Talvez o principal problema com todas as bandas que tem aparecido com a tag “revival anos 90” tenha sido, para mim, o fato de nenhuma ter encarnado totalmente o sentimento da época e ficado só numa exibição de velhos truques para trintões saudosistas. Quer dizer, há coisas interessantes no Yuck, no Cage The Elephant e no casal de ouro Wavves e Best Coast – as guitarras, a produção, todo o look-and-feel parece esteticamente ok – mas, em um certo ponto, sempre me perguntava se não faltava alguém sofrendo, realmente se dilacerando do outro lado do fone. Então, ouvi esse “Attack On Memory”.

Cloud Nothings teve uma daquelas trajetórias bastante comuns para essa virada de década. Começou em 2009 como uma banda-de-um-homem-só (Dylan Baldi) que começou a ganhar algum reconhecimento com o material gravado no próprio quarto e distribuído de graça na internet. Alguns shows, abrindo para bandas como Real State e Woods, fizeram Baldi arranjar uma banda completa e largar a faculdade. O contrato com um selo mediano (Carpark) veio em seguida, acompanhado de um e EP (“Turning On”, lançado em outubro de 2010). 6 meses depois, o primeiro e epônimo álbum tomaria as ruas.

“Cloud Nothings”, o disco, era um trabalho simpático, para não dizer completamente desimportante. Quer dizer, havia algo para amar naquela dúzia de canções extremamente simples, rápidas e pegajosas, só que ao mesmo tempo havia, como sempre, uma quantidade infinita de coisas melhores par ouvira. Então dá para imaginar o susto quando o grito de Baldi no clímax de “No Future/No Past”, faixa de abertura de “Attack On Memory”, estrondou pelos fones.

“No Future/No Past” resume muito do que vai acontecer pelas outras 7 faixas de “Attack On Memory”: sentimentalismo adolescente limítrofe, doses cavalares de nostalgia grunge e lampejos de uma pretendida maturidade musical. Na maioria das vezes, Baldi parece estar querendo soar maduro, profundo e até refinado, numa atitude tipicamente adolescente de querer parecer mais velho do que realmente é. Por mais ingênua que seja a escolha de Baldi, ela joga a favor do disco e faz um bom contraponto à “juventude eterna” vendida pelos seus pares. Até o título (“Um ataque à memória”) deixa clara essa intenção de ser visto como alguém que deixou a inocência para trás, mesmo que no fim acabe soando como uma ironia não-intencional.

Validando toda essa experiência, Steve Albini foi chamado para polir “Attack On Memory” e o resultado é exatamente o que se espera. É um álbum pesado, com um tanto de barulho e violência, mas sempre profissional, correto e bem executado, com eventuais exibições de força desnecessárias (os 9 minutos de de “Wasted Days” poderiam ser cortados pela metade sem nenhuma interferência no resultado final).

Para um álbum curto, “Attack On Memory” é cheio de bons momentos. Além de “No Future/No Past” (que, sim, lembra Nirvana), “Stay Useless” talvez seja a outra grande música do disco. É uma canção tipicamente davidbaldiana, se é que dá para dizer isso. Ritmo meio deslocado da melodia, vocal com gritinhos e um refrão grudento repetido por tempo suficiente para que ele se aloje no seu cérebro. Fãs de Guided By Voices desapontados com “Let’s Go Eat That Factory” já tem uma nova música preferida.

“Our Plans” faz o papel de hino e já dá até para imaginar um bando de jovens disfuncionais (eu, você) berrando o refrão “No one knows our plans for us / It won’t be long” no meio de uma roda de pogo. A faixa ainda traz mais uma das ironias não-intencionais do disco (“Original / It will never never get old”), discurso que fica mais evidente em “No Sentiment”, letra que traz o título do álbum. É nela em que Baldi propõe, de fato, um ataque à memória, “sem nostalgia, sem sentimento”, enquanto o resto da música faz justamente o contrário. O que faz a faixa e todo o resto do disco escapar dessas possíveis contradições é o tanto de empenho e angústia que Baldi parece carregar no peito. E isso é capaz de afetar qualquer um, nostálgico ou não.