Damon Albarn | Dr. Dee

damonalbarndrdee

Damon Albarn

Dr. Dee

[Parlophone; 2012]

7.9

ENCONTRE: Site Oficial

por Yuri de Castro; 09/05/2012

Duas entrevistas para a rádio holandesa 3voor12 podem dar as pistas para o álbum “Dr. Dee”, de Damon Albarn, inglês conhecido por suas contribuições à frente do Blur e do Gorillaz. Há um ano, Noel Gallagher dizia que “ser britânico é estar em uma permanente crise de identidade; e isso é, em parte, poder dessa nação. Estamos constantemente em mudança”. Em 2012, falando sobre a ópera com a qual contribuiu (Dr. Dee – An English opera, de Rufus Norris), Albarn rasgava a seda do percusionista felakutiano Tony Allen (seu convidado em “Dr. Dee”) para, logo depois, introduzir uma história. “Nascido na Nigéria, talvez não tenha logicamente muita noção sobre o período de Elizabeth I – mas há definitivamente uma conexão; a magia de John Dee está bem próxima da essência da música africana. Allen me contou sobre sua avó que retirava as crianças do cômodo caso a música no ambiente fosse ritmicamente intensa. É fascinante ver a música como algo intoxicante”.

“Dr. Dee” não deve ser encarado como o primeiro álbum de Damon Albarn, tampouco o conjunto de sobras intitulado Democrazy, de 2003. A obra e vida do cientista inglês que dedicou sua vida às ciências difundidas e ocultas é cantada por Albarn em algumas faixas por uma “questão de marketing” como ele mesmo frisou em entrevista à BBC. No restante do álbum, segue o elenco de Dr. Dee – An English opera tal como na ópera em si: Anna Dennis como Katherine, mulher de Dee; Steven Page como Francis Walsingham (importante homem da inteligência protestante britânica) e Christopher Robson como Edward Kelley (autoproclamado médium e com quem Dee estabelece parceria em 1582). Mesmo assim, “Dr. Dee” está infectado por uma busca que Albarn parece não querer parar de fazer: encontrar a si mesmo. A biografia de John Dee surge como um remédio bem temporável para o talento de Albarn. E este talento vai além dos seus timbres de voz. Ele envolve escolhas. Em “Dr. Dee”, as ilimitadas fronteiras musicais de Damon Albarn encontram no cientista apaixonado pela magia John Dee uma história onde se cruzam folk, canto lírico e pequenos delírios sonoros.

Quando Damon enfatiza a relação dos elementos rítmicos africanos usados na ópera, está não só ressaltando sua escolha por Tonny Allen (um dos maiores representante do afrobeat) e por seu magnífico solo em “Preparation”, mas de alguma forma o Blur e sua obra por meio do single “Music Is My Radar”, de 1999, que termina com a frase “Tonny Allen got me dancing” em loop. Em “Edward Kelly”, quem está lá é Aleister Crowley, “homem mais perverso do mundo” e dono do “faça o que tu queres”. Em “The Moon Exalted”, os versos finais lembram “Lugar Comum”, de João Donato — ok, mas aqui é este texto evocando magia oculta. De qualquer forma, “Dr. Dee” é estranhamente uma obra pop e de destaque na discografia de Damon Albarn independente da forma que for composta daqui em diante.

O que importa, na verdade, é que soam ligeiramente vagas as composições sem uma mínima instrução do ouvinte para com a história e a obra de John Dee tal como seu pertencimento em uma era em que matemática estava longe da visão contemporânea na qual debruçamos hoje. Redundantemente, as duas obras andam juntas e são também o que cerca o personagem principal da ópera. John Dee é apontado como uma das inspirações de Shakespeare para a criação de Prospero e de Christopher Marlowe para seu Dr. Faustus; chegou a ter uma das mais importantes bibliotecas do reino – idéia organizacional essa rechaçada pela Rainha Maria I da Inglaterra; enfrentou julgamento por ter traçado horóscopos da rainha Mary e da então princesa Elizabeth; e foi acusado de traição contra a então rainha. Não só realizou sua própria defesa, como também, sábio, estreitou suas ligações com o clero; antes de ser acolhido pelo reinado de Elizabeth I, caiu no ostracismo uma vez que James I não admitia de forma alguma as práticas classificadas como perigosamente experimentais. Acabou acusado de ocultismo e após perigrinar com Edward Kellen pela Europa Central, voltou à Inglaterra, onde falece na pobreza e com seus estudos e livros roubados e/ou destruídos.

Tudo isso está na obra composta por Damon Albarn. E, em alguns momentos, é sublime a forma escolhida para narrar cada passagem desta. Mas a experiência completa não será adquirida por quem não imergir na ópera e na própria carreira do músico inglês. É bom lembrar que os primórdios dessa ópera estão não só em um livro incompleto de Allan Moore, como também quando Albarn e Jamie Hewlett escreveram para a produção “Monkey: Journey to the West.” Damon Albarn recorreu às experiências do uso de instrumentos tradicionais chineses para recriar, em “Dr. Dee”, a atmosfera medieval e renascentista – desplugada, claro – onde as danças folclóricas e o drama da ópera se confundem com, por exemplo, a mini-orquestra que se aloca no palco da apresentação. Acima de tudo, é belo registro de uma inimaginável produção para nós brasileiros, alocados não só no hemisfério sul, mas também em um outro insconsciente coletivo para os temas abordados na ópera – uma histórica que clama pela identidade britânica sem que se separe o natural e o sobrenatural. Mesmo assim, não é nada impossível absorver: história, ocultismo e música já deram bons exemplos antes – inclusive aqui no Brasil.