Por Gabriel Guerra

Tomar partidos para mostrar força pode ser uma tarefa difícil, mas conseguir ir além e nunca botar o orgulho a cara a tapa chega a ser bem mais complexo: Maria Gadú parece ter se aperfeiçoado cada vez mais na segunda prática, seja chorando enquanto vê um dos seus heróis em ação ou seja evitando atitudes a favor da sua sexualidade, a paulista de 25 anos criou um universo onde todos que nela ajudam, indiretamente ou diretamente, serão retribuídos. Seu primeiro álbum, auto-intitulado Maria Gadu e lançado em 2009, tinha contribuições de outros compositores, cover de Kelly Key, versão de Jacques Brel… Era impossível não pensar que a cantora servia em grandes pratos de homenagem tudo aquilo que tinha composto e vivido. Tamanha inocência e retribuição transformaram a garota não somente em uma das apostas da MPB como em também um estereotipo da falsa valorização nacional feita pelo jovem, onde “todo mundo pega e usa de todo tipo de coisa, mas no dia seguinte ainda permanece a rodinha para cantar Novos Baianos para compensar”.

Piadas à parte, é com essa postura de dar-e-receber que Maria Gadu lança seu segundo disco, “Mais Uma Página”, abrindo-o com uma parceria com Edu Krieger no quase-lamento de “No Pé Ao Vento”, em que a cantora afirma e assegura sua carreira em apenas alguns versos: “Sou pássaro no pé do vento/Que vai voando à esmo em plena primavera/Cantando eu vivo em movimento/E sem ser mais do mesmo ainda sou quem era”. Se seu maior sucesso, a esperançosa “Shimbalaiê” foi composta, como diz a própria, com 10 anos de idade, afirmar suas origens acaba sendo uma obrigação. A evolução da própria artista aparece: nas linhas descendentes e no clima misterioso de “Tarégue”, na orquestra de “Like A Rose”. Toda canção é usada como motivo para Maria Gadu dar um passo além em sua maestria de fazer ou interpretar composições, mas nunca para tirar os pés de sua base de valorização. O que não significa que nunca se engane: aqueles que esperam o trio elétrico chegar em “Axé Acappella” podem ficar surpresos com a linha de metais e o sensualismo embutido na musica, e o seu erro se transforma em um acerto quando ela esquece um pouco de sua inocência e previsível “evolucionismo MPB-ístico” (leia-se: artista brasileiro andando por outros estilos brasileiros) para abrir espaço a uma maior elegância no arranjo.

Falar que “Mais Uma Página” é um disco mais sombrio pela maturidade da produção não estaria errado. O conteúdo das letras, um dos elementos mais chamativos da música de Gadu, podem não ser a mais pessimista definição de “escuridão” mas ganham tons mais sérios. Se antes ela cantava com o sorriso dentro do coração e o coração dentro da cabeça, aqui Maria Gadu chega a aplicar até mesmo temas políticos. Não que a pequena tomboy tenha se irritado. Apenas quatro músicas do álbum são assinadas somente por ela, o que leva a crer que tal maturidade não seja um caso de contexto na vida pessoal da artista, e sim de um puro movimento musical – afinal, por que motivos ela iria reclamar quando seu disco foi um dos mais vendidos no Brasil nos últimos dois anos?

Com tanto assunto e tanta seriedade, o disco acaba encontrando o seu ponto fraco: a duração. Com 14 musicas, incluindo uma faixa secreta (de toques etéreos, escondida no final da ultima faixa “Amor de Índio”), batendo na casa dos 55 minutos, “Mais Uma Página” acaba ficando sofrível com o passar do tempo, não pelo naipe da musica e sim porque, mesmo com o tal dito “passo de maturidade” de Maria Gadu, é bom se lembrar que ainda se trata de uma jovem artista. E que a mensagem encontrada no disco jamais deveria ser vista como algo “confortável”, método e palavra usada para artistas experientes e já com um legado fixo – seu visual é considerado moderno em comparação a outros novos artistas da MPB, grande parte da sua base de fã foi formada em menos de 3 anos e a sua música gerou e chegou no ouvido de pessoas que não creem mais em idolatria, principalmente em se tratando de MPB. Ou você acha que sua mãe ainda compra pôsteres? Com uma diferença de dois anos entre este e o trabalho anterior, cogitar que Maria Gadu tenha contratado alguns compositores para valorizar o seu lado artístico chega a ser uma opção.

Acaba que “Mais Uma Página” vira um acerto, mesmo com seu tempo. O disco é um passo, mas não um passo de escada. A compositora apara as arestas do seu primeiro trabalho e faz o que todo segundo disco de um artista de MPB deveria ser: sedutor para os fãs, um corretivo para o músico e chocante para ninguém. Os excessos de vontade de Maria Gadu acabam se voltando um pouco para quem ouve e não para sua graciosidade e talento. O que significa que o Brasil ainda vai ver e falar do cabelinho curto dela por algum tempo ainda.