Um Rio Experimental

Durante muito tempo, caminhávamos sobre terra arrasada: a última década do Rio de Janeiro, sob qualquer aspecto (artisticamente, economicamente, politicamente), foi desesperadora. Esse caos foi cenário perfeito para o surgimento de uma cena que se dá muito bem com desordem. Chinese Cookie Poets, Dorgas e Sobre A Máquina representam uma nova saída para a música carioca, colocando cores diferentes numa cena que só se mostrava acinzentada.

Entre covers de Strokes e Los Hermanos, a cidade produziu quase nada de novo e relevante. Sendo assim, a música carioca resistiu nas mãos da “turma da Gávea” que, orbitando entre Mulheres Que Dizem Sim, Acabou La Tequila e Los Hermanos, vem salvando o cénario carioca da total irrelevância desde os anos 90. Protagonistas de uma nova fase, Cadu Tenório (mentor do Sobre A Máquina), Marcos Campello, Felipe Zenicola e Renato Godoy (integrantes do Chinese Cookie Poets) falaram com o Lo-Fi Dream sobre as peculiaridades da cena, as dificuldades e vantagens do público ainda pequeno e os planos para o futuro.

Questionados sobre o estado das coisas na cidade, todos ressaltaram a importância de Plano B, Audio Rebel e Multifoco para viabilizar esse Rio mais experimental.

  • O que eu sempre senti carecer no Rio desde que eu toco por aqui com minhas bandas antigas é justamente uma união de algo que se possa chamar de cena, as coisas sempre caminharam muito destacadas e por nichos especificos, como se fossem todos embalados para um determinado publico. Sempre senti um ar de competição, (risos) de repente seja algo da minha cabeça doente. Mas parecia todo mundo interessado apenas no seu próprio umbigo… Sinto que as coisas vêm melhorando por aqui, esse nome cena experimental carioca tá se espalhando, tenho respondido bastante sobre isso. O termo veio de fora, claro. Vejo que nasceu em um momento propício com a ampliação de algo que começou no Plano B: toquei no Plano B com minha antiga banda, o Sertão Agrário, é um espaço bacana na Lapa, uma loja de discos onde shows começaram a ser organizados pelo Fernando e pela Fátima. Estamos pra marcar com o Sobre a Máquina lá. Mas é algo incrivel o que acontece lá, shows às sextas-feiras de graça que lotam a rua. A coisa começou a crescer, o nome a se espalhar e a proposta do que rolava em termos de música lá começou a despertar a curiosidade da galera. No ano de 2011 um pessoal que já participava de eventos no Plano B resolveu ampliar a coisa e trazer o evento pra uma casa de shows já conhecida no cenário independente daqui, a Audio Rebel. Lá, às quintas-feiras, nasceu o Quint Avant, um evento de música experimental formado por um coletivo de gente que toca e amizades acabaram começando a se formar, algumas bandas que lançaram seus registros em épocas próximas ao começo do evento, e ganharam certo destaque na cena alternativa, foram convidadas a tocar lá e com isso nasceu esse termo cena experimental carioca e, pode crer, como já conversei com o pessoal, é um movimento meio único no Brasil, pelo menos pra mim (risos), e que tá crescendo por aqui – conta Cadu.

O que eu sempre senti carecer no Rio desde que eu toco por aqui com minhas bandas antigas é justamente uma união de algo que se possa chamar de cena (…) Sempre senti um ar de competição.

Renato Godoy, baterista do CCP, tem opinião semelhante:

  • O Rio de Janeiro é um lugar muito estranho pra se ter um projeto e tocar, acredito que a coisa vem mudando “um pouco” de tempos pra cá. Existe sim um público pequeno e fiel e interessado em coisas novas se formando e pequenos empreendedores investindo em sistemas de PA de suas casas, posso falar aqui da Audio Rebel e a Multifoco, casas pequenas mas com essa preocupação, que é primordial. Mas falta muito ainda pra atingir o “mundo ideal” onde as casas fecham caches mínimos e trabalham com uma bilheteria amigável.

O Quint Avant, projeto citado por Cadu, surgiu de uma coversa de Godoy com o pessoal do Audio Rebel:

  • Em 2010, após um show do BIU, trocando idéia com Alex Zhemchuzhnikov, Filipe Giraknob e Pedro Azevedo surgiu a idéia de fazermos mais datas com uma periodicidade maior sob uma curadoria mais direcionada, e nessa criamos o evento chamado “Quint Avant”.

Como normalmente acontece lá fora, cenas surgem inspiradas em outras, mas o paralelo dessa geração com outras cariocas (e mesmo brasileiras) é bem díficil de se traçar. O industrial Sobre a Máquina, especialmente, só encontra pares fora do país. Ao ser perguntado sobre suas influências, Tenório reconhece que as internacionais são mais identificáveis:

  • O projeto começou influênciado pelo que hoje é conhecido pelos íntimos como early-industrial, bandas como Throbbing Gristle, Einstürzende Neubauten e pelo post-industrial de bandas com o Coil, isso entrando em conflito direto com o drone controlado por Christian Fennesz e Tim Hecker. Isso foi o principal, mas claro que o Sunn O))), assim como o Jesu, também valem a citação como influência no que acaba soando “metal” no meio de tudo… Dentro disso tudo, como deve dar pra perceber, tentamos montar um som próprio sem tentar imitar ou copiar nenhuma referência. Acima de tudo nossas vidas também nos influenciam muito, é um trabalho bem conceitual… ademais, o jazz, embora transpareça pouco, é o que está mais presente no nosso dia a dia: de Coltrane, Coleman e Cherry à Brotzmann, Haino e Bailey. – enumera o instrumentista.

Já Renato, Marcos e Felipe, ao serem questionados sobre as influências de Boredoms e Zumbi do Mato, revelaram outros nomes, alguns bastante curiosos, incluindo os multi-instrumentistas Hermeto Pascoal, César Camargo Mariano, Arismar do Espírito Santo e Egberto Gismonti. O baterista do CCP acrescentou:

  • (Minha influências são) Caetano Veloso, Arto Lindsay, João Bosco, Black Rio. Estamos sempre agregando influências novas (imediatas), viajei pra Olinda umas semanas atrás trabalhando com o pessoal da Orquestra Contemporanea de Olinda e fiquei de cara com a musicalidade de lá (Azabumba, Academia da Berlinda, Coco e Raízes de Arcoverde…). Por coincidência, vínhamos trabalhando numa música nova que tem essa onda do frevo e nessa a batizamos “Torando Aço”.

– Zumbi do Mato é uma banda que contribuiu e contribui muito para a música experimental brasileira, mas não é uma referência para a formação do nosso som. Nossas referências mais diretas, dentro do universo da música experimental, não estão no Brasil – completa Felipe.

Um futuro improvisado

Mas será que árvore experimental dará outros frutos? Os artistas do espetáculo garantem que sim. Além da citação mútua, eles deram seus palpites sobre quais músicos merecem a atenção dos cariocas. Cadu sugere o não tão novo Rabotinik, além do Dorgas, ambos indicados pelos integrantes do CCP. Renato Godoy, particularmente, recomenda Negro Leo (“que acabou de gravar um excelente disco” conta), Digital Ameríndio, Spektro, BIU e o próximo disco do Duplexx. O baixista Felipe foi além:

  • Temos no Rio hoje grandes improvisadores, músicos que se dedicam ao desenvolvimento de novas formas de tocar o instrumento, novas formas de improvisação e de interação entre músicos. Por trás dos nomes que Renato citou, está a essência do que forma hoje a tal “cena” experimental do Rio: um grupo de grandes improvisadores que se reúnem em diversos projetos, cada um com suas peculiaridades estéticas, e que são na prática cristalizações dessas experiências com improvisação, independente se as bandas formadas trabalham mais ou menos com música improvisada. Portanto, diria que a grande peculiaridade que há no Rio, é a existência dessa “rede” de músicos improvisadores, que já existe há alguns anos e que agora está cada vez mais se unindo e trocando.

Essa rede, por mais importante que seja, sempre tocou e parece que sempre tocará para um pequeno público, mas isso não parece ser grande problema para os músicos do CCP. A banda não se espanta com lugares pequenos, mas não quer fazer música para nicho:

– Não fazemos o que fazemos para manter um público seleto e específico. Claro, seria ótimo tocar sempre para pessoas informadas e interessadas no nosso som, mas se isso fosse para nós um pré-requisito não conseguiríamos nem sair de casa. É coerente pensar neste caso em música de nicho, sim, mas creio que se trata de um pensamento muitas vezes pernicioso, principalmente quando ele está na cabeça do próprio artista. Ao se colocar dessa maneira, “faço som para poucos”, o artista automaticamente reduz as opções de atuação no cenário musical como um todo. Nós do CCP temos consciência do tipo de som que fazemos e da resistência que um ouvinte pode ter ao escutar nosso som pela primeira vez. Da mesma forma é dificil para um produtor ou um dono de casa de show hoje abrir portas para esse tipo de som. Mas essa condição é perfeitamente contornável, contanto que o próprio artista tenha outra postura. Nossa experiência nos shows têm confirmado isso. Claro, sempre parte do público vai achar aquilo tudo uma grande babaquice sem sentido, podendo nem considerar música o que está ouvindo. Mas em todos os nossos shows temos uma resposta positiva de pessoas que nunca ouviram esse tipo de som (a melhor receptividade que obtivemos em shows recentemente foi em um bar onde só tocava reggae e forró), provando que este paradigma do “som de nicho” é perfeitamente quebrável, o que nos faria deixar de tocar só em lugares toscos com som ruim às 3 da manhã – pondera Felipe.

Não fazemos o que fazemos para manter um público seleto e específico. Claro, seria ótimo tocar sempre para pessoas informadas e interessadas no nosso som, mas se isso fosse para nós um pré-requisito não conseguiríamos nem sair de casa.

O termo “nicho”, usado na pergunta ao músicos, também incomoda Cadu:

  • É, rola um nicho, que considero ser bem psicológico. Ando construindo uma opinião contra isso, acho que a cena experimental carioca é bem distinta entre si. E acho que tem total coerência tocarem em eventos juntas, não vejo porque não. Não rolam muitos convites pra shows em locais diferentes aqui no Rio. O publico não costuma ir, é complicado. Gostaríamos muito de poder tocar em teatros ou lugares diferentes e maiores. É dificil, só produzindo nosso próprio evento, é o que pretendemos fazer… mas sinto que as coisas tão mudando, o publico tá ficando mais ativo gradativamente, mais antenado, mais curioso… Vamos ver até onde vai a cena experimental carioca – provoca Cadu.

Os músicos, é claro, preferem tocar para seu público, mas não fazem grandes exigências:

  • Sem dúvida, é bem mais interessante tocar pra um público pequeno de pessoas que procuram ouvir sua música do que um show atrelado a uma festa qualquer, ou esses festivais com outras 15 bandas sem passagem de som onde a produção ou te agulha pra tocar logo antes do “Dj” ou te joga lá pras 3 da manhã… O que não quer dizer que não encaramos roubadas. – disse Renato.

  • Acho que uma das vantagens de fazer o nosso tipo de som é estar preparado pra qualquer coisa. Por causa da especificidade (ou abrangência) do nosso som já tocamos em lugares realmente toscos, então é difícil algo ser realmente surpreendentemente ruim. Mas é ótimo tocar em lugares com som decente e pessoas interessadas. A tendência espero que seja essa – conta Marcelo.

Para aumentar seu públicos, Chinese Cookie Poets e os integrantes do Sobre A Máquina preparam inúmeros lançamentos para 2012. Cadu Tenório tem outros projetos, como o RAPE! e o Victim, além de álbum “canção estranha” (definição do próprio) que ele pretende lançar em breve. Dividindo a responsabilide com Cadu no Sobre a Máquina, Emygdio Costa deve lançar um álbuns de canções (estranhas também) e Ricardo Gamero segue em turnê com Cícero. O mais recente EP da Máquina, Anomia, é o fim de uma trilogia:

  • Foi o fechamento do ciclo de idéias que começou com o Decompor, representa a diluição/compactação completa do nosso som para a nossa proposta, partimos da decomposição para a criação de algo que vamos destruir num outro ciclo que vai ser representado pelo album que lançaremos agora em 2012, um long play no qual já estamos em pré produção. Contará inclusive com participações especiais e acréscimos na banda, alguns já conhecidos. É um disco que representará um passo muito importante para nós – adianta Tenório.

Marcos Campello conta as novidades mais econômicas, porém não menos empolgantes, do trio instrumental:

  • O single é uma preparação pro disco que vem aí, lá pro final de fevereiro. Ele mostra, em suas duas faixas, os dois pólos pelos quais transitamos durante a feitura do disco (sonoridade bem crua e sonoridade claramente manipulada) e dá uma leve idéia do que esperar – adianta Campello.

Público e palcos pequenos, ambição e talento enormes. Equilibrando sua música gigante em lugares diminutos, Chinese Cookie Poets, Sobre A Máquina e Dorgas optaram por experimentar enquanto a cidade se encontrava em estado letárgico. Por enquanto, eles contam suas influências, mas já são o que se faz de mais inspirador na música carioca.

Originalmente publicado no Lo-Fi Dream

  • Leonardo Fabricio

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