O fofopop não é foda

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O fofopop, termo cunhado pelo Lívio Vilela aqui mesmo no Fita, conheceu a luz do mainstream com Marcelo Jeneci. Ainda não seja carioca, Jeneci levou uma parte do pop brasileiro novamente para a Zona Sul do Rio de Janeiro. Em São Paulo, seus contemporâneos estavam em uma outra empreitada: afrobeat, afropunk, samba paulistano, entre outros. De 2009 pra frente, as novas trilhas das novelas de Manoel Carlos seriam escritas no Rio de Janeiro mesmo. Felizmente, Manoel Carlos não fez mais novelas com núcleo-Leblon.

Bom, vieram Mahmundi e SILVA como integrantes do que podemos classificar de pós-Jeneci. Na minha opinião, eles falham em quase tudo. Na opinião de muitos feras do fofopop, SILVA é a nossa maior revelação e Mahmundi ainda vai ser uma coisa muito legal. É na carona da nova música da artista carioca que escrevo este artigo. Acho delicadamente ruim e decadente essa vibe. E quando ouvimos a música nova de Jeneci, não fica difícil perceber que a atitude do pai comercial do gênero é menos pueril e, com esse movimento Caê-Arnaldo, sai dizendo para os filhos: “vou ali comprar cigarro”. Para ficar claro, só fica no fofopop quem perde tempo.

A Bossa Nova cabe no Leblon de Manoel Carlos. A música do fofopop também. A diferença básica entre um e outro é: ninguém precisa dizer que a Bossa Nova é foda. Quando isso acontece, é um grito luxoso de Caetano Veloso que o faz. Mas, sério, ninguém precisa dizer isso. O fofopop precisa, sim, de que muitos blogueiros falem bem de seus artistas. Mas, acima de tudo, precisa também de que uma gravadora recrute esses artistas para dar a eles um projeto e, assim, cheguem à novelas, a tributos e às premiações. É o que vem sendo feito. Dos males, o pior: pelo menos, o talento (pra mim é óbvio que SILVA é talentoso) vai mesmo sendo reconhecido.

Contudo, para a música pop do Brasil, o pós-Anitta é muito mais pertinente. Em primeiro lugar porque nesse cenário não há espaço para impertinência de Naldo. Isso já seria um tremendo sucesso por si só. Mas há uma segunda prova disso: a nova música de Valesca. No zeitgeist do recalque e das invejosa, a mulher bunda-de-pokemon-do-pântano fez “Beijinho no Ombro” que municia qualquer conversa de fim de turno do colégio às 11h30m. Mais do que isso, a música é agressivamente pop (o que não a torna agressivamente inovadora em momento algum) e faz o que a turma do tecladinho chato não consegue por uma simples construção arraigada no sangue carioca fora da Zona Sul: “queremos tocar nas rádios!, queremos ganhar dinheiro!, queremos que o baile todo cante conosco essa canção!”. SILVA e Mahmundi fazem hits para uma Antena 1 que nunca vai existir. E, se existir, vai tocar the XX e não os tecladinhos modernosos da Guanabara. Quem diria, hein? O domínio da produção não está adiantando muito o lado da classe média. O som das rádios é da nova classe média e, assim, o pós-Anitta é muito mais interessante do que o fofopop pós-Marcelo Jeneci.

 

Eu também proponho um exercício: que olhemos a letra de “Beijinho no Ombro” como um recado à quase-agridoce cena do tecladinho: tem de ter disposição, fechar com o bonde. Se assim não o fizer, os fofinhos vão ter vida longa enquanto olha a radiofonia brega brasileira tomar conta por mais tempo. É meu sonho ver Victor&Léo, SILVA, Marcelo Jeneci e Valesca em uma mesma rádio popular. Mas a Zona Sul parece não querer sair de um zeitgeist-arpoador que era propício em 1950.

O que fez Valesca? Foi na onda. Isso é bom? No momento certo, sim. “Beijinho no ombro” é uma música que vai ser esquecida em um ano. Mas cumpre todas as expectativas que gera. Sua produção permite a Valesca ir além do pastiche sexual e ídolo-gay que vinha se tornando porque assim fazem as peças que são do pop. Em seu início, a faixa sugere um enterro que a artista contraria no primeiro verso. “Desejo, a todas inimigas, vida longa”, ela diz.

Amigos, vamos resumir: qualquer funk ruim do Rio de Janeiro consegue dialogar com a urbe. Este diálogo é o que permite hierarquizarmos os paulistanos Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Romulo Fróes como figuras destacadas nessa tentativa de, em pequenas crônicas, captar algum sentido que seja produzido nas ruas. Faz sucesso? Não, não faz. Toca em rádio? Não, não toca. Alguém conhece o Passo Torto além dos nossos amigos do baixo Augusta? Não. É uma pena? Sim, é. Porém, a obra está lá. Há, enfim, uma obra. Mesma obra que Jeneci começa a construir e que CéU, Curumin, Marcelo Camelo e  Tulipa Ruiz já estão cristalizando. O mais curioso (e penoso) de admitir é: a espécie mais precária musicalmente de todo o fofopop é, de fato, a mais pop e a mais certeira. Seu nome: Clarice Falcão. Ruim em quase todos os aspectos, sobra-lhe inteligência e sabedoria na hora de contar histórias. É uma cronista do bobo, mas é. Assim, poderá se tornar a Bia Bedran dos adultos crianções. Se conseguir, terá méritos de processo.

Temos, então, uma distância do radiofônico, um acúmulo de influências rasas e uma necessidade de impacto mercadológico que nunca vem. O blasé se encontra com a pretensão. Nenhum se realiza. O fofopop vira artifício — de tudo, menos de música.

No caso do fofopop que realmente importaria, o que está em jogo para SILVA e congêneres é uma descoberta. É até bonito, mas se perde quando descobrimos a extensa faixa de elogios que superestimam toda esta geração. Até Cícero percebeu que a onda era errada. Até o Cícero — este que julgávamos ser o golpe mais pobre da abertura de mercado para o fofopop. A pernambucana Lulina também: seu novo álbum “Pantim” é um golpe no clima materno do fofopop de “Cristalina”, primeiro álbum da cantora. O fofopop não ouviu a discografia da Marina Lima (e quer soar como). Ao mesmo tempo, não é afetada ao ponto de subir o morro para tirar onda em baile funk de morro pacificado por UPP, não flerta com o samba, pagode, canção nordestina. Não sabe ser triste, não sabe ser feliz, não sabe ser nada. E esse lado etéreo acaba atrapalhando as próprias canções boas de SILVA, por exemplo. Falando sério, o nosso fofopop é uma bobagem tais como muitas canções que a Bossa Nova deixou surgir. Mas veja, foram canções. Antônio Carlos Jobim fez coisas bobíssimas como “O nosso amor”. Mas não precisamos dizer como ele foi o arquiteto do gênero e do pilar da música brasileira contemporânea com genialidades aos milhões. As canções ruins que a Bossa Nova permitiu é papo para outro texto. E são tão ruins quanto “Arpoador”, de Mahmundi. A diferença é que esta obra mais recente não será carregada por nenhum gênero porque, convenhamos, fofopop é uma brincadeira nossa. A Bossa Nova é foda; o fofopop não sabe nem de onde vem os bebês.