Yeah, God is great
Yeah, God is good
What if God was one of us?

Leitores, algum de vocês já parou para pensar que talvez Kanye West seja somente um ser humano? Mas é claro que não! É óbvio, ninguém nunca parou para pensar nisso, esta não é nem mesmo uma pergunta que exista, na realidade. Não existir na realidade não significa não existir na cabeça do próprio West e seu mais novo álbum, “The Life Of Pablo”, mostra, em forma de música e poesia, que essa é uma dúvida vem atormentá-lo com frequência. Isso é sinal de que Kanye West tem alguma doença mental? Embora alguns ex-parceiros insistam nessa tese, a resposta novamente é não, claro. Em níveis diferentes, todos nós temos questões que só existem na nossa cabeça. A imodéstia aparente é resultado dos seus questionamentos pensados em voz alta, característica ambígua que já gerou tanto discos importantes quanto declarações estúpidas.

E assim, às vezes rindo, às vezes seriamente apreensivos, temos visto e ouvido a preocupação do rapper com a percepção pública em torno de sua persona desde o início de sua carreira. Em “T.L.O.P.”, ouvimos um dos raros momentos em que os questionamentos de West pendem para o lado da sobriedade. Como consequência estrutural, este é o álbum mais formalmente modesto de sua discografia recente. Em seu modo humilde ocasional, Kanye tenta explicar sua grandiloquência, expondo vulnerabilidades que de certa forma não combinariam com o ruidoso “Yeezus”, seu último disco, lançado em 2013. Na última vez em que se encontrou em posição parecida (questionado pelo já icônico “Imma let you finish”), o franco-atirador “My Beautiful Dark Twisted Fantasy” foi a saída encontrada para entender suas recém-descobertas fragilidades. Neste novo álbum, mesmo ainda atirando impiedosamente, West concentra sua música em formas mais conservadoras. Entre recortes que relembram seu início como produtor e seus primeiros discos como artista solo, “T.L.O.P” resvala na música gospel com tanto respeito que a maior surpresa é saber que Kanye West acredita na existência de um Deus que não se chama Kanye West.

Yeezus, don’t cry
You can rely on me, honey
You can combine anytime you want

Então não deixa de ser curioso que em “Ultralight Beam”, a monstruosa faixa gospel que abre o disco, Chance The Rapper pareça estar falando de Kanye West, e não de Deus, em participação estelar, inspirada talvez pela admiração declarada pela grande influência da atual geração do hip hop (no disco há até uma faixa dedicada ao assunto, a hilária “I Love Kanye”). Esse tipo de “homenagem“ inconsciente (“I met Kanye West, I’m never going to fail”) entrega o truque do rapper, o mesmo que fez muita gente acreditar que “MBDTF” era um pedido de desculpas. Fazendo uso de um imaginário bíblico, de seu contexto de sofrimento e abnegação, West reforça sua egotrip pela via da humildade. E as dezenas de participações (endossos) fazem parte da mesma lógica: aparentam generosidade, mas podem significar somente reverência. A de Chancelor Bennett, ironicamente, é mais interessante quando é reverente. Nome em ascensão, o rapper não se dá tão bem como produtor de “Waves”, faixa monótona incluída na última hora por insistência do próprio.

Excluir e incluir faixas, versos e beats poucos dias antes do lançamento deu ao álbum uma curiosa característica de obra em progresso que faz muito bem ao disco: seu minimalismo faz a poesia ressoar (algo que pode ser percebido com clareza já na primeira faixa), adicionando uma camada de grandiloquência aparentemente não planejada. A urgência também contribui para alguns acidentes de percurso, como a dispensável inclusão de uma conversa telefônica sobre nada, os versos adicionados na inconsequente “Famous” e uma inexplicável faixa em que conta vantagem sobre vendas de tênis.

God show me the way
because the Devil’s trying to break me down

Todos esses pequenos detalhes parecem menores quando o estilista parece esquecer suas linhas de roupas e enfileira faixas matadoras, com destaque para sequência explosiva “Real Friends”, “Wolves”, “No More Parties in L.A.” e “30 Hours”, já no final do disco. Costurando, em alguns minutos, de Kendrick Lamar a Arthur Russel, Kanye traz a frente um artista maior que o mito criado em torno dele, muito embora grande parte da imagem pública do rapper seja consequência de seu próprio comportamento imprevisível. Como, por exemplo, o confuso lançamento deste mal-acabado “The Life of Pablo”, álbum que reforça a imagem de um artista conectado com o momento atual do hip hop e ao mesmo tempo conhecedor da história da música. Para Kanye West, só falta entender melhor onde ele se encaixa nessa história.

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