Cambriana | Worker EP

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“House Of Tolerance”, álbum de estreia do Cambriana, era o tipo de disco que não costuma acontecer com frequencia no mercado brasileiro. Não só ele soava distante de todos os seus pares daqui, como não há exatamente uma referência de fora que dê conta de enquadrar o som da banda. Não era nada de novo, é verdade, mas era feito com um cuidado, um apreço pelas sutilezas (de produção, de composição) que simplesmente não poderia ser ignorado (e não foi). Mais do que qualquer coisa, era uma boa coleção de canções, um álbum de indie rock que valia o espaço na prateleira ou no HD. E tinha um hit.

Um ano depois, o fator surpresa deveria ter deixado de ter um papel importante na carreira do Cambriana, mas não há como não se surpreender com Worker, EP lançado há pouco mais de um mês. Em quase todos os aspectos, essas 6 canções soam melhores do que as 11 que as antecederam. E mais, pela primeira vez dá para sentir a banda confortável com a sombra de suas influências, definindo música à música sua própria personalidade. É algo que se percebe logo na primeira faixa, “What Light?”, quando a banda troca o clima soturno e carregado de “House Of Tolerance” por guitarras mais altas, timbres menos esfumaçados. À medida em que a canção chega à ponte, a mudança que os últimos 12 meses trouxeram ao Cambriana fica mais clara. Se “House Of Tolerance” era um álbum retraído, quase tímido, o que se vê em “Worker” é um disco de ataque, confiante e às vezes até impetuoso. “Isso é o que quero / Deixar gravado em pedra / Isso é um ataque”, diz um trecho da faixa seguinte “47 Daughters” com a mesma pegada agitada e direta.

O ponto central de “Worker” é, no entanto, a terceira música, “It Never Works”, talvez o melhor momento do Cambriana até aqui. A faixa mostra a versatilidade de timbres (há vozes processadas, coro, sintetizadores, teclados, baixo distorcido) e o controle com que eles são trabalhados pela banda. É aquela rara capacidade que alguns compositores e arranjadores de “ver” a canção como um bom montador vê um filme – cada frame, cada nota importa para resultado final.

“Albuquerque”, a pequena faixa instrumental que liga as duas metades do EP é o único momento de desperdício, soando mais como outras coisas do que como o Cambriana (problema que já atrapalhava canções como “Swell”, no disco de estreia). Mas apesar dela, “Worker” ainda tem duas faixas que demonstram capacidade do Cambriana em soar original, mesmo trabalhando com os ingredientes do dia do indie rock recente. “Heart Keeps Thinking” joga a banda numa espécie de “country doo woop”, com espaço para um showzinho especial de Calil, cada vez mais solto como vocalista. Por fim, “Choose You” abre o foco do banda, sem deixar de lado o tom intimista – é uma canção de amor, afinal. Os vocais no limite entre o terreno e o etéreo sustentam a faixa, mas ainda deixam espaço para que a guitarra e o saxofone à la Colin Stetson conduzam o “Choose You” a outros lugares.

Alguns podem dizer que o bom resultado de “Worker” é fruto da diminuição de escopo, o que possível. No entanto, acertos circunstanciais a parte, há algo de novo na gramática da banda, uma confiança visível na maneira como as guitarras e os baixos aparecem ao longo do disco – altos, firmes, quase petulantes. É algo maior que as canções e que pela primeira vez confirma que o Cambriana já é mais realidade do que expectativa.