Tanlines | Mixed Emotions

Tanlines

Mixed Emotions

[True Panther; 2012]

4.2¹ / 7.3²

ENCONTRE: Site oficial

por Gabriel Guerra; 20/03/2012

Uma introdução

Musica popular não precisa de musicalidade. Digo, não pra quem não produz. Se o ato de tocar fosse realmente relevante, então não haveria nem sentido em existir resenhas sobre musica, certo? O mundo está cheio de imbecis que utilizam a palavra “harmonia” pra criticar algo como “Stupid Hoe”, da Nicki Minaj, mas, harmonia por harmonia, a de “Stand By Me” é a mesma de “Baby”, e você não vê ninguém aí exaltando o amigo Justin Bieber, né? A conversa vai longe, mas acho bom lembrar que quem está para escrever esta resenha se inclui nas dinâmicas do participar de algum cenário musical (caso o leitor não saiba, eu produzo deep house com um projeto chamado Finalzinho Chegando e faço musica de banda com uns amigos que a gente chama de Dorgas) então haverá pequenas coisas que me tiram do sério, coisas elas que tem pouquíssimo a ver com o som que alguém faz: métodos de produção e composição são escolhas pessoais. Eu vou acabar falando em termos musicais durante esta resenha, mas você não precisa e nem deve sentir que precisa saber algo para entendê-la.

A crítica

Não conhecia o duo Tanlines (formado no Brooklyn pelos rapazes magrinhos Eric Emm e Jesse Cohen) antes de ser chamado para resenhar o disco. Aliás, conhecia de nome. Aparentemente eles já tocaram em bandas como Professor Murder, Storm & Stress e Don Caballero e sites como o NPR definem o som deles como uma mistura de “ guitarras afro-pop com synth pop”. Com um currículo desses, “Mixed Emotions” (álbum lançado com certa demora desde a primeira aparição do grupo em 2010, com o EP “Settings”) é, no mínimo, de agradar. Não é preciso nem questionar se a banda tem cacife para fazer sua musica em alta qualidade, a julgar pelo histórico. No disco você pode encontrar faixas que são canções pop sem medo e com arranjos espertos e estruturas fáceis de digerir, mas… Onde estamos mesmo?

Ah, é, se você partir do pressuposto de que existe um mundo particular de indie/hipster em que toda uma gama de sites que apoia essa tomada de “ritmos” sendo reutilizados, é preciso notar que vivemos na época em que o “orgânico” é uma palavra abençoada ao mesmo que tempo em que milhões de artistas fazem seus shows com laptops. O que não tem nada de errado: só significa que vai existir um grande “bololo” entre ambos, originado de um “backlash” entre esses tipos. Se os anos 1990 surgiram com idéias de anti-tudo (principalmente no meio indie, afinal, post-rock significa o que mesmo em relação ao rockismo?) e os anos 2000 botaram o estupido ideal de “trabalho duro = recompensa”, dá pra entender o nascimento desse tal confronto, por mais que seja só um resultado de conceitos forçados para se usar a palavra “mérito” como se isso fosse algo existente no mundo da música. Ser referencial é uma coisa que todo mundo faz, mas tem medo de admitir.

Se você quer um exemplo mais próximo, vamos pegar o local de residência do Tanlines. Nova Iorque sempre valorizou a importação: os Talking Heads se inspiravam em música africana desde o final dos anos 70, e se “reverb” e “textura” viraram uma palavra de ordem em Williamsburg nos últimos anos até pra quem não sabe mexer com isso, você formar uma banda que tenha inteligência pra saber produzir e usar esses elementos como o Tanlines e seus amigos (Delorean, Lemonade, El Guincho e por ai vai…) isso aumenta (e muito) a sua chance de aparecer na blogosfera (o Dorgas é um pouco isso, né?). Chega a ser até quase jogo ganho se a nossa amiga internet não deixasse todo o contexto social que uma banda poderia ter um pouquinho mais desvalorizado, uma vez que se cria um faux-ecletismo por parte de toda a sociedade, e todo-mundo-ouve-o-que-quer-na-hora-que-quer, sem tempo para entender outras questões a não ser o “gostar da musica”.

Como um bom álbum de musica pop, “Mixed Emotions” é coeso em suas estruturas e valoriza melodias/ganchos. Ainda que, suponhamos, eles usassem uma orquestra de kotos para gravar algo, é difícil pensar que apareça algo além do que se tem na composição original (que não tem nada a ver com qualquer tipo de musica africana) – a base da ideia continua sendo a canção, e esse é o elemento visado pelo Tanlines.

A “africanidade” do disco é uma questão de arranjo e organização. Utilizar elementos/percussões que as pessoas dizem ser “africanos” é só uma cor a mais à composição, e, sim, é absurdamente relevante e faz a diferença, mas não é íntegro do ideal da musica africana, baseada em ritmo e repetição. Um belo exemplo disso está na guitarra. Se você quer o conceito “certo” de guitarras afro-pop, é o seguinte: baseiam-se na polirritmia, e por mais que as (poucas) guitarras praticadas no disco soem que como afro-pop, eu não creio que há algo do álbum fora do 4/4. Logo, todos esses elementos são escolhas de sonoridade e questões de produção que estão de acordo com o fato de hoje em dia ser muito mais fácil adotá-los pelo barateamento, pela praticidade e pela “softwarização” de plataformas de sampling e programação, a banalização do MIDI (Musical Instrument Digital Interface, a grossíssimo modo, simulação de instrumentos) também vindo à mente. E é aí que entra o porque da nota não-tão-alta-como-você-esperava: você tem dez milhões de sites falando sobre a importância do Tanlines por trazer ritmos africanos ou eletronica (outro tipo de música que vem muito contra a estruturação da música pop, que é recorrente no Tanlines) para sua sonoridade, mas a pergunta que fica é a seguinte: será que é isso que realmente importa na música deles? Grandes discos que usaram e abusaram da África, as duas referências mais obvias sendo os já-ditos Talking Heads com seu “Remain In Light” e Paul Simon com “Graceland”, não usavam só o elemento pra alimentar a composição – o elemento roteava a própria canção. Com certeza o Tanlines não deve estar tão preocupado com isso também, eles mesmos se dizem focados em canção. Mas expectativas são importantes pra mim, e quando você tem sites que aplicam musicalidade como a questão para criar o hype em cima do Tanlines é ai que a merda acontece.

¹ Nota para quem concorda com o que já foi falado sobre eles
² Nota para quem nunca ouviu falar deles

  • Ouvi o álbum hoje e está mesmo UM DISCÃO!