É sempre difícil julgar um disco por um elemento que está ligado mais à técnica do que à criação. O pop, um dos substantivos usados no título da estreia de Felipe Cordeiro e nome da tag que melhor caberia nele, é uma longa história de pessoas que sabem usar suas limitações a seu favor ou que pelo menos trabalham incansavelmente para escondê-las. Não é como se um pouco de virtuosismo não fosse bem-vindo, mas, no fundo, há uma infinidade de subterfúgios aos quais um artista pode recorrer antes de falhar por pura falta de técnica.

“Kitsch Pop Cult” sofre de um único mal que infelizmente está na preguiça de quem o executa. No release e na boca de quem o defende, trata-se de um álbum, no mínimo, interessante: filho de produtor famoso do brega paraense põe ritmos de sua terra para dialogar com o pop num trabalho vibrante e divertido. Kitsch, pop e cult – até o nome sugere uma efervescência que infelizmente nem sempre existe nas 10 canções do álbum.

Já na abertura, “Legal Ou Ilegal”, o álbum mostra seu grande problema: a voz (ou a falta dela) de Felipe Cordeiro. Em meio a um quase-merengue, quase-carimbó (algo que não seria incomum num segundo disco da Orquestra Imperial, por exemplo), o canto lerdo de Felipe destoa e atrasa. Não é simplesmente um timbre estranho ou um alcance deficiente (é isso também), é falta de vitalidade, de viço mesmo, que acaba contaminando o resto da canção – um possível hit alternativo de carnaval (existe isso?) se executado por alguém que se esforçasse para despertar um mínimo de empatia. É como se Felipe cantasse com a voz de quem faz por pura obrigação, como se fosse pré-requisito para botar seu nome na capa do disco sem se sentir constrangido.

(Um caso bem parecido com o de Felipe, que prova que há sim como driblar a fragilidade da voz que arrasa “Kitsch Pop Cult”, é o álbum de estreia do Do Amor.)

O problema da voz de Felipe se repete por quase todo “Kitsch Pop Cult” e se até se intensifica ao longo da audição, fazendo o disco decolar só quando a guitarra fala mais alto (Felipe é um bom guitarrista, vale dizer), ou seu canto tenta soar cômico, como acontece em “Fanzine Kitsch”. A música é o mais perto da BLITZ que essa geração já chegou e isso tem lá seu valor, mesmo que a faixa seja só um veículo para a boa frase efeito “A felicidade é uma maneira bem sofisticada de ser distraído”.

As instrumentais (ou quase, como “Conversa Fora”) são o grande e único trunfo de Felipe, mérito que ele divide com o produtor André Abujamra. Até nos momentos mais “modernos” do álbum, Abu parece não ceder ao maximalismo que caracteriza a produção recente do Pará e “Kitsch Pop Cult” soa bem menos sufocante do que poderia ser. “Fim De Festa”, escrita pelo pai do cantor, é o melhor exemplo  melhor música do disco.

Na maior parte do tempo, “Kitsch Pop Cult” é um trabalho totalmente solapado pela falta de técnica vocal de Felipe Cordeiro e a impressão que fica é que esse era um problema que poderia ser evitado com um pouco mais de esmero. Não se comportasse com a preguiça de quem acha que ganhou o jogo antes entrar no campo, o artista certamente faria mais justiça às boas ideias de suas próprias canções.

  • Helaine Martins

    Até 3 anos atrás, quando vim embora pra São Paulo (morei 15 anos em Belém), Felipe Cordeiro era um ótimo guitarrista paraense. Ponto. Vê-lo como cantor tão recentemente que me causou estranheza.

    Mas, ainda assim, talvez por puro bairrismo, acho melhor dançar o carimbó de fato paraense que os genéricos de Do Amor e Orquestra Imperial.

  • Nathália

    Este artigo sofre de um único mal: Atribuir adjetivos como preguiçoso e lerdo à um artista do nível de Felipe Cordeiro. O resto é um artigo solapado pela falta de vergonha de quem o escreveu!