Alabama Shakes | Boys & Girls

Alabama Shakes

Boys & Girls

[Rough Trade; 2012]

4.5

ENCONTRE: Amazon

por César Márcio; 05/04/2012

Não é lá grande coisa em termos de exercício crítico mas vamos dizer que, resumidamente, o Alabama Shakes seja uma bela porcaria especial. Eles são uma bela porcaria como Black Keys, Adele e Kings of Leon, de modo que todos eles pretendem-se tradicionalistas mas são, na verdade, “atrasicionalistas”. Artistas assim se prendem na ideia da tradição para justificar preguiça e falta de criatividade. Mas eles são especiais: eles são especialmente ruins. E sabem disso. Dessa maneira, transformam o Alabama Shakes em veículo para a única coisa que vale a pena aqui: a voz de Brittany Howard.

Mas vamos deixar esse assunto (a voz) para depois. Vamos detalhar como o Alabama Shakes trabalha: eles não trabalham. Basicamente uma banda de bar, eles fazem ROCK ‘N’ ROLL DE VERDADE, com letra maiúscula para o leitor sentir o drama. Mas como todos sabem, o rock ‘n’ roll de verdade morreu há uns 35 anos ou mais. E aí o que ouvimos em “Boys & Girls” é aquela emulação, aquela banda cover de Lynyrd Skynyrd, aquela gente sentindo a guitarra pulsando com o braços pra cima e os olhos fechados, enfim, como se “Quase Famosos” falasse de uma banda de 2012. Por um momento, lembram o Dr. Dog, subtraindo a (eventual, para ser sincero) disposição de criar suas próprias canções.

“Boys & Girls” não apresenta uma visão diferente nem em termos de posicionamento estratégico no mercado: a produção segue o estilo Black Keys, “instragramizada”, para a gurizada (os únicos consumidores de música, segundo artistas, jornalistas e publicitários da nossa época) não se sentir muito deslocada. Vez ou outra, a bateria surge estourada, mais alta, pra dar ideia de intensidade, mas a estrutura raramente se altera, repetindo clichês e clichês e clichês.

Tudo acaba sendo carregado por Brittany e sua voz aterrorizadora. Como Amy Winehouse em “Frank”, atrai a curiosidade para uma música mínima utilizando uma voz máxima. Então, se o leitor flagrar-se atraído por trucagens de quinta categoria como “Hold On” e “Be Mine”, não há motivo para se sentir culpado, a mulher vale o show. E por isso merecia uma banda que caminhe na extensão de sua voz. Uma voz que pode aterrorizar o ouvinte, mas não deveria aterrorizar os músicos que a acompanham.