Matheus Vinhal

rocketRocket Juice And The Moon
Rocket Juice And The Moon

Em um ano em que Damon Albarn trabalhou mais que Jack White e Barack Obama juntos, o disco de estreia do Rocket Juice and the Moon, (super)grupo formado por ele, o baixista Flea e o baterista maior do afrobeat, Tony Allen, é de longe seu maior êxito. Com participações de vários cantores, em sua maioria rappers, Albarn faz como ninguém a ponte entre dezenas de gêneros, tantos que seria até ridículo tentar mencioná-los. Sem dúvida se trata de um disco longo, pois se propõe uma verdadeira viagem musical, e talvez isso coloque muitos ouvintes em posição de defesa. Mas a viagem não se mostra de modo algum vazia ou inútil e chegamos ao fim desse disco de outro modo, de certa maneira mudados pela capacidade impressionante de Albarn e companhia de formar outros mundos a partir daquilo que teoricamente já conhecíamos.

Dirty-projectors-swing-lo-magellanDirty Projectors
Irresponsible Tune (Ouça aqui)

Em pouco menos de 3 minutos, David Longstreth nos lembra o que é primordial, importante e essencial naquilo que chamamos por “música”. Com melodia simples, letra direta e arranjos primários, tudo nessa canção soa como deveria: singelo e franco, como o canto de um pássaro. Em “Irresponsible Tune”, Longstreth ultrapassa e transcende toda a música pop atual, eivada do que é fútil e banal; supera o hype, a fama, o fracasso, o sucesso e até mesmo o acaso. O Dirty Projectors, como que inspirados por Lennon, criam a canção mais poderosa e possível em 2012, em que mostram em poesia clara e crua a revolta, a solidão, a monotonia, o fastio e a ruína daquele que faz música. Longstreth olha para si e vê música, olha para o mundo e vê desgraça, se questiona, com sua música, se tal desgraça um dia virá a acabar. E percebe enfim e então o pássaro na janela, que nunca chegou, nunca partiu, a música que não vem de dentro de si, a música que vem do outro, de fora, e o pássaro lhe dá a resposta.