Houve um tempo em que Moto Contínuo era conhecido por Só serve pra dançar, uma de suas faixas e seu primeiro single, já antecipado, à época. Soube da possível alcunha no tempo do saudoso Bloody Pop, enquanto se amargava a espera que cabia no intervalo que vai da data da ciência de um novo disco brasileiro a seu efetivo lançamento. Só se sabia que haveria China, haveria um novo trabalho e haveria um disco inteiro que, ao que tudo indicava, serviria pra dançar, mesmo que o título fosse algum tipo de piada.

Veio o tempo e foi-se o nome da bolacha virtual. E o que nos deram foi um álbum que viria ao encontro, sem maiores constrangimentos, de quem o chamasse pelo antigo prenome . Boa Viagem é uma boa dica – riffs sintéticos, batida proeminente e um quê de groove na faixa deixa claro o intuito: Moto Contínuo é um disco que nasceu pra mexer. E como movimento é coisa múltipla, há que precisá-lo.

Pois bem: esta é uma obra de investidas externas, físicas, concretas e um tanto rasas, o som de um artista alisando as belas formas de uma composição, raramente chegando a desentranhá-las, cutucá-las, desenvolvê-las – pelo menos além de certo ponto. Seja esse método consciente ou não, a impressão que se tem é de que música “de formas” – não confundir com: formal – é  uma meta bastante definida para o álbum, chegando até a interferir na qualidade do que se ouve, à medida que a missão é cumprida. Pois o aspecto mais sintomático de Moto Contínuo é que primeiro realiza um “projeto” de dança e de produto para só depois se preocupar com as canções. E quando se diz produto não se quer falar só sobre o caráter popular (leia-se: pop) de um disco como este – em nada reprovável ou pejorativo. A intenção é falar sobre o fato de que é algo obviamenteproduzido, no sentido fonográfico do termo.

Dito isso, parece haver um descompasso entre ideia e execução.

São dois, os lados desse desnível:

O primeiro é o da distinção entre a qualidade da música e a da produção. Fosse outra a roupagem, Moto Contínuo dificilmente se sustentaria, justamente por não ser feito canções fortes. Não são ruins, mas carecem, para se realizar plenamente, de um substrato mais robusto. Quando o mais normal, fosse boa a qualidade, seria que o contrário acontecesse – que elas mesmas servissem de base à execução, que tivessem algum tipo de independência de sua própria performance. Ou ao menos se encontrassem em pé de igualdade com ela.

O segundo é o que mostra que a consciência – ou a sorte de saber – desse desencontro é o que faz de Moto Contínuo uma experiência válida, na medida do possível. Não há tempo a perder: todo riff é motivo pra gancho, toda frase é frase de efeito, todo timbre é chamativo, envolvente, à sua maneira. São boas manobras, na maioria das vezes – a guitarrinha pantanosa de Overlock, uma de suas melhores faixas, ou a seção de metais que, pincelada timidamente ao longo do disco, acaba sendo subutilizada – e, ocasionalmente, picaretagens ou simplesmente erros – Terminei indo, parceria inócua com Tiê, é quase tão ruim quando o último disco dela, e só não é propriamente péssima justamente por causa da: produção. E é essa irregularidade – embora mínima – que condena o disco a um número suportável de pequenas derrotas.

O que é patente no esforço, no entanto, é que esse descompasso faz o trabalho andar, mesmo que os passos sejam pequenos. Moto Contínuo não é um sopro leve e revelador: é música inspirada vertida em produto. Cada faixa, inclusive, é palpável como um objeto, descomplicada, ergonômica, de certa forma tátil: basta pegá-los pra descobrir pra que servem. E o fracasso permanece longe precisamente porque a música, aqui, parece saber seu lugar: não pretende muito de si e se realiza por outro tipo de expectativas – nem melhores, nem piores: só diferentes.

Em tempo: moto contínuo é uma invenção física imaginária, uma engenhoca que se põe a mover e não para nunca, reciclando eternamente a energia que seu próprio movimento produz. Sua meta é o movimento perpétuo, uma dinâmica perfeitamente passível de acontecer, quando se fala de arte. Moto Contínuo, como esse tipo de mecanismo, não é dado a cabo. Mas também não é um disco inerte, morto. Com um pouco de combustível, a coisa anda