Paula Fernandes | Meus Encantos

Paula Fernandes

Meus Encantos

[Universal; 2012]

5.0

ENCONTRE: iTunes

por Yuri de Castro; 31/05/2012

Destacando-se nas quatro pontas da estrela do entretenimento médio (estilo, romance, beleza e, também, carreira musical), Paula Fernandes conseguiu com uma cruzada de belas pernas engatar notícias que a relacionava com Roberto Carlos, Xuxa, Victor Chaves e muitos outros cruzamentos adoráveis dos grandes portais noticiosos do país. Isso, de alguma forma, ofuscou a esplêndida entoadora de cânticos tradicionais do que costumamos chamar de “roça” (os mais esnobes de folk) que despontava para o estrelato em formato pop e na carona da dupla Victor & Léo e no que se convencionou como Sertanejo Universitário. Os incautos que ainda zombam da personagem que transparece estilo fashion-sexy-caipira de Paula Fernandes não conseguem, no entanto, perceber, mas o que trouxe a cantora até aqui foi a própria colcha de retalhos tecida em sua recente carreira.

No entanto, se ocupa manchetes e estatísticas (“Pra você” foi, segundo o Google Zeitgeist, a letra de música mais procurada em 2011), Paula Fernandes não consegue traduzir para sua obra senão bons hits, desde que sua carreira ascendeu junto ao gênero no qual se inclui (excluem-se aqui seus dois primeiros álbuns, ainda na década de 90, nos quais, com 10 anos, emulava em produção grosseira canções sobre amor adulto). Então, desde 2005, com o lançamento de “Canções do Vento Sul” e com a inclusão de suas músicas em seguidas telenovelas, a cantora colhe muito mais do que o couvert artístico do qual vivia antes de entoar sua voz grave em registros que dão ênfase a um soft-country para ouvintes tropicais.

E, como dito, isto reflete diretamente em sua discografia. Seu mais recente lançamento, “Meus Encantos” padece artisticamente, ainda que possa consolidar a carreira pop da cantora. Isto porque o álbum continua a explorar, simultaneamente, a boa cantora de temas românticos (muito) ruins e a ótima intérprete de canções (boas) que flutuam entre o folk e o pop.  Esta confusão gera material apenas para uma futura coletânea de melhores canções, mas não poderá, nunca, ser exemplo de obra de arte no meio da discografia.

E é uma lástima que isso seja tão pouco valorizado em carreiras com tanta facilidade de penetração como a de Paula Fernandes. Almejassem mais do que fáceis trocados urgentes, perceberiam, Paula e sua equipe, que “Cuidar mais de mim” é não só uma ótima faixa de abertura, como também uma música que pouquíssimas vezes se viu no cancioneiro popular, tamanha a elegância no canto de Paula Fernandes e na interpretação de uma letra confessional. No resto do CD, salvo (boa) parceria mercantil com Taylor Swift, ora a cantora emula uma Roberta Miranda em filtros lights, ora é uma tradução de tudo o que a música pop-country americana já despejou no mundo no início dos anos 90. E, assim, consolida-se ao lado de Victor & Léo como produto para adultos, distanciando-se cada vez mais da algazarra universitária do gênero. Uma pena que seja este o limite de sua arte. Paula Fernandes é uma cantora maior do que a ganância prostituída das rádios e das gravadoras – mas, aviso: ela não pode ser considerada vítima; sua cauda é ferida pela mordida da própria boca.

  • Nota mais alta para Paula Fernandes do que para Regina Spektor. Não sou fã nem hater de nenhuma das duas, mas ouvindo um pouco das duas obra fica claro que há um problema. À menos que as notas sejam elaboradas pelo tino comercial.