Rita Lee | Reza

Rita Lee

Reza

[Biscoito Fino; 2012]

3.0

ENCONTRE: iTunes

por Rafael Abreu; 18/05/2012

Cruel, o tempo – ninguém passa intacto. Das mais brilhantes às mais desinspiradas, um, dois, três, quatro, cinco, dez mil anos são capazes de destruir, construir e refazer carreiras inteiras, distribuir sabedoria, tomar um bocado de esperteza e, bem, amenizar o temperamento, acalmar os ânimos.

Esse último caso é justamente o da música de Rita Lee, lenda viva da tropicália, ex-Mutantes, líder da Tutti Frutti, ex-esposa de Arnaldo Baptista, ex-Saia-Justa, ruiva, loira, laranja e morena. E o itálico de “música” se justifica principalmente pelo fato de que o ímpeto de Lee parece não ter mudado muito. Rita cresceu, nos últimos quarenta anos: se drogou, se desdrogou, passou por clínica de reabilitação, teve filhos, virou avó – e continua meio louquinha. Continua arranjando briga com a polícia (agosto de 1976 vs. janeiro de 2012), continua fazendo graça com entrevista (aqui e aqui) e exercendo o nonsense e a
mordacidade onde puder (seu twitter é uma fonte confiável). A mesma atitude de mocinha bonita vestida de bruxinha, enfim, no corpo de uma mulher de 64 anos.

E até aí tudo bem. Com um pequeno problema: se a figura (pública) de Rita continua interessante e divertida, não se pode dizer o mesmo de “Reza”, seu primeiro disco de inéditas em nove anos. Pois o que se ouve, aqui, é uma visão de arte e de música tediosa, decadente e debilitada.

Explica-se: “Reza” é um disco de pop rock brando com algumas pitadas de música eletrônica (correção: timbres eletrônicos), tudo a serviço de música-chiclete, no pior sentido: não sai da sua cabeça, aonde quer que você vá, muito embora você tente apagá-la de seu cérebro. Por 14 faixas e 53 minutos (um tempo exorbitantemente longo, considerando-se que a visão de álbum é a de disco de supermercado), Lee desfia todo um cancioneiro excentricozinho, cheio de barulhinhos, efeitinhos, corinhos e viradinhas melódicas. Tudo, aqui, é no diminutivo, muito embora o trabalho de produção pareça ter sido grande, em seu intuito de masturbar – de canções de de inspiração latina (“Mamboogiewoogie), italiana (“Tutti-Fuditti”) e pop rock açucarado (“Tô um Lixo”) estereotípicos – o máximo de sobrevida.

A impressão é de uma luta obstinada contra a morte inevitável de cada uma das composições. Empregam-se máquinas, enxertos de guitarra desnecessários, doses homeopáticas de sintetizadores e uma letras vergonhosas aqui e ali, a fim de manter o ouvinte atento e as faixas vivas, mas o destino de “Reza” quase todo é o esquecimento. De modo que o que se tem, nos melhores momentos, é música de elevador absolutamente passável, e, nos piores momentos, radiofonia pasteurizada, meio morta, anestesiada.

O engraçado é que o “espírito” da música de Rita não é propriamente diferente de sua melhor fase, a época de “Atrás do Porto Tem uma Cidade”, “Build Up” e “Fruto Proibido”. Já naquela época, Rita não se opunha em nada à radiofonia. “Ando Jururu”, “Esse Tal de Roque en Row”, “Hulla-Hulla” e “Tempo Nublado” não são nada além de música pop, música de cantora de rádio, muito embora a época fosse outra. O que mudou, também no cerne da questão, da mesma idéia de música de rádio, música de massas, de Rita, é que simplesmente não há visão, produção ou composição que a sustente.

“Reza” inclusive não se afasta do legado tropicalista de mistura de ritmos, justaposição de estéticas, cosmopolitismo sonoro e certa intelectualidade pop. O problema, aqui, é que a mistura é absolutamente infrutífera, e sobretudo amenizadora de tudo que pode haver de forte e interessante em cada uma das vertentes que Rita decide enfrentar (“se curvar a”, nesse caso) no disco. É o mesmo processo por que, ao que parece, passa o próprio estilo de Rita, em “Reza”: pega-se o estereótipo, extrai-se o frescor, adiciona-se uma produção técnica a fim de compensar a pobreza artística e trabalham-se os sons mais agradáveis, não necessariamente os melhores. O que se tem? Um disco que se descarta um segundo após seu fim.