Nelson Motta e Fernanda Takai acertaram quando o primeiro sugeriu e a segunda aceitou realizar um disco em homenagem a Nara Leão. “Onde brilhem os olhos seus” marca o início da carreira solo da vocalista do Pato Fu. Era 2007 e a banda havia passado por uma longa pausa para a maternidade. Os discos que vieram na sequência (“Toda cura para todo mal” de 2005 e “Daqui pro futuro” de 2007) mantinham a feliz combinação de pop mainstream radiofônico e liberdade experimental, com a vantagem de que tudo passou a ser produzido em casa, sob a batuta de John Ulhoa. A desvantagem para quem surgiu nos anos de ouro do pop rock nacional era entender que já não se vivia mais sob o sol da MTV e das super-produções de videoclipes, já não se vendia tanto disco e a internet e o mp3 se impuseram como as matrizes de uma nova lógica. O Pato Fu se ligou que algo tinha acontecido, se adaptou como pode ao novo cenário, mas a sensação era a de que um gigante havia encolhido. O voo solo de Fernanda sai como um movimento de retração, um ajuste nas medidas que amarra o repertório da Nara e o histórico de boas versões produzidas pela banda mineira.

“Na medida do impossível” não tem o repertório da Nara, nem a guitarra do Andy Summers, parceiro em “Fundamental”, de 2012. Desconfortável sozinha, Fernanda reúne novos parceiros, mas o que era para soar novo e diferente se perde na intenção de ser excessivamente pop. Alguma coisa da estética Pato Fu se mantém, muito diluída em litros de água sem gás, mas, no geral, é um disco monótono, pouco inspirado, que chama a atenção apenas quando repete a fórmula de vestir com novas roupas as músicas de outras pessoas. O que funcionou lá em “Onde brilhem os olhos seus” ainda funciona, mas agora com menos força. Lá, o choque entre a musa da bossa nova e o acento eletrônico inventivo do Pato Fu faziam a cama para expor a bem observada relação entre as vozes e o jeito de cantar de Nara e Fernanda. Aqui, por mais interessantes que sejam as versões, elas pisam em um terreno saturado de releituras moderninhas. As escolhas de “Como dizia o mestre” de Benito di Paula, “Mon amour, meu bem, ma femme” de Reginaldo Rossi e “A pobreza (Paixão proibida)” de Renato Barros, se filiam ao movimento de recuperação da música brega, de questionar o uso pejorativo do rótulo, mas que é mais autêntica em artistas que se apropriam dessa estética em seus trabalhos, como Pélico, Bárbara Eugênia, Otto e Cidadão Instigado, por exemplo.

Na mais improvável das versões de uma música de catecismo, Fernanda canta, com a participação do Padre Fábio de Melo, seu pedido de desculpas por ter um dia alimentado o “Capetão”. “Amar como Jesus amou” é o que mais se aproxima do tipo de coisa que o Pato Fu fazia. Tem a ingenuidade das letras bem humoradas e uma base eletrônica de trilha sonora de game assinada pelo produtor japonês Toshiyuki Yasuda. Isso a parte, as participações de Zélia Duncan e Samuel Rosa, além das parcerias com Pitty, Marina Lima, Climério Ferreira e Marcelo Bonfá pouco acrescentam. O peso de todos esses nomes na ficha técnica agrava o fraco resultado.

Takai disse em entrevistas que pop é a palavra-chave do disco. Pelo que se ouve aqui, sua ideia de música pop soa datada até quando se permite experimentar. As trilhas de telenovela expandiram o seu alcance ao colocar bandas como Vanguart, The xx e Gang do Eletro para embalar personagens e histórias de amor. “Na medida do impossível” não percebe, mas diminui as suas chances de aparecer na TV ao fazer todo tipo de concessão à estética de telenovela. A contradição parece mais evidente quando o release diz: “a cantora firma-se cada vez mais como uma das maiores vozes da música nacional”, em um ataque de gigantismo que é anacrônico, mentiroso e vai na contramão do movimento que inaugurou sua carreira solo. É inegável que Fernanda Takai seja um dos grandes nomes do pop-rock dos anos 1990, um dos seus rostos mais marcantes, mas não é a voz que comove, que canta as versões definitivas das músicas. Será que a fofura de seu canto é suficiente para sustentar uma carreira solo do tamanho da sua importância? Talvez não. Isso poderia ser compensado pela escolha do repertório e pelas composições? Possivelmente sim. Mas também nisso ela erra. Diz ter tido o cuidado de não utilizar músicas que poderiam ser do Pato Fu, e, por isso, se cercou de convidados para compor. Ainda assim, com as participações, o ponto é que as músicas apresentadas não são suficientemente boas para o Pato Fu.

“Na medida do impossível” é o mais possível dos discos e Fernanda Takai pode, provavelmente, muito mais.

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